Sociedade

As Roças roçam o mundo aqui mesmo

As roças marcam o passado de São Tomé e Príncipe, fazem a história do país. O mundo mudou, mas as roças pelo seu valor patrimonial são convocadas pelo futuro, para dar sustentabilidade e progresso a São Tomé e Príncipe.

«O nosso futuro está muito ligado ao passado. Temos de voltarmos outra vez a terra, e plantarmos cada vez mais…», desabafou João Carlos Silva, gestor da Roça São João no sul da ilha de São Tomé.

No terreiro da roça São João uma das poucas do país, cujo património arquitectónico foi preservado, o Téla Nón leu uma estrofe escrita na parede, que reflecte a ligação entre o passado e o futuro.

No passado as roças de São Tomé e Príncipe roçaram o mundo, e fizeram o país ser conhecido com fama do bom cacau e café. O futuro convoca o arquipélago para a preservação do património histórico-cultural das roças, como fonte de rendimento sustentável.

«A primeira nota é manter a traça da arquitectura colonial, isso é um ganho. Uma manutenção diária. A segunda nota é como reverter a roça a nosso favor. Através da agricultura, pecuária, preocupações ambientais, formação na área de restauração e turismo», alertou João Carlos Silva.

A roça São João já começou a dar passos para o encontro com o futuro sustentável. «A residência artística nacional, cada vez mais artistas de vários lugares do mundo a procurarem este espaço para ficar. Trabalhamos com biólogos, trabalhamos com muitos alemães...», acrescentou.

O património construído pelas roças no passado é tão valioso, que na actualidade, em pleno século XXI e para o futuro, os antigos colonizadores e patrões decidem mudar de estatuto. Preferem trabalhar como contratados na roça.

«Os próprios turistas fazem -se de trabalhadores, porque eles querem viver experiências únicas. São eles que colhem o cacau, que tratam da matabala, da mandioca, porque querem levar depois imagens e experiências. São os nossos contratados hoje. Nós revertemos as coisas, até brincamos com eles, e eles acham piada. Eles pagam para ser nossos trabalhadores», relatou João Carlos Silva.

O gestor da roça reconheceu que São João, é uma realidade de desenvolvimento integrado no espaço rural, que pode ser motivo de inspiração para outras roças de São Tomé e Príncipe.

«Quando falamos agora da candidatura de 6 roças do país para património da UNESCO, e deveremos ter boas notícias sobre isso em 2026, temos que ter visão para proteger o património, mas também sabermos tirar rendimento deste mesmo património que nós protegemos», sublinhou.

Para além das várias fontes de rendimento que as roças podem potenciar, elas foram no passado e serão no futuro, o garante da segurança alimentar. O retorno ao cultivo de produtos tradicionais africanos, pode ser a âncora da segurança alimentar no século XXI.

«Irmos ao encontro do outro caminho, que é a nossa ancestralidade africana e produzirmos aquilo que temos condições para produzir, Inhame, matabala, banana. fruta pão, etc. É a segurança alimentar garantida por nós próprios. Ou seja, temos de ter uma estratégia, no sentido de não ficarmos dependentes do arroz que vem do Japão, das inúmeras importações que fazemos, algumas delas de origem duvidosa e de qualidade mais duvidosa ainda», frisou João Carlos Silva.

No fundo a estrutura polivalente das roças desafia São Tomé e Príncipe a promover a segunda independência do país.

«Já não a primeira independência, em que ficamos com as roças como estão. Mas sim através dessas terras que constituem as roças, acompanhadas por mecanismos de financiamento com juros bonificados, promovermos a segunda independência nacional», explicou.

A degradação e o abandono pelos santomenses durante 35 anos de um património tão rico como as roças, é entendido por João Carlos Silva como resultado do facto de muitos santomenses não terem «ligação nem com as roças nem com a terra».

Encheu os pulmões do ar puro que circula no terreiro da roça São João, para denunciar a falta de amor a terra. «Há santomenses que só são santomenses de nacionalidade, pelo facto de terem nascido cá. Eles não se apropriaram ainda de São Tomé e Príncipe como a sua terra, mais do que país, como a sua terra», concluiu João Carlos Silva.

O futuro aconselha São Tomé e Príncipe a voltar a terra, para a roça.

Abel Veiga

1 Comment

1 Comment

  1. Fernando Coanhas

    18 de Dezembro de 2025 at 18:52

    É verdade Sr.Carlos
    Os naturais de S.Tome nunca gostaram do trabalho agrícola dessa maravilhosa ilha.
    É na agricultura que a vossa ilha pode gerar muita riqueza, pela qualidade dos produtos que aí encontram condições de clima com terras férteis e que poderia dar emprego a muita gente!
    Estive aí nos anos 60/70 e produtos como o coco, cacau, café, óleo de palma eram do melhor, para não falar depois da riqueza em carne e peixe que por aí abunda.
    Abraço a todos os s.tomenses.
    Façam-se á vida.

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