Cultura

Conversas entre (L)atitudes: Francisco Costa Alegre, o fiandeiro de histórias

Estranha entrevista. A 8.000 km de distância, eu em Barcelona e o meu entrevistado em Luanda, nos une a globalização dos cabos submarinos e das ondas magnéticas. Falamos por meio do Facebook, num chat que permite alargar ou adiar conversas segundo as nossas agendas, estes dias tão presas dessa crise maldita que nos faz aproveitar todos os recursos, mesmo o tempo, mesmo esquecendo o tradicional e literário correio postal.

Por Xavier Muñoz-Torrent

Estranha entrevista. A 8.000 km de distância, eu em Barcelona e o meu entrevistado em Luanda, nos une a globalização dos cabos submarinos e das ondas magnéticas. Falamos por meio do Facebook, num chat que permite alargar ou adiar conversas segundo as nossas agendas, estes dias tão presas dessa crise maldita que nos faz aproveitar todos os recursos, mesmo o tempo, mesmo esquecendo o tradicional e literário correio postal. Apesar das vantagens da moderna tecnologia que nos obriga a reagir à idade, ainda deploro não poder estar frente dele, a avaliar, com todos os elementos da observação, o sentido das suas respostas, pois não há respostas lineares e Francisco Costa Alegre, decerto, não fala apenas com palavras, senão também com os gestos das suas mãos, os rigores da sua expressão, os seus sutis sorrisos e também os seus silêncios, onde o entrevistador está quase obrigado a interpretar tradições, a apreender mais alguma coisa da forma de ser são-tomense, da sofrida e experimentada crioulidade, da São-tomensidade com maiúscula. De longe quero imaginar Francisco como o esperto Ogotemmêli do “Dieu d’Eau” (de Marcel Griaule, 1966), aquele sábio africano a dominar o parvo inquiridor europeu, que mais que entrevistador é aluno!… Estranha e longínqua entrevista… Uma entrevista di lôngi…

Francisco Costa Alegre fica com a idade da eterna experiência. Nascido na Cidade de São Tomé, estudou lingüística francesa em Besançon e comunicação em Nova Iorque. Trabalhou uma primeira vocação de jornalista na Rádio Nacional, depois no gabinete do Primeiro Ministro e noutros tantos departamentos ministeriais. E agora no desempenho de diplomata destacado em Angola, não deixa o seu papel de poeta, ensaísta e mesmo romancista, aquele que leva no sangue, função pela qual eu o conheci (por acaso por ocorrência do nosso admirado Gerhard Seibert) e sobre a que gostaria saber ainda mais, como quem se aprofunda na sociologia da metáfora mesma. São já conhecidas as suas habituais escritas de opinião nos jornais nacionais, mas também pela sua prolífica produção literária, aberta com uma obra poética, e que prossegue com a poesia que não cessa mesmo nem na mais ensaísta das suas prosas. Faço um atento percurso por “Madala” (1991), “Cinzas do Madala” (1992), “Mussandá” (1994), “Muteté” (1998), “Brasas de Muteté” (1998), “Mussungú” (2001), “Crônica de Magodinho” (2003), “História da Literatura Santomense” (2004), “Santomensidade” (2005), “A cidade de São Tomé” (2008), e estou às portas do seu novo livro, “A Gota” (2013), que tenho reservado para a minha próxima crítica.

Abríamos a nossa conversa no início da gravana passada, quando Francisco Costa Alegre acabava de publicar a reedição de “Latitude 63”, escrita em 2006, e agora ampliada com uma partitura com a que ele quer introduzir a necessária musicalidade que a banda interpretou no fim da obra (sem aquela, a intensidade da cena teria ficado, por tanto, coxa, ainda que para se produzir precisaríamos dos conhecimentos avançados de solfejo, das artes da própria banda ou de uma reprodução em mp3).

