Estado de Sítio

As evidências já cá estão e, todos os dias, ganham contornos de complexidade crescente, enquanto alguns dormem tranquilamente, outros recusam o  estreitamento do caminho que escolhemos prosseguir enquanto comunidade e manifestam a sua indignidade e, outros ainda, cada vez menos, felizmente, continuam a acreditar piamente num “messias” que, acossado pelas circunstâncias desfavoráveis, no contexto económico e social, decorrentes dos constrangimentos relacionados com a implementação do seu programa político,  todos os dias dá sinais de intolerância e desvario.

O pais tem trilhado, nos últimos tempos, um caminho onde predomina: a censura, informalmente decretada,  na televisão e rádio públicas ; o desprezo pelo papel dos partidos da oposição designadamente na fiscalização dos atos governamentais e no aprofundamento da nossa democracia; o achincalhamento e menorização de algumas instituições da república como, por exemplo, o Supremo Tribunal de Justiça; a perseguição e humilhação de pessoas ou adversários políticos que ousam dar ou ter uma opinião contrária sobre os problemas do país, entre outros tiques de matriz totalitária.

Como sempre acontece, quando há um propósito estratégico idealizado, estas coisas não ficam por aqui. Agora, temos também: forças militares estrangeiras, designadamente Ruandesas, que continuam no país, para além do tempo legalmente previsto para a sua permanência no território nacional, de acordo com enquadramento legal aprovado pela Assembleia Nacional, momentaneamente transformadas em autênticas guardas pretorianas; condicionamento do trabalho e atividade parlamentar dos deputados pela referida guarda pretoriana; humilhação dos deputados eleitos pelo povo, através de abordagem e revistas ilegais feita pela referida guarda pretoriana, sem qualquer enquadramento legal para o efeito, que envergonha qualquer cidadão minimamente informado; rusgas seletivas e suspensão temporária de direito de reunião coordenadas pela referida guarda pretoriana estrangeira; condicionamento da atividade profissional dos jornalistas de uma estação de rádio privada e de seus superiores hierárquicos que permitiram a suspensão de programas de debates e análise política na referida rádio.

Ou seja, sem ser publicamente decretado, quer queiramos admitir ou não, vivemos neste momento num autêntico Estado de Sítio, decretado pelo senhor primeiro-ministro, perante o silêncio ensurdecedor do senhor Presidente da República, algo que não é  surpreendente para ninguém.

Não tenho razões para não acreditar nos testemunhos pessoais dos deputados que foram vítimas desta guarda pretoriana estrangeira, cujo detalhe explicativo minucioso, das peripécias que sofreram, foram partilhadas pelos próprios em vários meios noticiosos.

Quando o senhor primeiro-ministro, questionado pelos jornalistas, tendo em conta os acontecimentos, narrados pelos referidos deputados, perpetrados pela referida guarda pretoriana Ruandesa ao serviço do governo Santomense, extremamente humilhantes para os referidos deputados, designadamente líderes das bancadas parlamentares do MLSTP e do PCD, respetivamente, Jorge Amado e Danilson Cotu, este admitiu que “não se passou nada de especial na referida Assembleia Nacional” e que é ele quem coordena a segurança do país decorrente da Lei de Defesa Nacional, em vigor, aprovada pelo anterior governo do senhor Rafael Branco.

Neste âmbito, o senhor primeiro-ministro está a reiterar, objetiva ou subjetivamente, que o país está a viver, de facto, momentaneamente, um Estado de Sítio e  é ele, o dono disto tudo, quem deu a respetiva autorização.

Eu que sou um crítico da atual governação do país, nunca pensei que a pesporrência, atrevimento e capacidade de desprezo, pelas instituições e povo de S.Tomé e Príncipe, por parte do senhor primeiro-ministro, atingissem este limite tão desafiador.

Ninguém compreende que o senhor presidente da Assembleia Nacional tenha autorizado que o edifício representativo da soberania popular, o melhor garante do bom funcionamento de um regime assente nas liberdades, fosse tomado de assalto, por forças de segurança, sob a coordenação de tropas estrangeiras, para exercícios de simulação, e que neste propósito estivesse incluindo medidas de privação de liberdade e de reunião dos deputados, abordagens, revistas e humilhação dos mesmos.

O senhor presidente da Assembleia Nacional não deve ter a devida noção do cargo que exerce e deve ter um conceito de democracia completamente distorcido, para tomar a decisão que tomou, que envergonha os deputados enquanto representantes do povo.

