Eu sinto-me SÃO-TOMENSE na medida certa: física, química, biológica e espiritualmente como qualquer pessoa nascida nas ilhas irmãs de São Tomé e Príncipe.
Quero na minha singela solenidade cidadã, DESEJAR a todas/os conterrâneas/neos, um feliz 12 de Julho.
Outra palavra, desta feita, carregada com o devido sentido de gratidão e apreço, a todas/os que não se encontrando entre nós, desde os tempos não documentados, fizeram por estarmos cá hoje, gozando mais um dia liberdade em solo pátrio.
Tenho orgulho de ser de São Tomé e Príncipe e só eu sei o que é SENTIR ISSO no coração. Presunção minha! Todos os santomenses dignos desse nome sentem-no.
Desde miúdo, sempre que acompanhava provas desportivas internacionais na TVS e visse adultos a emocionarem-se no pódio ao som do hino dos seus países, ficava fascinado e emocionado também. Sonhava fazer qualquer coisa que me levasse a essa emoção. A esse nível ainda não fui capaz. Não fui atleta, não sou artista, nem nada que me tivesse levado a um pódio…Porém, o sonho não envelheceu. O orgulho pela identidade à terra e as coisas à minha volta, deve ter sido a primeira experiência de “orgulho” durante a infância.
Não pretendo discorrer em reflexões profundas sobre as comemorações, nem tão pouco maçar-vos com coisas já por muito ditas e desditas. Quero, antes falar-vos de uma alucinação.
No último ano, quem priva comigo, tem-me visto seguramente mais quebradito, irritadiço, inquieto e deprimido. Sobretudo, deprimido. Não tive diagnóstico clínico até porque tenho sido capaz de operar actividades essenciais da minha vida.
Mas sinto-me diferente. No lugar onde sempre morou o optimismo (quantas vezes irrealista) e muita confiança, sofreu assaltado de profunda e encapotada angústia, tristeza “interior” e frustração, por tudo o que temos vivido no nosso país. Mais, tenho observado, visto e sentido muitas pessoas com sintomas sociais idênticos: um cansaço seco!
O novelo histórico da Humanidade é feito de episódios de superação contínua da espécie humana. Doutra forma, a nossa espécie não teria sobrevivido.
Os nossos (São-Tomenses) antepassados mais próximos (refiro-me aos povos africanos do continente) lograram tantos feitos e conquistas, partindo de uma situação tão incomensuravelmente frágil, e nós, o São Tomé e Príncipe do pós-independência, em plena corrente de modernidade, só conseguimos concretizar com enorme sucesso, sonhos de RETROCESSO, que se evidenciam a olho nu, em pinturas rupestres nas folhas de zinco que cercam os quintais e dão cobertura a solução habitacional que fomos capazes de criar para o nosso povo. Povo que estava ávido e confiante num futuro diferente a medida que foram debandando da Praça da Independência, rumo as suas casas, durante a madrugada do dia 12 de Julho de 1975.
Ora, estes meses de angústia ajudaram a produzir uma convicção de um jeito que nunca tinha ocorrido antes.
Registemos alguns exemplos do que ainda se vive em em 2024:
- Ainda se desenham projectos para levar água canalizada aos santomenses, que muitas vezes não chegam a receber. Do ponto de vista estatístico, os níveis de abastecimento até podem ter evoluído imenso. A verdade é que muitas casas têm ainda de ter bidões e baldes de água de reserva. A minha também;
- Ainda falta oxigénio no único Hospital do país. Não só não construído nenhum novo em 49 anos como as estruturas que existiam, esfumaram-se com tempo, i desinvestimento e incompetência acumulada. Imagino que o Hospital em 75 devia servir 2/5 da população actual;
- As “coxinhas” de frango congelado vindos sabe Deus de onde, as condições de salubridade, antibióticos e químicos usado para sua conservação, compõem juntamente com o arroz “oferecido”, a dieta-base da população;
- A indústria do “financiamento ao desenvolvimento” e as suas estruturas operativas presentes no país desde os tempos de ajustamento estrutural, mantém-se o motor do que resta da actividade económica, demolindo pelo caminho qualquer tentativa de alavancar aquilo que outrora se chamava de sector produtivo;
- As nossas meninas, raparigas e mulheres continuam a ser consideradas e tratadas na surdina, e muitas vezes à luz do dia, como cidadãos de segunda classe;
- Os idosos mais necessitados, estes, depois de uma vida dedicada em actividades não espectaculares, são atirados à solidão, à indignidade e à miséria;
- Mais recentemente, tivemos emigração massiva de santomenses: estudantes, quadros, prestadores de serviços, famílias inteiras, etc etc..vencidos pela desesperança e pelo cansaço. Puxa vida! Qual é afinal a nossa praga?
Luisélio, qual é a tal convicção de que falas? Qual a novidade de que a maior parte dos santomenses não conhece ja? Perguntem-me.
Tenho a certeza que nada do que descrevi constitui novidade. Eu é que vi com os olhos e um sentir mais maduro e sensível, uma razão primordial para a minha angústia como nunca me ocorrera com tanta clareza, objectividade e dor.
Uma razão fundamental, é e tem sido, a nossa liderança política.
O essencial da “classe dirigente” que o nosso país tem tido o desfortúnio de produzir em vários momentos da sua história tem sido superiormente impreparada; de conduta moral e ética esquisita!; profetas de anti-patriotismo despido de réstia de interesse ou desígnio coletivo; moralistas do ego e da vaidade pessoal e ávidos da bajulação dos comícios de multidão de camisolas e chapéus e barris de cerveja e vinhos para animar a malta e assim, disfarçar o desafinado da ausência de ideias nos discursos de palanque; focados com a tua sua alma e capacidade no desafio do enriquecimento ilícito, particular e de grupo, à custa dos privilégios legalmente desenhados e extorquidos a coisa pública.
