Sociedade

A geração que sonha com a partida

Formada em Ciências Farmacêuticas, Evanilde Espírito Santo concluiu os estudos em Portugal e regressou recentemente a São Tomé e Príncipe. No entanto, o regresso ao país ficou marcado por um sentimento de desilusão.

“Não temos desenvolvimento. As farmácias não têm medicamentos, os hospitais enfrentam as mesmas carências, as estradas estão degradadas e o sistema de saúde encontra-se numa situação preocupante. Para mim, é muito difícil regressar a casa“, lamentou.

Após quatro anos no estrangeiro, a jovem diz compreender melhor as razões que têm levado cada vez mais santomenses, sobretudo os mais jovens, a procurar oportunidades fora do país.

“O problema está na sociedade que temos e nas dificuldades de base que continuam por resolver”, afirmou.

Num país onde a juventude representa a maior fatia da população, os desafios multiplicam-se e as respostas tardam em surgir.

O acesso ao emprego continua a liderar as preocupações dos jovens. A par disso, persistem dificuldades no acesso à educação, à habitação e até à terra, num país com forte vocação agrícola.

“Um dos principais desafios é o emprego. Temos também problemas relacionados com o acesso à educação, que muitas vezes fica aquém das expectativas dos jovens, à habitação e, porque não dizê-lo, ao acesso à terra“, referiu Cristiano Dondo, presidente da Federação das Organizações Não-Governamentais de São Tomé e Príncipe.

As críticas estendem-se igualmente ao sistema de formação profissional.

“Temos muitos centros de formação e escolas, mas é preciso refletir sobre o tipo de formação que estamos a oferecer. Estamos a capacitar os jovens para o mercado de trabalho ou apenas a prepará-los para o desemprego?“, questionou Nadya Catraio, coordenadora da REINA.

Para o jornalista Euclydes Amadeu, o essencial passa por criar oportunidades que permitam aos jovens transformar dificuldades em perspetivas de futuro.

“É preciso preparar a juventude para identificar oportunidades mesmo em contextos adversos. Isso faz-se através da formação, da capacitação e da criação de espaços onde os jovens possam demonstrar o que sabem e desenvolver as suas competências nas áreas económica, social, científica e artística. Existem muitos caminhos para que a juventude possa vencer, mas é necessário que tenha oportunidades“, defendeu.

A ausência de políticas públicas orientadas para as necessidades da juventude é apontada por muitos como um dos principais entraves ao desenvolvimento do país.

“As políticas públicas não são desenhadas a pensar na nossa realidade nem nas nossas necessidades. Por isso, acabam por ser sempre insuficientes“, observou Nadya Catraio.

Quarenta e sete anos após a criação do Dia da Juventude Santomense, a maioria dos jovens admite a possibilidade de emigrar, apontando o desemprego, as dificuldades de acesso à saúde e a exclusão social entre os principais fatores que impulsionam essa decisão.

José Bouças

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