
Subindo as montanhas de Monte Café, deixa-se para trás a antiga grande roça, e fica-se dominado pela floresta densa. De Monte Café para a sua antiga dependência Chamiço, são cerca de 30 quilómetros de distância. Um caminho lamacento, encravado entre montanhas e alguns desfiladeiros.
Uma vegetação densa, que faz o viajante sentir-se noutro mundo, ou melhor, num dos pulmões de São Tomé. O ar é puro, banhado por cursos de água cristalina que brotam das montanhas. O manto verde criado por árvores de grande porte cobre a estrada, ao ponto de 12 horas parecerem 17 horas da tarde.

Vários tipos de pássaros fazem festa na floresta. É desta companhia singular que o viajante desfruta na descoberta da selva mais virgem de São Tomé e de Chamiço a roça mais distante da sua antiga sede, Monte Café.
Pelo caminho de trajecto difícil, para quem viaja de carro, surgem escombros de antigas roças que pertenciam a Monte Café. Antigas roças engolidas pela floresta densa e que escondem histórias de bravura de negros africanos que pela força dos braços, no passado, desbravaram a selva densa, venceram a cobra preta e outros obstáculos, e fizeram as montanhas do centro de São Tomé, produzir café de qualidade que deu fama ao país no mundo.
Só mais tarde é que o caminho de surpresas mostra Chamiço. Nesta Roça a sanzala ainda está de pé. A casa do feitor está bem conservada. No interior vive uma mulher, chama-se Laurinda Simões. Os filhos Já levaram-na para Portugal, onde só 
Num país machista por tradição, uma mulher como feitora de uma roça e no período do monolitismo político, tinha mesmo que ter pulso. Uma mulher de fibra. Laurinda Simões, sorri e não comenta as declarações do Téla Nón.
Certo é que com a sanzala cheia de contratados, na era colonial, e também nos primeiros anos pós independência, é ela 
Conviveu com serviçais angolanos, moçambicanos, e cabo-verdianos. «Antes era melhor. Hoje não se trabalha. Hoje todo tipo de trabalho que se faz é aldrabado. Eu ia com os trabalhadores para o mato e cumpria-se com a tarefa. A produção aqui foi sempre café. A produção era grande, mas agora praticamente não dá nada», reclamou.
Com 350 hectares, Chamiço, só termina no norte da ilha de São Tomé, na fronteira com a roça Fortunato, dependência da antiga empresa Ponta Figo. Terra extensa que era devidamente cultivada por mais de 30 trabalhadores residentes. Enquanto feitora, Laurinda Simões recebia também apoio em mão de obra da sede Monte Café. «Nos primeiros 15 anos da independência quando pertencia Monte Café, esta roça tinha mais de 30 trabalhadores residentes, para além da mão-de-obra em reforço que vinha de Monte Café», sublinhou.
Hoje, a roça conta apenas com 5 trabalhadores. «No ano passado produzimos menos de 1 tonelada de café e este ano vai ser a mesma coisa. Talvez por falta de mão-de-obra. As pessoas já não querem trabalhar na roça», frisou.

É nessa paz, nesse sossego profundo, nesse ambiente singular que mata o stress e retempera o espírito humano, que Laurinda Simões encontrou motivos fortes para lançar o turismo rural. Algumas casas da sanzala colonial, foram transformadas em quartos para turistas. A casa da Feitora também oferece quartos para os visitantes. «As pessoas que visitam gostam. A comida então!As pessoas ficam encantadas. Calulu, cachupa e outros pratos da terra», salientou a antiga feitora.
No entanto o número de visitas é muito reduzido. «Uns vêm e ficam, comem e depois passeiam na floresta. Fazem caminhada daqui até o jardim botânico em Bom Sucesso» declarou.
Caminhada pela floresta densa e singular em São Tomé, anima o turismo rural e ecológico de Chamiço. O Téla Nón, gostou muito de sentir mais uma vez, a magia da natureza que esconde Chamiço no meio da floresta e sobre a montanha. No sossego, num ambiente coberto de hora em hora por nevoeiro, o sabor da carne de porco selvagem (porco de mato) habilidosamente preparada por Laurinda Simões, tornou o dia e a tarde do Téla Nón em Chamiço num paraíso.
Para chegar a roça existe uma via de acesso mais fácil e rápido, que implica a passagem pelo quintal da roça Agostinho Neto. No entanto não se deve desperdiçar, o encanto da manifestação do poder da natureza, que só é sentida e observada quando se faz o percurso a partir da antiga sede de Chamiço, a roça Monte Café.
Abel Veiga