“Latitude 63” é o seu primeiro romance e, talvez seja por isso, que ressume a sua preferência por ela, que se intua que, com o processo da sua escrita, o autor tenha desfrutado demais; talvez por ser um bocado autobiográfico, por ter introduzido com certeza personagens que foram ou são da vida real dessa sua “Cidade de todas as esperanças”, ainda que se escondam numa grande metáfora ou numa imensa suma de giros literários com os quais se constrói uma singular linha argumental, cíclica mas embrulhada, e em ocasiões quase hiperbólica, e sobre tudo com saídas totalmente inesperadas, que abeiram um quase surrealismo colorista, cálido.

Seja como for, “Latitude 63” é uma história coral, com muitos personagens, com itinerários paralelos (de contos paralelos), ligados a uma mulher que, por efeito dessas mesmas tecnologias que agora nos unem, entra em contato com um descendente de são-tomenses que vive nos EUA. Ela chama-se Pés de Agora e o americano Menguana. E os nomes não são por acaso. Francisco explica que “o sentido de ser de Menguana refere-se à perícia, asseio, cuidado, finura, pragmatismo, seguindo a lenda daquele outro Menguana, um homem que muito bem vestido, todo de branco, foi solicitado para pisar andim para fazer óleo de palma e, sem recusar o pedido, fez todo o trabalho de forma autêntica sem se sujar”. “Latitude 63” tem um transfundo muito relacionado com essa lenda, pois tenta ser uma obra literária autêntica, que entra no mundo da memória comum a todos os são-tomenses, mas críptica aos que não o são, e rebusca no sabor fantástico um encontro entre dois continentes enormes, America e África, mas com profundas raízes que os aproximam.

Francisco escreve, principalmente, para ele próprio e para os são-tomenses uma história muito complexa, feita desses contos paralelos que relatam humanidades (misérias e grandezas das pessoas): o amor profundo, brutal, paixões à primeira vista, a honorabilidade, ciúmes, concubinagem, promiscuidade, a paixão carnal, invejas, vinganças, covardia, mesmo violência que teme acabar em tragédia,… Em fim, todo um corolário de pecados capitais e não tão capitais. E, como num grandioso Tchiloli onde participa todo o povo, também entra em cena a justiça feita em nome do direito dos interesses escondidos, mas também da dignidade nacional, da honra, da rejeição dos padrões impostos desde fora, mas também da necessária convivência que redunda em cálculos matemáticos que confronta ao zero que o autor trata de relacionar com a realidade posicional das Ilhas, a sua localização geográfica no centro do planisfério, a dar voltas que transportam aos personagens, às histórias, mesmo ao leitor a um final que remite à origem da história, como se da contínua complicação argumental necessariamente se voltasse ao início, a desalinhar o alinhado, a dar-se conta que as coisas são muito mais simples, práticas e humanas do que o conhecimento pretende…

A um lugar de excitação, mas de pouco romantismo, de poucos heróis, pois todos os personagens são um canto à imperfeição e as paixões humanas. E confesso que é preciso ler o livro com um papel e uma caneta ao lado, para tomar notas e não perder-se nas voltas. Mas a voltas de novo complexas, como complexa é a realidade das pequenas ilhas de São Tomé e Príncipe, que apenas precisam de tranqüilidade, de paz, a mesma que desde lá e por natureza se procura para o mundo. Uma paz que deve procurar-se na necessidade de lutar pela própria idiossincrasia, pela própria maneira de ser e de fazer, na procura de um respeito por aquilo que é a própria cultura, os próprios valores comuns, frente às imposições, das que, à vez, os personagens não poderão afastar-se, nem mesmo introduzindo modernidade. Uma paz que para o Francisco está no princípio e no fim da história, na união dos cabos dessa cíclica, naquele remanso onde todas as coisas ficam reordenadas, onde se fecha o círculo, e que é, em todo caso, onde se criam novas controvérsias…, pois nunca todo o mundo ficará inteiramente satisfeito. O complicado são as pessoas e não as histórias, pois aquelas não existiriam sem a gente.

