Opinião

Carta ao Abílio (Primo Jorge, apelo para que desista, já chega)

Abílio Bragança Neto, primo, partilhamos o mesmo trisavô. Contudo, convém separar as águas desde já que não és primo pelo ramo familiar de que vou falar. A história que se segue pertence a outra das numerosas veredas da minha árvore genealógica, essa floresta onde os apelidos se cruzam, os parentes se multiplicam e a memória, por vezes, perde a conta aos ramos.

Nesse outro lado da família, já tivemos um presidente. O meu bisavô, homem de hábitos simples e alegrias populares, tocava lata de graxa e “butava vungus” no sócópé da localidade de Changra, da qual era presidente. A presidência, naquele tempo, não vinha acompanhada de salamaleques nem de carros oficiais; vinha com poeira nos sapatos, música improvisada e convivência com o povo.

Já demos bastante para este peditório na família.

Apesar disso, um primo nosso desse ramo — também bisneto do célebre Sun Mé Complétú — sucumbiu à tentação e é agora candidato às presidenciais. Ora, convenhamos: os bisnetos do Sun Mé Complétú não podem ocupar todos os lugares de presidentes na República.

Eu próprio já sou presidente da Associação dos Reformados. O Artur é presidente do Tribunal  Constitucional depois de já ter sido também presidente no Tribunal de Contas. O Jorge Bom Jesus  já foi  Presidente do MLSTP, quer ser  Presidente da República. E agora queres empurrar-me para presidente de Câmara, acumulando dois cargos de presidente?!

Tenhamos algum pudor genealógico.

Há muitos mais primos no mesmo ramo familiar. Como bem me recordo, o meu saudoso bisavô deixou uma prole considerável. Entre outros, dela faziam parte a minha avó, San Má Dánú — assim chamada por ter nascido no Dia de Ano Novo — e o Sun Dôzê, que, como o próprio nome indica, era o décimo segundo filho. Mas o velho não se ficou por aí: mais do que dobrou a conta. Deixou uma descendência tão numerosa que, por vezes, parece ter fundado uma pequena nação dentro da própria nação. O Sun Dôzê viria a ser o avô do Jorge Bom Jesus.

Posso até sugerir outro dos “milhares” de bisnetos do Sun Mé Complétú para a tal presidência da Câmara: o Júlio Silva. Talvez ele não se importe de acumular a presidência do partido MCI/PUN com a presidência da Câmara de São Tomé.

Embora, pensando melhor, também não sei se seria boa ideia. Afinal, o atual presidente da Câmara é igualmente bisneto do Sun Mé Complétú. Nesse caso, estaríamos apenas a substituir um bisneto por outro. Em vez de resolver o problema, estaríamos a perpetuar uma espécie de alternância dinástica em circuito fechado. Arranjaríamos um conflito para logo criar outro.

Os meus primos desse ramo familiar não se esgotam em nós cinco. Não falta gente “qualificada” para assumir presidências. Se fizéssemos uma chamada geral à descendência do velho patriarca, receio que aparecessem candidatos suficientes para preencher todos os órgãos do Estado e ainda sobrassem alguns para as associações recreativas.

A propósito — ou talvez a despropósito, como convém às boas histórias de família —, para efeitos estatísticos também deve contar um dos nossos tios-avôs que, na qualidade de padrasto e mestre de ofício, iniciou na arte da sapataria alguém que viria a servir a nação no mais elevado dos cargos do Estado. Não sendo parentesco de sangue, fica ao menos registado como parentesco de sola e de caminho.

O único tio-avô que tivemos com menos ambições e mais juízo foi o tio-avô Completinho. Era vinhateiro, homem do povo-pequeno, daqueles que conheciam melhor os caminhos da vida do que os corredores do poder. Talvez por isso nunca tenha sido tentado pelas presidências nem pelos títulos. Andava pela vida como quem percorre um trilho conhecido, sem necessidade de mandar em ninguém.

Morreu sem deixar descendência.

Talvez tenha sido o mais sábio de todos.

Porque, vistas bem as coisas, nesta família os presidentes parecem nascer com a mesma abundância com que o velho Sun Mé Complétú gerava filhos. Uns herdam a vocação para comandar, outros para contestar, outros ainda para aconselhar. E há sempre alguém pronto para ocupar uma presidência vaga.

Por mim, dou-me por satisfeito com a que já tenho. Afinal, se continuarmos neste ritmo, qualquer dia será preciso criar uma Associação dos Presidentes Descendentes do Sun Mé Complétú — e, conhecendo a família, não faltará quem queira presidi-la.

Nesse dia, porém, declino desde já qualquer candidatura. Não por falta de pedigree familiar, mas porque, depois de tantos presidentes na árvore genealógica, alguém tem de ficar encarregado de contar os galhos.

E, para dizer a verdade, essa tarefa parece-me muito mais útil. Afinal, se continuarmos a promover bisnetos do Sun Mé Complétú para todos os cargos disponíveis, ainda acabaremos por precisar de um Ministério da Genealogia, uma Direção-Geral dos Primos e uma Comissão Nacional para a Distribuição Equitativa das Presidências.

Nesse cenário, não me restará alternativa senão aceitar uma última função pública: a de recenseador da família. Pelo menos esse cargo, até agora, continua vago.

Primo Jorge, não me compliques a vida, desiste das presidências!

Cola Manga-Bassu

O Bisneto de Sun Mé-Complétu.

São Tomé aos 5 dias do nês de junho de 2026.

Nota da redação : Denuncio publicamente que não somos puros, temos ascendência brasileira, traficamos os nossos irmãos africanos e sabe-se lá mais o quê, fixámo-nos primeiro na Ilha do Príncipe antes de chegarmos a fundar “Zêkêntxi-Glángí” na Changra, logo, o primo Jorge não pode ser aceite como candidato. O Artur tem de se declarar impedido na apreciação e votação da candidatura .

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