Estreia da nova rubrica do Flá Vón Vón: Nota Vivida
Nota Vivida é um novo espaço de testemunho e reflexão de Flá Vón Vón .
Publicações ocasionais que nascem de encontros reais — com pessoas, ideias, eventos ou lugares — e que permitem marcas.
São notas vívidas porque foram sentidas. Porque nos tocam. Porque merecem ser partilhadas.
Aqui não há polêmica. Há partilha.
Não há ruído. Há atenção.
São momentos de presença. E, com sorte, de transformação.
Estreámos esta rubrica com o texto:
🎙️ O dia em que escutei Lupito Feijó .
Uma homenagem, uma convocatória — e talvez, o início de uma nova aliança.
Confesso: entrei tendo já ouvido o seu nome, mas sem o conhecer materialmente.
Vivi nove anos em Angola. E durante esse tempo, sim, o nome Lupito Feijó surgiu em momentos culturais, em versos cantados, em referências cruzadas entre oralidade e música. Mas não passei dali. Nunca mergulhei na sua obra, nem no seu pensamento.
Este contato direto, agora, aconteceu por empurrão gentil de uma amiga que muito estimado — Conceição Lima , poeta, jornalista e uma das artífices da homenagem.
Fui com expectativa de passar um bom serão, de aprender e conhecer mais qualquer coisa sobre Angola, sobre África, sobre nós — e com a confiança nas escolhas certas de alguém que tem o dom da palavra descritiva como Poucos: a São Lima.
A iniciativa aconteceu na última sexta-feira, dia 4 de Julho e foi promovida pela União Nacional de Escritores e Artistas Santomenses (UNEAS) , com o apoio institucional da Direcção da Cultura e da Biblioteca Nacional de São Tomé e Príncipe.
O FVV foi apenas um único colaborador na divulgação nas redes — com alcance ainda limitado (se liguem, gente!).
Este encontro acontece, aliás, no panorama de fundo dos 50 anos de independência dos nossos países irmãos africanos que também falam português . Meio século depois, os desafios identitários, estéticos e éticos que Lupito nos lança continuam a ser centrais. E talvez mais urgentes do que nunca.
O que aconteceu ali não foi um simples discurso .
Foi um espelho com várias camadas .
Lupito disse, com firmeza serena, que se orgulha de ser “malanjino” — nasceu em Malanje, por acaso, filho de um enfermeiro em serviço. Outros irmãos nasceram nutrientes cantos do país. Mas esse acaso geográfico não o limita — pelo contrário, estrutura-o.
Mais orgulho ainda se sente por ser angolano.
Mais ainda, por ser africano.
E só depois — com essa escadaria interior bem construída — se reconhece como cidadão do mundo.
Eu nunca o teria dito melhor. Mas sinto o mesmo.
Também eu sou da rua onde nasci. Do país que me formou. Do continente que me reclama.
E só depois — só depois — me autorizo a ser do mundo.
Lupito disse também que nossa educação estética e ética falhou .
E ali vi desfilar as escolas sem alma, os professores exaustos, os jovens sem referências.
Disse ainda que os políticos do antigamente punham, dispunham e impunham — e todos sabíamos que esse vírus ainda circula por aí, agora mais disfarçado, mais sorridente talvez, mas não menos autoritário.
Depois veio o golpe certo:
“Temos de desaprender ou que aprender mal.”
E tudo em mim assentiu.
Desaprender não é negar — é limpar o terreno para poder aprender outra vez, com mais verdade, com mais sentido, com mais nós .
A São Lima, com inteligência a sensível que ele conhece, resumiu tudo numa frase:
“Temos um déficit de autoconhecimento identitário.”
Sim. Sabemos um pouco de nós.
E o pouco que sabemos vem muitas vezes em manuais escolares feitos na Europa, com nomes, histórias e geografias que não são nossas.
Repetimos sem pensar. Aprendemos sem perguntar.
Formamos gente desenraizada.
Saí com uma pergunta cruzada no peito — que agora partilho convosco, povo de Flá Vón Vón:
“Será que não é tempo de criarmos, entre Angola, São Tomé e Príncipe e todos os países irmãos africanos que também falam o português, uma aliança pedagógica e cultural de libertação? Uma nova geração de educadores, artistas, escritores e formadores que saibam ensinar a pensar com cabeça própria, com referências nossas, com raízes e com visão?”
Porque um povo que não se conhece, não se respeita.
E um povo que não se respeita, será sempre governado por quem lhe impõe.
Talvez esta aliança não se deva limitada à história dos movimentos de libertação — que urge preservar — mas sim avançar mais fundo: até à raiz das raízes dos nossos povos .
E se um projeto assim for ao nascer, não se esqueça de incluir São Lima .
E o Cota Lupito? Que seja o embaixador dessa mensagem.
Estou seguro de que nenhum serviço alfandegário de país algum cobrará taxas por isso — como não cobraram pelos seus livros.
Este encontro não foi apenas sobre literatura .
Foi sobre o futuro .
Sobre a responsabilidade de quem pensa, de quem escreve, de quem educa.
Sobre a urgência de restaurar o pensamento próprio como ferramenta de emancipação.
E sobre a possibilidade — ainda viva — de fazermos melhor. Juntos.
E como diria a minha mãe, se lá estava:
“Agora bolas de encontro!”
📬 Publicado por Flá Vón Vón (FVV)– O país em voz alta
🖋️ Autor: Luisélio Salvaterra Pinto
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