Nesse sentido, é um conjunto de histórias crescentes em espiral, uma espiral acelerada de fatos, de pessoas, de diferentes humanidades individuais, que lutam por aparecer como eles próprios, que querem ser reconhecidos, que querem ser bem-amados, com as imperfeições, as suas vaidades e mesquinhezes, com o seu egoísmo e inveja em toda parte, com as suas manias, as suas paixões mais temperamentais, as suas raivas, os seus medos. São pessoas que não saem da sua realidade, por tanto, de uma análise abstrata de mais que serve para reafirmar as origens e a necessária reconstrução desde essas origens, e que no fundo apenas estão a pedir paz, a superar medos. E, nesse sentido, é a história da absurdidade do modo de ser humano, grande metáfora do que não sempre parece ser o que é, nem cumprir-se o final que num princípio parece estar marcado, como se a justiça aparente lá seja outra, uma justiça por acaso.

De fato, depois de reler o livro, surpreende a utilização da metáfora para ir alinhavando toda uma série de fatos e pensamentos do passado nos seixos da história central (para mim com certeza, uma forma especial, talvez original, de contextualizar uma história). Não é assim? Gostaria desalinhavar essa metáfora geral do livro… Assim tento –apenas posso tentar- o script de uma entrevista: Que apresenta “Latitude 63” na realidade? Que quer expressar o autor sobre a sociedade são-tomense de hoje? (pois há duas idéias principais recorrentes no livro: (1) “Mudaram-se os tempos, mudaram-se as vontades” e (2) “Preparar as gerações seguintes”).

E Francisco, sem respostas direitas, confidencia que “ele aproxima-se melhor de um contista por excelência, mais que um romancista puro”, e por tanto, em “Latitude 63”, a um fiandeiro de histórias, que as alinha, as enreda e depois as volta alinhar, para fazer mais fino o traço, para apontar em grandes moralidades novas maneiras de ver as coisas, “embora nos contos não podemos descorar o senso do romance”; às vezes aproximando-se de novo aos grandes lemas da revolução, aqueles que procuravam a ordem para uns novos cidadãos mais preparados, mais independentes, com uma determinada atitude moral. O papel de contista é, por tanto, um dos pontos de mais interesse, pois decerto para ele os contos por separado têm tanta importância como a linha central da história.

“Se leres o “Mussandá”, a “Crônica de Magodinho” e depois a “Latitude 63”, deves notar o sentido de conto. Só que no “Latitude 63”, a coisa foi mais profunda: houve momentos de maior romance realístico, do que o fantasiado do conto propriamente dito…”, adicionaria a isso. Trata-se, por tanto, de um relato com alma real, mas adereçada; por exemplo, com uma descrição da mudança nas relações sociais a distância por causa da revolução tecnológica, “com uma mistura da modernidade com a tradição que não se pode evitar”… “E isso é especialmente importante –conclui-, porque não podemos virar todo para o desenvolvimento, como também não podemos rejeitá-lo, porque ele está aqui bem perto das nossas entradas de quintal”. E “o desenvolvimento está também em nós próprios, os são-tomenses, não apenas no que seja ditado desde fora, ainda que às vezes não sejamos capazes de advertir esses estalos de inovação gerativa”.

Uma dialética, por tanto, entre as tradições mais profundas e a modernidade, sobre as que tento centrar as minhas questões, por exemplo, sobre o discurso do Menguana sobre “A cultura e o turismo no desenvolvimento de São Tomé e Príncipe” que é uma autêntica lição sobre a valorização da cultura no progresso dos povos. É Menguana com quem o autor se identifica? É esse o discurso que Francisco Costa Alegre gostaria dar à cidadania são-tomense, mas que à vez parece quase impossível pela sua idiossincrasia?

Intuo um sorriso no ar… e Francisco fala claro: “eu não respondo a essa pergunta!”. “Vamos bem!”, espetei. “Mas é a parte mais lógica do romance, a lição magistral, e também a origem das invejas!” Francisco reage: “É isso. Não é que seja eu o autor, mas é um discurso que todos devem acatar. De fato é uma sátira, uma necessária visão de futuro certo”.