Por fim, conseguem ainda envenenar todo o ambiente democrático e de convivialidade social.
A capacidade da política e de muitos organismos de soberania – bastas vezes inventados à pressa sem qualquer racionalidade a nao ser para parquear interesses de grupos e dar vivas a mediocridade crua-, e os seus agentes deve ser das poucas áreas que conheceu um progresso e sucesso ao longo dos anos. Basta ouvi-los falar para adultos como se tivessem numa sala de jardim infantil descosendo alarvidades sobre interpretação de lei, normas constitucionais, regimentos disto e daquilo, estatutos de privilégio de corporações públicas que nada produzem, entre tantas outras obscenidades ditas em linguagem complexa e confusa, com o fito de confundir o cidadão comum e assim queimar em lume brando o futuro da Nação.
Ah, ia-me esquecendo do único dueto referência que rivaliza com os Calema: os VV. Viagem e Viatura. Ao que se diz por aí, agora se junta, os imóveis no estrangeiro.
Essâ penâ nón!!!
Finalmente a alucinação. Desculpem-me a demora.
Sonhei que caminhava na escuridão sem conseguir ver nada, pelo que ia tentando apalpar o ar a minha frente. Quando já exausto de estar indefinidamente nesta provação, me preparava para resignar, tenho a impressão de ver uma luz muito fusca ao longe..Percebi que tinha de andar mais depressa para a apanhar e poder assim ver melhor o caminho..ela fugia e esgueirava-se muito. Parecia matreira. Obrigou-me a mudar de caminho, mas nunca a conseguia apanhar. A luz nunca se apagou.
Já acordado, decidi que quero ir ao encontro dela. A esta luz que vi e que me deu alento, dei um nome. Chamei-lhe de Esperança.
Não tenho ideia aonde pretende chegar. Quero ir atrás dela de olhos bem abertos. Fiquei animado.
Estou convicto que somos capazes de fazer-nos à estrada. As vezes é preciso mudar de caminho. Escolher um atalho diferente. Sair para fora da estrada principal.
Abrir novas rotas.
Parabéns São Tomé e Príncipe
Parabéns a todos os Santomenses no território e além fronteiras.
Tenham um dia bem passado. Não fujam da luz, se e quando a virem.
Luisélio Salvaterra Pinto
Um muito orgulhoso filho da terra.
ANCA
12 de Julho de 2024 at 19:32
Tem orgulho no que és
Tem orgulho na terra que te viu nascer
Tem orgulho no povo de que fazes parte
Tu és daqui, logo és de São Tomé e do Príncipe, logo és de Africa
Ama a tua terra, ama a tua gente.
Protege a tua família, a tua mulher, o teu homem, os teus filhos
Ajuda o teu pais a desenvolver
Abraça o teu irmão, teus conterrâneos
Somos se São Tomé e do Príncipe
Pratiquemos o bem
Pois o bem
Fica nos bem
Deus abençoe São Tomé e Príncipe
Adélio Soares
12 de Julho de 2024 at 21:46
Muito obrigado.
Felicidade
12 de Julho de 2024 at 23:39
O colunista é intervencionista nos casos candente da república contrariando os bastidores da sua actuação que roçam aos aprendizes do feiticeiro do riboque.
Seja um homem de rectidão e não entre na varinha mágica da corrupção.
Edmáier Santos
14 de Julho de 2024 at 8:56
Li, reli e gostei! Texto emotivo e carregado de frustrações de um filho da terra que muito gostaria de ver um STP melhor. Também gostaria muito de escrever o meu nome na história deste país de forma sólida que fosse lembrado por todos… gostaria muito de subir num pódio e entoar o hino de São Tomé e Príncipe de cabeça erguida, olhos cheios de lágrimas de orgulho por ter representado o meu país e ter conseguido alguma coisa( uma medalha de ouro…). Infelizmente igual a si, não sou atleta, desportista… Pra já, vou me contentando com a chamada de São Tomé e Príncipe no dia da minha graduação de mestrado nos EUA, momento único na minha vida, o realizar de um sonho de criança.
Uma vez mais igual a si, também quero manter a luz da esperança acesa. Não posso de forma alguma aceitar que somos fracassados e que não há mais chances.
Um forte abraço de um Trindadense raiz para outro Trindadense raiz.
Edmáier Santos
Não quero mais inimigos
14 de Julho de 2024 at 10:16
Mais um santomense que viu São Tomé com outros olhos.
Tudo seria mais fácil se houvesse interesse da classe política, mas os mesmos são sem princípios básicos que qualquer homem no século XXI deve ter.
Embora eu concorde com o que escreveste, te desejo força e sabedoria, para lidar com os despercebidos, cegos e fingidos porque eles são 90% da classe decisora dos destino do país.
Razão pela qual eu mesmo critiquei muitos a minha volta e sair do país é que, vi pessoas que vivem em plena cidade capital ter que deslocar 1km para apanhar água e apenas das 20-24 e para complicar ver deputados do partido que apoiava, que suportava ora o governo, dizendo que o governo esta num bom caminho.
E eu, o estupido, andava a dizer o mesmo e a dar peito a bala.
Quando me apercebi o que hoje escreveste, viajei para não ganhar mais inimigos.