Opinião

Vergonha de não ter vergonha – Opinião

Vergonha é um inibidor social que nos impede de exibir determinadas atitudes, praticar actos que possam ser vistos como moral e socialmente… vergonhosos. Quando este limitador desaparece, a falta de vergonha ganha estatuto de coragem, desinibição, abertura de espírito e tantos outros qualificadores supostamente positivos. Diz-se que quem não tem vergonha, todo o mundo é seu.

SubVersões #6

Vergonha de não ter vergonha

Vergonha é um inibidor social que nos impede de exibir determinadas atitudes, praticar actos que possam ser vistos como moral e socialmente… vergonhosos. Quando este limitador desaparece, a falta de vergonha ganha estatuto de coragem, desinibição, abertura de espírito e tantos outros qualificadores supostamente positivos. Diz-se que quem não tem vergonha, todo o mundo é seu.

Este espaço é, supostamente, de subversão, de quebrar regras, mas, não poucas vezes, dou comigo a defender causas profundamente conservadoras, sobretudo quando envolvem a ética e os bons costumes, tal como fui ensinado a percepcioná-los. Mas quem sou eu para dar lições de moral a seja quem for? Não é disso que se trata. Não é minha intenção julgar ou fazer juízos de valor sobre a atitude desta ou daquela pessoa, porque também tenho telhados de vidro e não sou propriamente um santo. Enfim, também tenho as minhas “vergonhas”, embora de natureza estritamente privada.

Prometi-me deixar, porque a nossa sociedade também não aprecia, o hábito de apontar acusatoriamente o dedo a este ou a aquele governante ou político. Por essa razão e porque, enfatizo, não é disso que se trata, não resisto em comentar o dito escândalo que envolveu o demissionário ministro da Saúde. Não conheço a pessoa em questão pelo que não me move nada de pessoal nem de particular, ressalvando que, como qualquer desconhecido, merece-me o benefício da dúvida. Portanto, comento apenas a atitude do político e não o carácter da pessoa.

Não sei, por outro lado, se o agora ex-ministro é um agressor ou, se pelo contrário, não será antes uma das muitas vítimas do processo de desestruturação moral que temos assistido no país, fenómeno que já leva décadas e não dá sinais de inversão, bem pelo contrário.

Espantosamente o ministro não se demitiu porque tenha tido algum rebate de consciência, tenha reconhecido que procedeu de forma menos correta no exercício das suas funções, protagonizando um ingénuo, mas descarado e básico ato de nepotismo.

Bem pelo contrário, pasme-se, demitiu-se em nome dos superiores interesses da nação, para, mantenham por favor o ar de espanto, evitar uma crise política ou criar desconforto político no seu partido ou na dita interpartidária! Nem mais nem menos que um acto heróico, altruísta e majestoso, digno de um verdadeiro estadista.

Não fosse esse mesquinho e insignificante detalhe do momento político e o político em questão teria encolhido os ombros, assobiado para o ar e continuado tranquila e serenamente no seu cadeirão de ministro distribuindo alegremente benesses por familiares e amigos por ele investidos no pomposo cargo de conselheiros, uma espécie de séquito.

Há um bom par de anos ouvi de adolescentes (portugueses) uma lapidar frase: “vergonha é roubar e ser apanhado”. Da minha parte fazer uso indevido de bens é sempre vergonhoso, sendo apanhado ou não. Mas quando somos apanhados e não revelamos qualquer sentimento de vergonha, de embaraço é porque estamos perigosamente no trilho da sociopatia.

O nosso político, ao optar por convocar uma conferência de imprensa para anunciar a sua demissão e procurar explicar o politicamente inexplicável, ao invés de, pela calada, envergonhadamente, pedir a sua demissão e sair pela porta dos fundos, revelou níveis manifestamente baixos de vergonha, mesmo para um político.

É caso virgem em STP? Nem por isso. São mais que muitos os maus exemplos, mas nem por isso podemos, os que ainda não pisaram a linha da moral e dos bons costumes, deixar de sentir vergonha, por ele e não dele.

SubVersivamente

Alcídio Montóia Pereira

alcidiopereira@yahoo.com

    10 comentários

10 comentários

  1. Eusébio Pinto

    14 de Janeiro de 2014 as 14:25

    Excelente e oportuno artigo de opinião.

    Parabéns ao Sr. Alcídio Pereira!

    Eusébio Pinto
    Luanda – Angola

  2. Manuel

    14 de Janeiro de 2014 as 20:08

    Caro Alcidio.
    Concordo plenamente com a sua abordagem do tema.
    MC
    M

  3. Barão de Água Izé

    14 de Janeiro de 2014 as 22:31

    O relativismo também infectou a ética e a moral. O relativismo, posição filosófica defendida pelo materialismo dialético, não é mais que a observação de fenómenos sociais, incluindo comportamentos, em função do ângulo de observação. Depende…., por que não….; tudo é válido…
    O politicamente correcto é filho do relativismo. O citado ex-ministro não sente vergonha, porque depende do ângulo de abordagem…….

  4. anonimo

    15 de Janeiro de 2014 as 6:56

    100% de acordo consigo

  5. Aristides Barros

    15 de Janeiro de 2014 as 7:41

    Gostei da reflexão. Excelente.

  6. filho da terra

    15 de Janeiro de 2014 as 8:41

    gostei imenso disto mas eu espero k o senhor não seje daqueles, que quando avizinha as eleições, vêm com doces proverbios para candidatar pra ganhar as eleições… mas gostei muitos precisamos de gente como senhor. STP agradece. Força Senhor…

    • DIASPORANO .CV

      15 de Janeiro de 2014 as 17:05

      Às vezes ficar calado é melhor… O teu comentário estraga a qualidade da opinião.Ou és dos que gostam porque ouviram outros dizerem que gostam ou é um dos que a carapuça serve… Reflexão exige reflexão, meu caro conterrâneo. Abraço

  7. Poto Zamblala

    16 de Janeiro de 2014 as 8:02

    Muito bem Alcidio. Meus parabéns pela reflexão. E como disse “alguém” reflexão é reflexão, todavia seria bom dares um pouco mais do que as rotineiras reflexões em função de oportunidades. Como se diz, ” a oportunidade faz ladrão”. Claro que não é este o teu caso, mas ainda assim, procure emitir também pontos de vistas que não se limitem apenas a análise de criticos casos, para que não surjam comentários do tipo do senhor “filho da terra”.

  8. leonel carvalho

    29 de Janeiro de 2014 as 19:08

    Meu caro Alc

  9. leonel carvalho

    29 de Janeiro de 2014 as 22:44

    É preciso ter a coragem de dizer o que vai na alma.Foi assim que os nossos pais nos ensinaram e nao termos medo de dizer o que pensamos . Já vai longe e de mais a pulha vergonha destas cabecas sem rostos ,Concordo plenamente com a sua crítica meu caro conteraneo .Só assim poderemos limpar a vergonha das vergonhas que o nosso país carrega . Bem haja Alcidio . Um grande abraco a todos a partir de Berlim

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