Na realidade responde com uma sábia evasiva (que me lembra a maneira de fazer dos galegos ou à mais escorregadia das cobras): “Você lançou-me um importante desafio!”. E não conclui, sabendo, por acaso, que é o seu discurso no fundo. Mas, com tudo, ele confessa não se identificar com o Menguana –com um estrangeiro, ainda que fosse com raízes santomenses?-. “Eu sou, melhor, o Romano Sacode Tudo. Pela sua forma de ser, o Romano é muito trabalhador, vaidoso, tem muitos filhos, é apaixonado por uma mulher que já não lhe quer, mas quer um americano. O Romano Sacode Tudo, um estereótipo são-tomense, de honorabilidade, de humanidade…” “Mas eu gosto muito também do Ouvidos de Agora, que embora mecânico, é vaidoso, culto, letrado, freqüenta boêmia…”. Uma mistura, por tanto, da sua personalidade que salpica mais de um desses tipos são-tomenses. É, por tanto, uma autoafirmação em base a repartir caráter entre diferentes protagonistas do enredo.

Mas qual é o significado do atentado contra o Menguana? Um estrangeiro tem que vir de fora para mostrar aos nacionais que a sua própria cultura é a base do desenvolvimento? E quando são conscientes disso, e por uma causa alheia à conferência, há quem decide atirar contra ele num ataque de inveja? É Sacode Poeria?

Ao que ele responde: “Se você já entrou no cerne da história, é uma confusão muito grande [decerto a obra cria confusão na primeira leitura]. E veja só onde a conferencia se passou, em pleno Mercado Municipal reconvertido em ágora!”, o lugar mais popular para difundir notícias. Ou, como ele fala, o sítio de maior confusão, onde tudo fica preparado para se realizar a “(L)Atitude 63”; e insiste a pôr a “L” entre parêntesis, como uma espécie de sufixo a uma determinada “Atitude”. Para Costa Alegre o mercado é o templo da palavra, dos boatos, das opiniões e das mentiras. Francisco gosta “misturar a realidade com a fantasia, o profano com o religioso, porque não se pode ser muito sério, como também não se pode mentir sempre”. Com tudo, para ele, autêntico determinista, a verdadeira religião são as coisas certas: “não podemos fugir da ciência, os números e o tempo dominam as nossas vidas; disso não podermos fugir”; mas sendo ambos convencionalismos na imaginação das pessoas, porque para Francisco realmente o único que existe é o presente, como o é –estou convencido- para a maioria dos são-tomenses.

Francisco clarifica que “Sacode Poeira é um agente da polícia, mas anda sempre com a bala simulada; ele nunca matou ninguém,… E ninguém sabe ao certo quem baleou o Meguana. Fica no ar”. Isso nem o próprio autor sabe, pois confessa que tem dificuldades mesmo para decidir qual é a mão executora! Não se sabe se é Sacode Tudo ou Morena de Sempre, mesmo está certo que não foi Sacode Poeria… Xê!: Podemos então dizer que a história, tão desconcertante, mistura entre o real e o virtual, superou ao seu criador. Eliminando Sacode Poeria, nem ele, nem nenhum leitor, nem também os juízes do relato poderão acusar ninguém do atentado, nem aos personagens mais histriônicos e raivosos.

Há, por tanto, no fundo, uma intenção de ridiculizar à Justiça (a formal, mas também a popular)? “É por isso –exclama Francisco- que um pássaro entrou na sala com um papelinho enrolado em forma de papiro, lembra?”. Se está a referir a aquele que subitamente entra na sala e que parece um papagaio, mas depois não estão certos disso porque é desfeito pela bala. Mas “ele tinha que se desfazer, porque doutro modo eu não tinha como acabar com a história”, confessa. “Ele tinha que se desfazer em poeira, ou seja, em nada”… Assim é a justiça.

Com tudo insisto em advertir que há coisas que são impensáveis: como é que no meio de um juízo alguém se atreve a apanhar uma pistola para matar o pássaro? Está a mostrar que permanece a violência mesmo dentro da análise judiciária? Mas para Francisco a situação é possível: lembra que “a pistola encontrava-se na cesta onde tinha a divisa e outras condecorações do Sacode Poeira”. E “se o pássaro é perturbador, está perturbar,… então que remédio?” esclarece pragmático! Mas “perturbador” para quem? Para o leitor é decerto perturbador todo o caótico processo judiciário!! Mas para Francisco “o fantástico ou impensável da coisa é o pássaro deixar o papel cair na cesta”… É o azar ou a lei divina?

