Cartas d´Africa: A Comunidade Brasileira do Golfo do Benin

“A Exposição Cartas D’Africa” será aberta em São Tomé e Príncipe, no Centro Cultural Brasil-São Tomé e Príncipe no dia 14 de outubro de 2011 às 18h00. Estará aberta ao público até o dia 28 de outubro de 2011, das 9 às 17h00.” O Téla Nón publica retratos da exposição num artigo do brasileiro Carlos Fonseca.

CARTAS D’ÁFRICA: A COMUNIDADE BRASILEIRA DO GOLFO DO BENIM

Carlos da Fonseca*

No dia 13 de janeiro de 1963 morria, crivado pelas balas de militares golpistas, o primeiro presidente da República do Togo, Sylvanus Olympio. Nascido em 1901, Sylvanus estudou na Europa, trabalhou para companhias inglesas e ingressou na política durante a segunda guerra mundial. Fundou o Partido da Unidade Togolesa e conquistou a independência de seu país em 1961, um ano apenas depois do nascimento da primeira nação africana livre, o Gana. Foi figura de proa do movimento de emancipação da África, ao lado de líderes como N’Krumah, Senghor, Nyerere, Lumumba e Sekou Touré. O que pouco se sabe, mesmo no Togo, é que Olympio era neto de um brasileiro, Francisco Olympio da Silva, carioca que, em 1837, se estabeleceu na chamada “Costa dos Escravos”, atual Benin, em busca da fortuna.

A história da família Olympio da Silva é apenas uma entre as de centenas de brasileiros, escravos libertos ou homens livres que, durante o século XIX, deixaram o Brasil em direção às terras africanas, em busca de suas origens e de um futuro melhor, ou simplesmente fugindo da perseguição e da falta de oportunidades em um Brasil que engatinhava no processo de emancipação escrava, etapa inevitável de um projeto de nação no qual os negros não tinham lugar.

Brasileiros como Francisco Félix de Souza, o “Chachá”, título que ganhou do rei de Abomé, Guezô, seu irmão de sangue, aventureiro baiano que se estabeleceu na atual cidade de Uidá, no Benin, em 1788 e, poucos anos depois, tornou-se o homem mais rico do continente, lucrando com o monopólio do tráfico negreiro. Ou Domingos José Martins, filho e homônimo do mártir da revolução pernambucana de 1817, que foi a Uidá a convite do Chachá e terminou por sucedê-lo à sua morte, tornando-se milionário com o tráfico negreiro e com o comércio do dendê. Ou ainda João Esan da Rocha, negro liberto que voltou a Lagos em meados do século XIX, acompanhado do filho Cândido, que ajudou a fundar o hoje “bairro brasileiro” da cidade e nele fez fortuna, começando pela venda de água, que tirava de um poço artesiano cavado no pátio de sua casa, a “Casa da Água”, sobre a qual escreveu o romancista Antônio Olinto.

Esse fenômeno de retorno à África, que teria mobilizado, segundo os poucos estudos existentes, cerca de 8.000 negros, tomou a forma de um “movimento migratório”, mais ou menos estimulado (ou provocado) pelo governo, a partir da década de 1830, que conheceu o auge das revoltas escravas na Bahia.

Ir à África sempre foi fato corriqueiro e freqüente, tecnicamente mais fácil do que subir o litoral brasileiro, devido às correntes marinhas favoráveis. Era fato que se revestia, no entanto, de diferentes significados, segundo o momento e as circunstâncias.

A busca da fortuna foi, para muitos, razão suficiente para arriscar-se em terras então mapeadas como “incógnitas”. A história das relações Brasil-África registra casos esporádicos de brasileiros que, por instinto comercial, trocaram a colônia portuguesa pelas incertezas (em alguns casos, pela fortuna) da África. Os casos mais famosos, mas não únicos, são os de Francisco Félix de Souza e Domingo José Martins. Instalados na Costa dos Escravos, esses aventureiros estabeleceram uma comunidade de prósperos traficantes de escravos (mais tarde comerciantes), que ficou conhecida, especialmente no atual Benin, como agudas.

O degredo era outra razão para a travessia definitiva do oceano. Castigo dos mais comuns, era aplicado tanto ao assassino passional como ao revolucionário em potencial. Muitos dos líderes da chamada Inconfidência Mineira, por exemplo, tiveram esse destino. Homens como Tomás Antônio Gonzaga, que, exilado em Angola, acabou trabalhando na administração local. Até recentemente, ruas de Luanda levaram os nomes desses exilados, que acabaram se transformando em heróis da República.

Entre os chamados “retornados”, muitos partiram nessas condições. Tendo participado de revoltas ou sublevações, foram sistematicamente enviados de volta à África, sobretudo a partir de 1835, data da maior de todas elas, a “Revolta dos Malês”.

A decisão do governo imperial de expulsar os negros revoltosos e facilitar o retorno dos emancipados explica-se no contexto dos debates da época.  Nas rodas nacionalistas discutia-se, no início do século XIX, a construção do tipo nacional brasileiro, produto de uma miscigenação predominantemente branca, e a modernidade brasileira, que dependia, essencialmente, do fim da escravidão.

