Sociedade

Oceanos e zonas geladas estão pagando o preço do aquecimento global

PARCERIA Téla Nón / Rádio ONU

Novo relatório do Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas, Ipcc, diz que mudanças são urgentes; velocidade da subida dos oceanos é o dobro do que era no século 20; em muitas regiões, eventos climáticos que aconteciam uma vez a cada século devem passar a ocorrer a cada dois anos.

As águas estão aquecendo, o gelo está derretendo rapidamente, o nível dos oceanos está subindo e todas essas mudanças têm implicações para os seres vivos do planeta Terra.

Essa é a principal conclusão de um novo relatório do Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas, Ipcc, publicado esta quarta-feira no Mônaco.

Antes e depois do branqueamento de corais na Grande Barreira de Corais, The Ocean Agency/WL Catlin Seavi

Ação
A pesquisa destaca “a urgência de priorizar ação atempada, ambiciosa e coordenada para resolver mudanças duradouras no oceano e na criosfera”, que representa todos as zonas geladas.

Antes da divulgação do relatório, o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, contou à ONU News que a ação coletiva é fundamental, e citou a Conferência dos Oceanos das Nações Unidas, que Portugal está organizando com o Quênia para junho de 2020, em Lisboa.

“O clima, também ele, tem a ver com os oceanos. A vida humana, do presente e do futuro, tem a ver com os oceanos. E só uma resposta global permite resolver problemas globais. A proteção da biodiversidade, a investigação cientifica, o aprofundamento daquilo que é econômico, mas deve respeitar uma dimensão social e humana.”

Custos
Por um lado, o estudo revela os benefícios de uma adaptação ambiciosa para o desenvolvimento sustentável e, por outro, os custos crescentes de uma ação adiada.

Os oceanos e a criosfera têm um papel essencial para a vida na Terra. Cerca de 670 milhões de pessoas vivem em regiões montanhosas e 680 milhões vivem em zonas baixas junto à costa, que dependem diretamente desses ecossistemas.

O aquecimento global já atingiu 1º C face aos níveis pré-industriais. Segundo a pesquisa, existem “provas avassaladores de que isto tem consequências profundas para os ecossistemas e para as pessoas.”

Em nota, o presidente do Ipcc, Hoesung Lee, disse que “o mar aberto, o Ártico, a Antártida e as montanhas podem parecer distantes para muitas pessoas, mas o mundo depende delas e é influenciado por elas diretamente de muitas formas.”

Segundo ele, os efeitos já se sentem no clima, alimentos, água, energia, transporte, comércio, turismo, saúde, bem-estar e até cultura. Lee disse que, se as emissões forem cortadas de forma acentuada, o mundo “aumenta a capacidade de criar resiliência e irão existir mais benefícios para o desenvolvimento.”

Lembre aqui o especial da ONU News sobre o impacto da mudança climática nas geleiras do Peru:

Mudanças
A vice-presidente do Ipcc, Ko Barrett, afirmou que os oceanos sofrem com a mudança climática há décadas e, agora, “as consequências para a natureza e a humanidade são vastas e severas.”

Segundo Barret, as mudanças rápidas estão forçando pessoas em cidades costeiras e comunidades remotas do Ártico a mudar seus modos de vida.

Um dos exemplos do relatório são os deslizamentos de terras, avalanches e cheias. Glaciares menores, como os que são encontrados na Europa, devem perder 80% da sua massa de gelo até 2010. Isso deve ter impactos no turismo e cultura desses locais, mas também baixar a disponibilidade de água, afetando os setores da agricultura.

Efeitos
O nível dos oceanos subiu 15 centímetros no século 20, mas nesse momento está subindo com o dobro da velocidade, cerca de 3.6 milímetros todos os anos, e o ritmo está acelerando. Se a situação não for alterada, os oceanos devem subir entre 30 a 60 centímetros até ao final do século.

Isso deve aumentar a frequência de desastres naturais. Segundo o estudo, com 1º C de aumento de temperatura, eventos climáticos que aconteciam uma vez a cada século passarão a ocorrer a cada dois anos em muitas regiões. Alguns Pequenos Estados Insulares, Sids, na sigla em inglês, devem deixar de ser habitáveis.

Lagoa glaciar na Islândia, com blocos de gelo de um glaciar que está derretendo, ONU News/Laura Quiñones

Alimentos
Entre 1970 e a atualidade, os oceanos absorveram 90% da temperatura excessiva. Até 2010, devem absorver entre duas a quatro vezes mais calor.

A frequência de ondas de calor marinhas duplicou desde 1982 e estão ficando mais intensas e longas. Estes fenômenos serão 20 vezes mais frequentes com um aumento de 2º C, quando comparando com o período pré-industrial.

O aquecimento dos oceanos, a sua acidificação e a perda de oxigênio já estão tendo efeitos nas zonas costeiras. Mudanças nos recursos pesqueiros reduziram o potencial de pescado anual e mais descidas estão previstas. Segundo o relatório, comunidades que dependem da pesca devem enfrentar riscos de saúde e segurança alimentar.

Gelo
O relatório também explica a diferença entre um aumento de 1.5º C ou de 2º C. No Ártico, por exemplo, o oceano apenas ficará sem gelo em sua superfície durante o mês de setembro a cada 100 anos. Por outro lado, se as temperaturas subirem 2º C, isso deve acontecer a cada três anos.

O relatório conclui que, reduzindo emissões, protegendo ecossistemas e usando recursos naturais com cuidado, é possível “preservar o oceano e a criosfera como uma fonte de oportunidades.”

A co-presidente do Grupo de Trabalho II do Ipcc, Debra Roberts, avisa que isso só será conseguido com “transições sem precedentes em todos os aspectos da sociedade.” Segundo ela, este novo relatório “oferece o melhor conhecimento científico disponível para capacitar governos e comunidades a agir.”

Relatório
O relatório foi produzido por mais de 100 especialistas, de 36 países, que analisaram as informações mais recentes publicadas em mais de 7 mil estudos científicos.

Este é o terceiro relatório especial do Ipcc em 12 meses. Primeiro, os especialistas analisaram as consequências de um aumento de temperatura de 1.5 C, depois investigaram como os solos do planeta seriam afetados pela mudança climática.

Relatório do Ipcc destaca que a falta de ações em relação à mudança climática resultará em perdas ainda maiores dos recifes de coral


Dia Mundial dos Oceanos/Gaby Barathieu

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