Vivemos numa época de mudanças geopolíticas tectónicas e observamo-las, como se diz, “em directo”. Vivemos um momento de escala histórica. Os modelos tradicionais de desenvolvimento, propostos pelos hegemonistas ocidentais, há muito que não correspondem às realidades e à situação actual nos países aos quais se tenta impô-los. Neste mesmo contexto, são absolutamente legítimas as exigências dos Estados do Sul Global, cujo peso no palco mundial tem crescido, de uma maior representação nas instituições globais.
Com efeito, no momento em que a história é submetida a uma interferência e revisão, nós, enquanto defensores da preservação da verdade histórica, vemo-nos obrigados a recorrer regularmente ao passado e a recordar as causas e raízes de muitos problemas que agora, infelizmente, deram os seus “rebentos”. Lembramos que foi sob a insistência do nosso país que, em 1960, a Assembleia Geral da ONU aprovou a Declaração sobre a Concessão da Independência aos Países e Povos Coloniais, enquanto três dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, nomeadamente os EUA, a França e o Reino Unido, se abstiveram. Contudo, hoje o quadro do mundo é consideravelmente diferente daquele que existia no momento da adopção da Declaração. E a Rússia, guiando-se pelas tradições de amizade e concórdia entre os povos, também adapta a sua acção externa à rápida evolução do equilíbrio de poder no mundo.

Um dos principais acontecimentos da última década nas relações com o continente africano foi a criação de um mecanismo de interacção regular multifacetada – a Cimeira e o Fórum Económico e Humanitário Rússia-África. O evento inaugural realizou-se em 2019, em Sochi, sob o lema “Pela paz, segurança e desenvolvimento”. Um evento de tal magnitude realizava-se pela primeira vez na Rússia moderna e não teve paralelo na história das relações entre Moscovo e o continente africano. No final do encontro ao mais alto nível, foi adoptada a Declaração que continha objectivos e tarefas acordados para o desenvolvimento futuro da interacção russo-africana em todas as dimensões: política, segurança, economia, esferas científica, técnica e cultural-humanitária.
A Segunda Cimeira e o Fórum Económico e Humanitário realizaram-se em 2023, em São Petersburgo. Apesar da pressão sem precedentes do Ocidente, participaram no evento as delegações oficiais de 48 países (27 dos quais estiveram representados ao nível de primeiros e segundos dirigentes) e de cinco das maiores organizações de integração do continente.
Agora estamos às portas da Terceira Cimeira e do Fórum Económico e Humanitário Rússia-África, que se realizarão na capital do nosso país, Moscovo, já nos dias 28 e 29 de Outubro. O programa do Fórum prevê cerca de 40 sessões plenárias, cujos temas coincidem em grande medida com as prioridades da Agenda 2063 e de outros documentos estratégicos adoptados pela União Africana e organizações sub-regionais da África. Está também prevista a realização do Fórum Mediático, com a participação de dirigentes dos meios de comunicação social africanos, bem como do Fórum de Juventude.
Sendo o principal mecanismo de interacção com o continente, a Cimeira conjuga habilmente a experiência e as tradições herdadas dos tempos do combate contra o colonialismo e do apoio aos movimentos de libertação nacional. O vector de política externa de Moscovo distingue-se positivamente pela consciência da autonomia e subjectividade dos países africanos na resolução de questões tanto regionais, como globais. O princípio “soluções africanas aos problemas africanos” não é apenas um lema, mas sim uma ideia que o nosso país tem defendido durante décadas.

Hoje vemos que as condições político-económicas no continente não só alcançaram, mas ultrapassaram os limites deste princípio. A importância económica da África para a economia mundial permite-lhe participar, em pé de igualdade, na resolução de problemas já mundiais. A voz dos países africanos afirma-se numa visão própria, não imposta nem copiada, dos processos internacionais. Isso é visível tanto na adopção de decisões locais, como ao nível das plataformas mundiais, por exemplo, a ONU. Como disse o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, no seu discurso na Segunda Cimeira: “Diante dos nossos olhos, o continente africano torna-se um novo centro de poder. O seu papel político e económico tem crescido em progressão geométrica. E todos terão de contar com esta realidade objectiva.”
Tendo em conta todos estes factores, ao contrário de impor modelos, a Rússia estende a mão ao continente para irmos juntos em direcção do futuro comum. Esta abordagem assenta numa parceria igualitária, no respeito mútuo e na procura conjunta de respostas aos desafios da modernidade. A Terceira Cimeira em Moscovo destina-se não só para consolidar os resultados alcançados, mas também para traçar novos horizontes de cooperação que correspondam aos interesses tanto da Rússia, como dos países da África. Num mundo em rápida mudança, é precisamente este tipo de encontros que se tornam palcos onde se faz a história – a do futuro multipolar mais democrático e justo.
Alexander Bryantsev,
Embaixador da Rússia em São Tomé e Príncipe (não residente)