Essas questões ocupavam homens políticos da envergadura de José Bonifácio de Andrada e Silva, que, em sua “Representação à Assembléia Geral Constituinte”, chamava a atenção para os obstáculos à modernidade representados pelas propriedades escravocratas e pelo “tráfico infame”.

Por trás dessas idéias estava a certeza de que a escravidão devia ser abolida. Curiosamente, em nenhum momento cogitou-se a participação da mão de obra negra no novo projeto de nação. O negro, considerado incapaz moral e tecnicamente de adaptar-se ao sistema de livre iniciativa e agricultura moderna, não tinha lugar no projeto de Brasil independente.

Em tal situação, muitos foram os que preferiram trocar o Brasil pela África. O perigo de serem novamente capturados e vendidos como escravos diminuiu, em 1851, com a ocupação de Lagos pelos ingleses. Atraídos pelas oportunidades que oferecia esse novo destino, livre da escravidão, milhares de escravos emancipados lançam-se ao mar entre 1835 e 1900, juntando-se aos deportados e aos aventureiros.

Barcos fretados por até 100 negros faziam o trajeto até Lagos, onde muitos passaram a trabalhar no comércio com o Brasil, tanto o “culpado” tráfico de escravos como, mais tarde, o “inocente”, que envolvia a importação de aguardente, fumo da Bahia, tecidos estampados e carne seca, mas também a exportação do dendê, dos panos-da-costa, das nozes de cola, e na manteiga de caritê, usada em geral nos cabelos.

A partir da década de 1850, com a virtual extinção do tráfico transatlântico, muitos retornados, livres do medo de serem escravizados outra vez, deixaram Lagos e migraram para o interior, reencontrando suas regiões de origem. Os que ficaram na Costa, nas cidades de Uidá, Aguê, Porto Novo e Badagri (mas também, nos anos seguintes, nas capitais Cotonu, Lomé e Acra), passaram a integrar a comunidade coesa e destacada, formada por pequenos e grandes negociantes, que tiveram grande influência na vida social e econômica da região.

Esses homens e mulheres, que se encontram aos milhares ainda hoje nessas cidades, são o cimento, cada dia mais frágil, a unir importantes regiões da África ocidental ao Brasil. Eles carregam em sua memória afetiva a presença da cultura brasileira, através da culinária, com pratos como a feijoada, a “mouqueca” e o arroz doce; da arquitetura, nos bairros brasileiros de Lagos, Porto Novo e Uidá, que exibem os casarões do Brasil colonial; do folclore da burrinha, que é até hoje dançada no Benin, como parte das celebrações de Nosso Senhor do Bonfim; e mesmo da língua, perdida em sua maior parte, mas ainda presente no vocabulário doméstico, em palavras e expressões como “a benção Yayá”, “bom dia” ou “viva brasileru!”.

Essa comunidade híbrida, brasileira e africana, branca e negra, escrava e escravocrata, logrou com o tempo uma notável coesão. São todos iguais, retornados, “agudás” e brasileiros, filhos de uma terra que deixaram ou que os deixou há décadas, mas que continua presente em sua memória afetiva, e que continuam a procurar em sonho, embora os sonhos, como tudo, desapareçam com o tempo.

* diplomata e historiador. Atualmente Ministro Conselheiro na Embaixada do Brasil em Santiago.”

Seguem algumas fotos com identificação (para legendas).

1) Carrena: Nestor Carrena, em Lagos

2) Cruz: família Cruz, em Porto Novo, Benim

3) Rocha: Angélica da Rocha, em Lagos, Nigéria, com a foto de seus parentes na Bahia

4) Da Rocha: família Rocha em Salvador, Bahia, com foto de Angélica na mão

5) Domingo: família Domingo, descendente de Domingos José Martins, em Porto Novo, Benin

6) Souza: família Souza em Uidá, Benim. Em primeiro plano, Honoré Feliciano Julião de Souza, chefe da família.

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    Edmar Responder

    Esta síntese de uma história rica de tristezas e alegrias trazem recordações que da memória de muitos ancestrais. Me emocionei quando vi estas fotos, aquela do senhor ao piano, eu conheço pessoalmente, em 1994 quando passei em Lagos visitei a Casa D’agua e conheci essa familia, esse senhor tou uma música para os brasileiros naquela data que se comemora a morte da finada Angérica que retornou da Bahia no fim do século XIX. Edmar

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      heloisamfigueiredo Responder

      Edmar
      A mãe de minha bisavó chamava-se Leocádia Angélica e veio de Benin para Bahia no sec. XIX onde constituiu família sendo que minha avó, sua neta, veio para o Rio na década de 30 juntamente com as filhas. Seria a mesma Angélica citada em sua carta?

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    d'Almeida lazaro Responder

    Saudacoes do BENIN

    Os descendentes de Joaquim d’Almeida ”zoki -azata d’Agoue (Benin) solicitam ajuda em Bahia de toda pessoa para localizar uma imagem do seu bisavo de regresso em Africa depos 1835
    Muito Grato

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