Simbolicamente tivemos o espaço de representação da soberania popular e de liberdade, por excelência, completamente sitiada e os deputados nacionais transformados em palhaços ou cobaias de um processo de simulação humilhante para os mesmos e o senhor primeiro-ministro acha que não se passou nada na Assembleia Nacional.

O senhor primeiro-ministro não deve saber que o seu governo não foi eleito e que a sua legitimidade democrática, decorre, antes de tudo, como a de todos os outros deputados, dos resultados das eleições legislativas que servem para eleger deputados à Assembleia Nacional e não para eleger candidatos a primeiro-ministro.

Agora, imaginem, que o referido processo de simulação fosse feito na sede do governo da república e que o senhor primeiro-ministro fosse alvo de abordagem, revista, privação de entrada no seu gabinete e, até, impedido de reunir, momentaneamente, com os seus colaboradores, por parte de militares sob coordenação de uma força estrangeira. O senhor acharia que isto é um fenómeno sem importância nenhuma? Agora, imaginem, que a mesma coisa se passasse com o senhor presidente da república.

A dignidade das instituições e dos órgãos de soberania não pode ser objeto de interesses político-partidários e de grupos mesquinhos que ajudam a cristalizar, a longo prazo, junto dos cidadãos, a ideia da sua irrelevância e dispensabilidade para o aprofundamento da nossa democracia.

Um país que desce até este nível, de humilhação pública dos seus representantes e referidos órgãos de soberania, tendo um primeiro-ministro que acha que tudo isto é normal e, até, desejável, para cumprimento de propósitos relacionados com um exercício de simulação de segurança interna não tem qualidades para ser primeiro-ministro da república ou, em alternativa, tem planos  secretos para cumprimento de uma agenda de terror no país.

Eu prefiro acreditar na segunda hipótese até pelo facto de existirem sinais inquietantes, configuradores deste propósito ou caminho, de que este episódio lamentável é apenas uma peça importante.

Na celebração recente do 42º aniversário da institucionalização da Polícia Nacional, o senhor Super-Intendente Domingos Nascimento afirmou, entre outras coisas, que o terrorismo está “perto do país” e que no interior do nosso território já existiam organizações criminosas com ligações a estas células internacionais.

Fiquei estupefacto com o conteúdo e forma desta afirmação. Perguntar-se-á, então: se estas organizações criminosas já estão no interior do nosso país e as nossas polícias estão na posse desta informação por que razão não as perseguem e prendem-nas em vez de estarem a lançar um alarme desta envergadura com consequências na sensação de insegurança e medo que pode transmitir ao povo? Será esta a forma mais eficaz de combater as consequências de uma hipotética ação terrorista no país?

Que relação existe entre esta afirmação discursiva e este episódio recente levado a cabo por forças de segurança do país sob coordenação de tropas Ruandesas?

O pressuposto no qual assenta esta afirmação discursiva só pode estar relacionada com um plano estratégico mais amplo, onde, nesta fase, se insere a transmissão do medo e insegurança na sociedade, com a finalidade de aceitação, por parte dos cidadãos, de medidas com conteúdos repressivos e inconstitucionais, algumas das quais já têm sido testadas, tendo em conta que esta sensação de medo e insegurança é propícia à justificação de práticas que entram em colisão com os direitos e liberdades individuais dos cidadãos, desde que contribuem para tornar mais suave o próprio sentimento e causas da referida sensação de insegurança e medo.

Este acontecimento recente, coordenado por tropas Ruandesas, que permitiu que a Assembleia Nacional estivesse sitiada e alguns deputados nacionais fossem humilhados, faz parte da fórmula que permitirá a materialização deste desejo estratégico.

É para aí que estamos a caminhar, com avanços significativos, e o contexto político atual, (uma maioria, um governo e um presidente) não chega para a configuração minuciosa deste plano. Daí a necessidade de criação de um Tribunal Constitucional, contra tudo e contra todos, e de uma Comissão Eleitoral Nacional do ADI para tratar da nossa felicidade comunitária.

Os próximos tempos, de acordo com os níveis de hibernação ou não da sociedade civil, poderão ser férteis em acontecimentos, que aprofundarão este propósito totalitário, num contexto aparentemente democrático como aquele em que vivemos.

