Opinião

Mataram o rio da minha cidade, os bons hábitos e costumes do meu povo e a imagem do meu país

Há não muito tempo era comum, no estrangeiro, responder-se afirmativamente e com orgulho a pergunta: és são-tomense? Hoje o cenário parece ser outro e é até um pouco embaraçador. Há dias numa instituição pública portuguesa, fui abordado por uma turista que aproveitou para mostrar a sua indignação após umas férias em São Tomé. A sua revolta tinha que ver sobretudo com as condições em que se encontra a nossa cidade capital. Dizia-me ela ” Vocês têm um país com enormes potencialidades, mas creio que não estão a dar o devido valor.

A cidade está muito suja e algumas artérias chegam mesmo a cheirar mal.” Contou que viu por exemplo, “um varredor de rua que fazia pequenos montes de lixo em frente ao hotel em que estava hospedada, foi até ele e perguntou o porquê de não recolher o lixo e este respondeu-a que a Câmara Municipal não tinha condições para isso.” A turista em questão disse “ter ficado perplexa uma vez que sabia das dificuldades do país, mas nunca imaginara que seria até esse ponto.” Outro desconforto que sofreu em São Tomé tem que ver com o transporte que é atualmente utilizado para levar os turistas ao Ilhéu das Rolas. Segundo a mesma “estão a utilizar uma barca sem qualquer segurança, que em São Tomé são mais conhecidas como canoas.” Vai mais longe e diz mesmo que temeu pela sua vida. Resumindo e concluindo, ouvia falar muito bem de São Tomé e Príncipe e por isso sempre lá quis ir, mas agora que teve essa experiência não sabe se quer lá voltar. Confesso que, foi embaraçoso ouvir tudo isto de alguém de fora, ainda por cima, numa altura em que se ouve muito falar em investimentos no sector do turismo e atração de investimentos estrangeiros.

Nesta perspetiva é caso para dizer: há que arrumar primeiro a casa para depois convidar pessoas, tudo porque se me convidas para a tua casa, mas esta encontra-se suja e em más condições de apresentação e habitabilidade, eu até posso lá ir uma vez, mas depois, mesmo que insistas vou sempre arranjar uma desculpa para não mais lá voltar.

Urge então encontrar soluções para melhorar a imagem do arquipélago são-tomense. Infelizmente a saudosa poetisa Alda do Espírito Santo, num rompante profético vislumbrou então o futuro quando escreveu “Mataram o rio da minha cidade”, mas não só, descortinou também a triste realidade que hoje se vive no país que é: a perda dos bons hábitos e costumes do povo. Pelas razões que já aquí elenquei ouso-me em acrescentar a morte da imagem das ilhas, que foram sempre conhecidas como, as ilhas verdes do equador com paisagem e praias exuberantes.

O país real

São Tomé e Príncipe é constituído por duas ilhas e nessa altura de muitas transformações, não há como não constatar o contraste entre as mesmas. Hoje é cada vez mais comum ouvir-se mesmo entre os turistas, que compensa mais visitar a ilha do Príncipe do que a de São Tomé. Tudo porque, enquanto no Príncipe há um esforço visível das autoridades e da sociedade civil para melhorar a imagem da ilha o que engloba por exemplo campanhas simples de sensibilização, como a de recolha de garrafas de plástico das ruas ou a implementação de projetos mais abastados de infraestruturação, sempre enquadrados na política de prevenção ambiental já que, a ilha é considerada património mundial da biosfera pela UNESCO.

Em São Tomé verifica-se o contrário. Os sucessivos governos e a sociedade civil observam como que impávidos e serenos a queda da cidade que é o principal cartão de visita da ilha. Outrora conhecida como uma das mais belas capitais de África, a cidade de São Tomé com mais de 500 anos de existência padece hoje de graves problemas que entre outros podemos apontar, o roubo declarado de inertes das praias o que faz com que elas já não sejam tão belas como antes, a deterioração do sistema de esgotos, o que faz com que a cidade fique completamente alagada quando chove, ou o corte indiscriminado de árvores para todos tipos de objetivos, sejam eles construções ou para fazer carvão, o que por si só está a pôr em causa  o verde da ilha ( a flora, a fauna: habitat natural).

A cidade

Como consequência da pobreza que afeta mais de 70% da população, a cidade de São Tomé tem crescido a olhos vistos nos últimos 20 anos. O êxodo das populações das roças para a cidade capital deixa desde logo mais evidente um dos principais problemas da cidade que é a falta do ordenamento do território. As construções são feitas umas em cima de outras sem levar em conta um plano urbanístico que privilegie por exemplo, vias de acesso de emergência. O velho bairro do Riboque é uma imagem de marca na cidade e ilustra bem as minhas palavras. Eu sou do tempo em que havia a chamada “grota”, ou seja, o mato desabitado geralmente atrás das casas. Por causa do aumento vertiginoso da cidade as “grotas” todas da minha infância, hoje são novas zonas ou comunidades que ressurgiram entre outras já existes. Exemplifico ao usar esta simples equação :

Antigamente = Passava-se de Chácara + mato para chegar à Lucumi + mato para chega à Riboque

Hoje = Passa-se de Chácara + nova comunidade para chegar à Lucumi + nova comunidade para chegar à Riboque

Para além da questão do ordenamento do território, o aumento da população e a pobreza tornaram evidentes na cidade as consequências do capitalismo. Na cidade reina o clima de “salve-se quem puder”, tudo é usado de forma a conseguir o chamado “profit”. Vende-se de tudo e em todo lado. Ruas, passeios e esquinas estão inundados por vendedores ambulantes. Não há uma orientação comercial, uma organização/instituição, personalidade ou governante que consiga ou ao menos tente meter alguma ordem naquilo em que se transformou a cidade. O lixo por sua vez tomou conta da cidade e as pessoas só parecem se importar quando há uma visita de um Presidente estrangeiro. Vi acontecer duas vezes, na vinda de Chen Shui-bian de Taiwan e agora com a visita de Marcelo Rebelo de Sousa de Portugal. Pergunto porquê só cuidar da cidade quando há visitas?