Ele passa à contraofensiva, como desejando voltar a terra, à coisa mais palpável e objetiva: “Mas, agora, o que é que achas dessas motorizadas de seis homens três mulheres ou três homens seis mulheres?”… Outro jogo de números, outra obsessão simbólica pela matemática,… Bom, pensei que deve ser a forma na qual a notícia sobre o evento é difundida pelo país; um grande barulho de modernidade, representada pelas motorizadas, não por carros. A motorizada é a forma de transporte mais rápida e ágil, mais simples, mais adaptável, mais às mãos da juventude, por tanto a mais transgressora… É a juventude de homens e mulheres, mesmo número ainda que com diferente repartição, sem especial distinção, que não seja para concretizar que têm os mesmos direitos e o mesmo peso específico no relato, aspecto já defendido em outras das suas obras, mas especialmente nesta, ainda que, não por isso, o Francisco esteja a renunciar ao seu arrebatamento masculino. Com tudo é uma constante a defesa do reconhecimento do papel central da mulher na vida cotidiana e mesmo na economia são-tomense.

Leio literalmente uma passagem do livro (que em alguma ocasião me ocasionou alguma que outra confusão digital!), na qual Francisco equilibra a sua faceta intelectual e a passional: “… Em São Tomé e Príncipe quando as mulheres deixam a mostra essas dentaduras dizem que estão provocar uma guerra, por isso considera-se assédio quando uma mulher deixa as rendas à mostra. Mas este conceito está posto de lado, sendo doutro modo com as saias tangas que as senhoras envergam hoje, que num simples vergar chega-se mesmo a ver os feijões dos rins, ou num sentar desconcertado chega-se a captar a esponja maçuda da púbis na indumentária interior, dir-se-ia que as senhoras não estão provocando guerra, estão suscitando invasão!  Mas mudam-se os tempos, mudam-se as vontades! E com eles as atitudes e formas de ser e a maneira de estar”... E eu faço especial ênfase na tremenda idéia de evolução que expressa, é por isso que a cíclica da história configura uma espiral ascendente: regressa-se aos inícios num não renunciar às tradições e aos instintos mais profundos, mas o avanço é inexorável. Mas as mulheres representam para ele a certeza do futuro.

No fim da história, há um epílogo surpreendente: Como essa troca de casais? Surpreendente, especialmente quando Menguana e Pés de Agora parecem tão compenetrados desde o início, tão cúmplices (ainda que ela seja a grande organizadora de tudo), e especialmente na Pousada Boa Vista! E vistos os antecedentes violentos (ou que parecem violentos) dos irmãos Sacode…, quando a Morena de Sempre parece estar tão namorada do Sacode Tudo… É um final realmente inesperado, louco. Mas Francisco afirma que “realmente isso pode ser um sinal para criação de uma outra “Latitude 63”, sob o signo 36 anos depois, onde o filho ou a filha de ambos vão a procura do seu próprio pais”. Uma nova edição? “Uma outra Latitude –sorri-, porque esperava que tanto Pés de Agora como Morena de Sempre tenham ficado grávidas”… E vão embora não com os homens que talvez as engravidassem! Xê, tremenda confusão para a próxima seqüência…!

Às duas idéias principais com as que apresenta o livro ele adiciona uma outra esclarecedora: “as crianças e a natureza”, que para ele é outra nova, ainda que muito relacionada com o futuro: “preparar as gerações seguintes”… Mas não apenas: é um apelo à paz e ao entendimento entre os homens e a natureza, que situa no fim do livro num concerto de música, que é o que na atual edição quer sublinhar.