A tentação para a construção ou idealização de inimigos, cenários de intentona e outros fantasmas irão prosseguir fazendo com que as pessoas se deixem levar por este tipo de informação discursiva, até pelo facto do governo ter ao seu dispor a radio e televisão públicas para desempenhar um papel fundamental neste âmbito, sem que a população tenha a preocupação de questionar a veracidade dos factos que alimentam estas mesmas informações.

Estará criado, assim, um caldo de cultura que alimentará uma “sociedade de medo” pronta para assumir propósitos de submissão em prol da alteração paulatina do regime vigente.

Daqui por algum tempo, quando todo o trabalho estiver feito e as pessoas constatarem, posteriormente, que os seus direitos fundamentais, liberdade e garantias evaporaram neste lume brando que nos consome diariamente, então, só lhes restará a reclamação, numa gravana qualquer, entre copos de vinho da palma e alguma saudade, o contributo que tiveram, voluntária ou involuntariamente, para a legitimação do caminho que nos conduziu para este drama ou terror.

Adelino Cardoso Cassandra

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    Adeista de Antigamente Responder

    Quando eu digo os meus amigos que este homem vai acabar com este país alguns não acreditam. O que me deixa satisfeito é que aos poucos estão a mudar de ideia e hoje em dia já reconhecem que eu tenho razão. Só um cego ou fanático é que pode acreditar que este homem está a governar bem para fazer o país avançar. São tantas coisas que estão a suceder que uma pessoa já fica com vergonha do país. Um país pequeno com pouca população sem raças diferentes ficou rotulado como desorganizado, pouco respeitado, desajeitado, sujo, porco, com uma data de políticos incompetentes e desqualificados, etc. Eu gostava de ver a tropa de s.tomé a entrar em Ruanda e revistar os deputados deste país, mandá-los parar e impedir eles de entrar na Assembleia. Onde é que se viu uma coisa desta. Isto é uma falta de respeito para com os sãotomenses em geral. Muita falta de respeito que este homem trouxe cá para terra.

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    luisó Responder

    O País está no caminho do controle absoluto.
    Controla o parlamento, a rádio, a Tv, os sindicatos, os jornalistas, etc.
    As Fastp estão caladas e contentes.
    A oposição está calada e sem força.
    As individualidades do País calam-se ou por medo ou por terem rabos de palha.
    Um dia destes vão acordar e vão-se aperceber que é sempre de noite e a noite vai ser muito grande.
    País sem futuro……

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    Barbas Responder

    Isto está cada dia que passa muito difícil. No entanto o Homem manda com tempo e Deus manda para sempre. Não há mal que tanto dura. Tudo isto depende de nós.

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    Maria Responder

    Quem votou nele não sabia que ele é e sempre foi um ditadorzinho. Toda a gente falava disto em conversas particulares. Todos o dinheiro de origem duvidosa que ele gastou nas campanhas ele vai ter que tirar. Por isso ele precisa de menos 2 ou 3 mandatos para fazer isto. Como é que ele vai fazer isto sem garantias que vai ganhar eleições. Com uma ditadura é mais fácil ele conseguir tudo isto.

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    Vexado Responder

    Patrice tempestade prometeu caos juntamente com Levy Nazaré.

    Estão a queixar o quê? Votaram num estrangeiro que primeiramente foi apoiado por Guilherme posser, o Mlstp, na campanha contra Fradique Menezes.
    Patrice sempre viveu a custa de Stp e vai querer viver. Por isso é o nosso parasita persistente.

    Expulsar esse parasita, vai ser difícil…criou muita manha

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    ROSTOV Responder

    Neste país existe Democracia, existe um Presidente da Republica, existe uma Assembleia da Republica, existe deputados capaz de entender o que é bom para o país e futuras gerações, existe um presidente da Republica que vele pelo bem deste país.ou apenas estão apenas nas cadeiras de funções apenas a cumprir o calendário e aproveitarem das regalias que as leis lhes conferem.? Apenas USURPADORES e muito mais vejo.

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    Maria de Fatima Santos Responder

    Só posso sentir saudades da minha pátria que se foi… Sem palavras!

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    Miguel Teixeira Responder

    Este homem é um bandido! ACORDEM!

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    António Responder

    Tenho tanta pena!
    Saíram da servidão do Colonialismo para a escravidão da ditadura!
    Está feito!
    São Tomé e Príncipe não merecia. A ingenuidade da População e a maldade dos políticos aprisionou e amordaçou está boa Gente!
    Já vão 42 anos. Quantos mais?!