Esse lixo que tomou conta da cidade é um dos principais responsáveis pelo entupimento da rede de esgotos da cidade. O cenário de alagamento que se assiste na cidade quando chove, apenas faz lembrar os dias em que, ainda vivo, o Rio Água Grande que dá o nome ao distrito que alberga a cidade enchia e transbordava. Infelizmente, como profetizou muitos anos antes, Alda do Espírito Santo o rio morreu e levou consigo toda a fauna que proporcionava vida ao largo da capital.

A anarquia e a má educação, a falta de bons hábitos e costumes de que falava a poetisa, tomou conta da capital. As pessoas parecem não se importarem com nada, são até capazes de num mesmo espaço em plena capital estarem a comer, dançar ao som de músicas altas, quando ao lado há um caixote de lixo a transbordar, boraco com água de peixe jogado no chão a exalar um cheiro nauseabundo e neste meio tempo, outra pessoa faz as suas necessidades fisiológicas tudo no mesmo espaço. Já não há respeito pelos mais velhos, a delinquência juvenil é cada vez mais uma realidade, o aumento da criminalidade e até da prática de crimes hediondos como a violação de mulheres e menores ou mesmo o tráfico de drogas, fazem hoje parte do nosso quotidiano.

A pergunta que não quer calar: onde estão os governantes/decisores do país perante isto tudo? Onde está a sociedade civil organizada? A resposta é simples. A sociedade são-tomense desta geração está formatada para pensar com o bolso ao invés da cabeça. Ou seja, a resolução de qualquer problema tem que uma vez mais se traduzir no “profit”. A falta de educação/formação é tão profunda e quando falo de educação/formação falo enquanto formação do ser, do caracter e do homem e não da simples formação académica.

O déficit educativo é tão profundo que qualquer jovem são-tomense que vai ingressar-se no meio laboral já sabe que tem apenas duas opções ou entrar para o sistema ou ficar a ver de fora. A maioria desses jovens dirão quero ser político, quero entrar para o partido “x”. “No fundo vou safar-me também como o fez o outro”. O extremo da falta de educação/formação, pode ser verificado em vários exemplos como este em que o policial é mandado para as ruas para prender os pneus e dar multa aos condutores de carros mal estacionados num país em que não há o mínimo de investimentos se quer em estacionamentos.

Soluções

É tempo de reflexão, é hora de cada são-tomense pensar para frente e perceber que país se vai deixar para as gerações vindouras. É altura de investir-se na mudança de mentalidade para que a cultura do pensar com o bolso seja abandonada e o pensamento em prol comum seja um imperativo. Para isto, basta focar e porque não, utilizar métodos de sucesso de outros países como Cabo Verde, de que muito se fala, apesar de verde ter quase nada, é uma potência turística em África ou mesmo Portugal que tem cada vez mais “Know How” na questão do turismo, saneamento do meio, ambiente entre outros setores. Aliás, Portugal tem um dos melhores exemplos de utilização de crianças para educar uma geração. Falo do trabalho feito com relação a reciclagem de lixo. Esta mesma estratégia pode ser utilizada com as crianças são-tomenses para resgatar os bons modos, hábitos e costumes do povo entretanto perdidos.

Mataram o rio da minha cidade, os bons hábitos e costumes do meu povo e a imagem do meu país, mas a boa notícia é que neste caso as mortes podem ser revertidas se houver muito querer e participação de cada um são-tomense no sentido de difundir a nova mentalidade de um povo que doravante vai apregoar um bem comum.

Brany Cunha Lisboa

    4 comentários

4 comentários

  1. Miki

    21 de Abril de 2018 as 7:44

    Muito bom texto. Irmã maior (São Tomé) tem que seguir nos passos da sua irmã menor: a ilha do Principe. Como visitante, não gosto do que está a acontecer com a ilha de São Tomé. Cada vez pior. É um horor ver algumas coisas lá: desmatamento, sujedad, poluçao etc. Principé esta a fazer bom trabalho. Parabens a ilha do Principe.

  2. António Rosa

    21 de Abril de 2018 as 14:31

    Não conheço ainda a ilha do Príncipe.
    S. Tomé e ilhéu das Rolas já visitei.
    Dou os meus parabéns pelo trabalho descrito, pois vejo nele tudo o que constatei aquando da minha visita.Que pena vermos tanta desmatacao pela ilha!…

    • Miki

      22 de Abril de 2018 as 8:26

      Tambem existe muita extraçao d’areia destruindo primeiro a flora e fauna das praias, as praias mais bonitas proprias, e depois destruindo estradas e logo as casas mais pertas ao mar. Até que fique sómente o pico de São Tomé. Deus prohibe que isso aconteça.

  3. Tuga

    26 de Abril de 2018 as 8:45

    Retrato fiel e actual de São Tomé.

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