Mas que pensam os leitores de você, do autor? Um novo silêncio na rede…  Eu espero e ele responde (com certeza depois de ter engolido um sorvo de chã, com os óculos frente ao computador): “Não sei o que pensam os são-tomenses dos meus contos. Se reparares, eu sou um escritor sem rosto, porque ora eu sou poeta ora eu sou investigador, ora eu sou contista ou romancista… Parece esquisito…, mas é isso que sou. Mas uma coisa está evidente nas minhas obras, seja qual for: sou um investigador, todas elas passam por uma investigação”… “É verdade, é isso que entre linhas eu gostaria que os meus concidadãos entendessem como um acadêmico. Bom, há coisas que são tão elementares que os cidadãos percebem sem ter que ser acadêmicos”… E ainda adiciona: “Com certeza, entre o erudito e o coloquial deve haver sempre um espaço de diálogo inocente, porque no diálogo inocente está a mais sutil verdade; por exemplo, nas descrições de alguns personagens secundários, das suas entradas e saídas da linha principal”.

Finalmente, a sua inscrição nas literaturas africanas… Com certeza, como ele confirma, o seu estilo não concorda com nenhuma corrente literária africana. Francisco Costa Alegre é ele próprio, embora possa admirar, como confessa, alguns escritores africanos, como Chinua Achêbê, Wole Soyinka ou Mia Couto, e ainda que os leia e goste do seu estilo, é evidente que não segue o formato deles. “Cada um deve ser, original e ele próprio, é isso que eu quero ser, genial e eu próprio”, que é, de fato, o que se deve admirar dos bons escritores.

De Francisco Costa Alegre posso destacar que é assim, que é “ele próprio”, mas que evoluciona com mais atrevimento estilístico em cada novo livro, que mesmo pode situar numa linha argumental um sem-fim de estórias paralelas, como se se tratasse de pensamentos laterais… que, de fato, são os que dão mais inovação, mais caráter à singularidade do autor. Umas lateralidades que podem ser mesmo mais interessantes que a história central em si, sozinha. Da mesma forma que os contos secundários têm tanta importância como a linha principal do argumento, os protagonistas secundários têm tanta força como os principais, de maneira que talvez seja difícil dilucidar quem são realmente esses principais, como acontece na própria realidade, onde o protagonista certo é sempre o que vê ou lê a história.

Sinto-me, por tanto, protagonista da história, talvez como se fosse um dos espectadores ocasionais da grande conferência “Latitude 63” no mercado-ágora municipal, que, atraído pelas cores e as vozes da multidão, acaba por se perguntar sob o transfundo dessa grande madeixa de argumentos e conceitos, desse enredo de contos e pessoas, que o introduzem nesse intrincado universo.

Barcelona / Luanda, 25 de Fevereiro de 2014

    3 comentários

3 comentários

  1. Júlio Neto

    31 de Março de 2014 as 14:49

    Não sei o que dizer: Mas não posso ficar intacto face a uma bem, sábia, fundamentada, literária, e proemente palavras de Xavier Muñoz-Torrent.
    Este nosso Francisco, o meu Chico, como sempre lhe abordei -colegas de uma profissão primária, que com primazia e lucidez, muito aprendi dele – a de professor-, o teacher, como muitos dos seus discentes o chamaram, é um batalhador de todas as horas… Pela sua firmeza, franqueza, e amplitude de homem de letras, quero dar-lhe os meus parabéns pelas obras que nos tem legado – a todos!
    Um bem-haja, e continue escrevendo quer onde você esteja: -um abraço Chico.

    Júlio Neto

  2. Zmaria Cardoso

    1 de Abril de 2014 as 7:08

    Um olhar soberbo de fora que devia dar um outro ângulo ao olhar de dentro.
    Em boa hora das palavras de agora «O complicado são as pessoas e não as histórias, pois aquelas não existiriam sem a gente.»
    Bem haja!

  3. Alfredo Gentil

    1 de Abril de 2014 as 11:21

    Simplesmente como pessoa até é um bom homem. Não gosto de escritores que escrevem livros com recortes de jornais e crónicas dos outros. Sobre latitude 63, o que é? Dizem que é romance, Enfim. O Bastos colega do chibo no M. dos estrangeiros, também é outro dos recortes de jornais. Fala sério.

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