Sociedade

Laurinda Simões primeira mulher feitora de uma roça, no caso Chamiço

laurinda.jpgÉ a primeira mulher são-tomense a dirigir uma empresa agrícola, ou seja, uma roça. Nas terras de Chamiço que começam em Mé-zochi, centro de São Tomé e só terminam em Lembá no norte da ilha, numa extensão de 350 hectares, foram semeados café de qualidade. Laurinda Simões comandou os homens e mulheres que desbravaram a floresta íngreme. Ela foi a primeira feitora da história de São Tomé e Príncipe. Em entrevista ao Téla Nón, a feitora recorda os tempos de glória, quando havia trabalho nas roças. Quando Chamiço produzia centenas de toneladas de café. Hoje a roça onde se desenvolve também o turismo rural, produz menos de 1 tonelada de café por ano.

Subindo as montanhas de Monte Café, deixa-se para trás a antiga grande roça, e fica-se dominado pela floresta densa. De Monte Café para a sua antiga dependência Chamiço, são cerca de 30 quilómetros de distância. Um caminho lamacento, encravado entre montanhas e alguns desfiladeiros.

Uma vegetação densa, que faz o viajante sentir-se noutro mundo, ou melhor, num dos pulmões de São Tomé. O ar é puro, banhado por cursos de água cristalina que brotam das montanhas. O manto verde criado por árvores de grande porte cobre a estrada, ao ponto de 12 horas parecerem 17 horas da tarde.

chamico.jpgO sol tem dificuldade para penetrar na selva densa. O clima da montanha, é dominante. Nos ramos e troncos das árvores nascem musgos porque a temperatura sobretudo a noite é muito baixa em relação ao resto do país.

Vários tipos de pássaros fazem festa na floresta. É desta companhia singular que o viajante desfruta na descoberta da selva mais virgem de São Tomé e de Chamiço a roça mais distante da sua antiga sede, Monte Café.

Pelo caminho de trajecto difícil, para quem viaja de carro, surgem escombros de antigas roças que pertenciam a Monte Café. Antigas roças engolidas pela floresta densa e que escondem histórias de bravura de negros africanos que pela força dos braços, no passado, desbravaram a selva densa, venceram a cobra preta e outros obstáculos, e fizeram as montanhas do centro de São Tomé, produzir café de qualidade que deu fama ao país no mundo.

Só mais tarde é que o caminho de surpresas mostra Chamiço. Nesta Roça a sanzala ainda está de pé. A casa do feitor está bem conservada. No interior vive uma mulher, chama-se Laurinda Simões. Os filhos Já levaram-na para Portugal, onde só entrevista.jpgficou algumas semanas. Rapidamente quis regressar e regressou, para a sua montanha, para Chamiço, a roça onde desde 1967 comanda homens e mulheres no trabalho árduo de plantação, tratamento e colheita do café. «A roça era fechada nós é que abrimos, isso ainda na era colonial. Era um matagal abrimos e ficamos a explorar. Depois de 25 de Abril de 1974, ou melhor depois da independência em 1975, a roça foi nacionalizada. Eu fiquei como feitora da roça até finais da década de 90 quando se decidiu criar médias empresas e continuei aqui a administrar Chamiço», explicou Laurinda Simões.

Num país machista por tradição, uma mulher como feitora de uma roça e no período do monolitismo político, tinha mesmo que ter pulso. Uma mulher de fibra. Laurinda Simões, sorri e não comenta as declarações do Téla Nón.

Certo é que com a sanzala cheia de contratados, na era colonial, e também nos primeiros anos pós independência, é ela residencial.jpgquem representava a autoridade no quintal de Chamiço. Toda tarefa era definida por ela. A feitora tinha que gerir os recursos humanos e materiais da roça, para produzir centenas de toneladas de café por ano.

Conviveu com serviçais angolanos, moçambicanos, e cabo-verdianos. «Antes era melhor. Hoje não se trabalha. Hoje todo tipo de trabalho que se faz é aldrabado. Eu ia com os trabalhadores para o mato e cumpria-se com a tarefa. A produção aqui foi sempre café. A produção era grande, mas agora praticamente não dá nada», reclamou.

Com 350 hectares, Chamiço, só termina no norte da ilha de São Tomé, na fronteira com a roça Fortunato, dependência da antiga empresa Ponta Figo.  Terra extensa que era devidamente cultivada por mais de 30 trabalhadores residentes. Enquanto feitora, Laurinda Simões recebia também apoio em mão de obra da sede Monte Café. «Nos primeiros 15 anos da independência quando pertencia Monte Café, esta roça tinha mais de 30 trabalhadores residentes, para além da mão-de-obra em reforço que vinha de Monte Café», sublinhou.

Hoje, a roça conta apenas com 5 trabalhadores. «No ano passado produzimos menos de 1 tonelada de café e este ano vai ser a mesma coisa. Talvez por falta de mão-de-obra. As pessoas já não querem trabalhar na roça», frisou.

residenciais.jpgHorticultura é outra actividade em curso. Banana é uma das produções de destaque, chega mesmo a amadurecer no galho, coisa rara actualmente em São Tomé e Príncipe. Outra novidade de Chamiço tem a ver com o facto de praticamente não acontecer roubos. Laurinda Simões abre sorriso, quando fala disso, porque sabe que nas zonas próximas da cidade de São Tomé o roubo nas plantações tornou-se incontrolável. «É assim as pessoas querem estar todas a beira da cidade. Como aqui é longe estamos em paz», pontuou.

É nessa paz, nesse sossego profundo, nesse ambiente singular que mata o stress e retempera o espírito humano, que Laurinda Simões encontrou motivos fortes para lançar o turismo rural. Algumas casas da sanzala colonial, foram transformadas em quartos para turistas. A casa da Feitora também oferece quartos para os visitantes. «As pessoas que visitam gostam. A comida então!As pessoas ficam encantadas. Calulu, cachupa e outros pratos da terra», salientou a antiga feitora.

No entancasa-patrao.jpgto o número de visitas é muito reduzido. «Uns vêm e ficam, comem e depois passeiam na floresta. Fazem caminhada daqui até o jardim botânico em Bom Sucesso» declarou.

Caminhada pela floresta densa e singular em São Tomé, anima o turismo rural e ecológico de Chamiço. O Téla Nón, gostou muito de sentir mais uma vez, a magia da natureza que esconde Chamiço no meio da floresta e sobre a montanha. No sossego, num ambiente coberto de hora em hora por nevoeiro, o sabor da carne de porco selvagem (porco de mato) habilidosamente preparada por Laurinda Simões, tornou o dia e a tarde do Téla Nón em Chamiço num paraíso.

Para chegar a roça existe uma via de acesso mais fácil e rápido, que implica a passagem pelo quintal da roça Agostinho Neto. No entanto não se deve desperdiçar, o encanto da manifestação do poder da natureza, que só é sentida e observada quando se faz o percurso a partir da antiga sede de Chamiço, a roça Monte Café.

Abel Veiga

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