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    Flóli Canido Responder

    Tudo isto faz-me lembrar o tempo do partido único em que os dirigentes diziam ao povo que os barcos apareciam em várias praias do país e que os mercenários iriam desembarcar nas praias e tomar o país de assalto. É assim que nasceu a milícia e a população acreditou naquilo que os dirigentes diziam. Havia treinos de milícias, pessoas que faziam vigilancia nas praias, avistamentos de barcos, etc. Todo os dias as pessoas vinham barcos a desembarcar nas praias. Era uma correria para as praias para ir prender os mercenários. Agora temos os terroristas que já estão dentro do país e querem lançar bombas contra o país. Para combater isto o governo recrutou tropas de Ruanda para combater os terroristas. O povo como é ignorante vai caindo nestas porcarias em vez de prestar atenção para a governação desastrosa deste governo corrupto.

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    wXYZ Responder

    Acho que o Sr. Adelino Cassandra anda um tanto a quanto fora da realidade do nosso pequeno mas querido arquipelago ou anda escrevendo assim so pra contrariar.

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    Victor Manuel Évora de Ceita Responder

    Como sempre, excelente reflexão. Quanto ao estado de sítio, nada de mais, pois todos sabíamos ou tínhamos a obrigação de perspectivar isto. O povo mandou, euforicamente, nas urnas, pelo que, agora, cada vez mais, zémé só…..

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    joao manuel da trindade Responder

    Politiquice como sempre.

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    João Carlos Responder

    Não percamos a esperança, se já tivemos casos no Mundo de ditadores sanguinários que foram derrubados, então este não será diferente, vejam o caso do Yaya Jameh da Gambia e muitos outros…. portanto o Patrice Trovoada também terá o seu dia, nada é eterno, contudo fica uma grande lição ao País para fazer bem a leitura dos políticos que aparecem na nossa praça…

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    Maria de Fatima Santos Responder

    Acabo de ouvir na TVS o cúmulo da pouca vergonha e desonestidade: Dizer que pela primeira vez se envia estudantes para fora estudar. Façam-me o favor. Isto já se torna ridículo. Mudem de faixa. O disco está riscado

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    vicente Responder

    Depois do assalto ao Palacio dos congressos, operação STOP indevidas especialmente a provocação com o carro e os guardas pessoal do ex Presidente Pinto da Costa, completou o circulo para para a imposição da ditadura em S.Tomé e Príncipe. As próximas eleições serão de fachada.Se a oposição tiver um resultado satisfatório e o ADI não tiver denovo a maioria absoluta, estará a Comissão Eleitoral Nacional Para atribuir este resultado ao ADI o tribunal constitucional para decretar e se houver algum levantamento ou sinal de descontentamento, tropas prontas para atirar para a cabeça dos lideres e pronto para beber o sangue dos Santomenses como era a musica desses tropas.
    Estamos bonitos mesmo assim com cantou o musico Angolano Dog Murras com a nossa democracia falsa.
    Como dizia o meu Avô, Batata, Mandioca, Nhame, pô Uô bila gôdô,a na lanqué ni glavana fa Stlésson ca da som chi ê na passa fa ê ca pótó.

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    Ralph Responder

    Ao meu ver, estes são sinais muito preocupantes, sugerindo uma tentative pelo governo de subverter os processos de boa governação no prol de manter as suas mãos no troféu de poder a qualquer custo. O momento fundamental virá quando chegarem as próximas eleições, a preocupaçao sendo que o governo atual vai tentar adiar a data das eleições numa tentativa vã de evitar ter de encarar o eleitorado, reconhecendo que pudesse perder. Ou até algo pior, instalar uma forma de ditadura. Na minha opinião, o ponto mais importante será manter o governo sub pressão pelos meios de comunicação e assegurar que a comunidade internacional saiba da situação que se está a passar em STP para evitar aquela eventualidade.

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    Riboqueano Responder

    Camarão que Dorme a água Leva!!! Tomem cuidado com isto. Quando acordarem do sono pode ser tarde. Eu sei muito bem daquilo que estou a falar.

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    Guadalupe Responder

    Eu venho avisando ha tempoos para irem as ruas todos os dias até que haja sinais de dispertar das comunidades internacionais. Óbvio que poderá haver sangue, muito sangue. Mas quanto mais tarde o fizerem será mais difícil.
    Outra alternativa é ficarem somente a olhar e lamentar sozinhos para outros não ouvirem teu lamento e serão reféns de si mesmos, aceitando todas atroxicidades agradecendo. “Origado sr PT”

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