Opinião

“O Dia Seguinte” em São Tomé e Príncipe”

            O Dia Seguinte (The day after na língua inglesa) cujo significado é literalmente, o dia a seguir ao de hoje, encerra uma multiplicidade de acontecimentos dramáticos ou significantes que proliferam em grande medida no globalizado mundo, tanto no ocidente como em parcelas territoriais de cada país.

            Com base numa hipotética guerra nuclear imortalizado pelo realizador cinematográfico Nicholas Meyerlevou para os écrans de cinema do mundo inteiro o título “O Dia Seguinte” (The day after), um filme que se estreou nos Estados Unidos da América na década de 80 do século XX.

Apesar do enredo do filme retratar um drama/ficção científica, não se sabe exactamente onde começa a ficção e onde termina a realidade. A película sinaliza um episódio que, na época mexeu com várias consciências inquietas, sobretudo nas Nações com apetência para a corrida armamentista e que forjaram a inusitada Guerra Fria predecessora do pós-Guerra (1939-1945).

 Eis, contudo, que volvidas duas décadas desde o início do século XXI, a ameaça continua tendo como pano de fundo a força demolidora e dantesca do Nuclear.

 Este parece ser um quadro que nos alerta para o dramático cenário de “O Dia Seguinte” (The day after) quando nos confrontamos com a realidade à nossa volta.

Porquê o título “O Dia Seguinte”?

“O Dia Seguinte” (The day after) pretende ser uma metáfora para se caricaturar um conjunto de dramas que ocorrem no quotidiano do pacato arquipélago de São Tomé e Príncipe.

Estes dramas têm nome, mas não têm rosto; têm também vozes que se escondem no anonimato da imoralidade e no silêncio obscuro da falsa cidadania conferida pelo discurso falacioso da “democracia “.

O nome do drama é: a Violação Sexual.

Quanto ao rosto: nunca se consegue vislumbrar quem se esconde por detrás da máscara. O rosto é descaracterizado tal como a mlaska Kondenxi (máscara do Kondenxi). (1)

Em relação às vozes: a narrativa é produzida por vozes em OFF, com simulacros de ética e de moralidade barata.

O silêncio obscuro da falsa cidadania: discurso enganador encoberto pela democracia de conveniência.

O que se pode constactar é que a violação sexual é uma praga que vive a paredes-meias com a “consciência” de cada indivíduo, de cada cidadão são-tomense.

A imprensa nacional falada e escrita tem feito um pálido e tímido alarido sobre tão preocupante assunto.

Sempre que se fala em violação sexual, fala-se de um modo geral da violação sexual de menores. Essa prática não deixa ninguém indiferente.

Atónito, o cidadão comum clama pela justiça, buscando explicações plausíveis para se pôr termo ao significativo aumento de casos que acontecem em todas as localidades do país.

Quando se buscam formas de levar os abusadores à barra da justiça, eis que surgem na sociedade outros predadores sexuais que adoptam uma nova maneira de actuação, violando idosas.

Violação sexual de idosas

            Esta é uma prática “nova” na actuação soturna dos violadores são-tomenses, de acordo com narrações de populares.

            Tem havido relatos assustadores de aumento de abuso sexual de idosas no país.

            Essa prática não tem chegado presumivelmente ao conhecimento das autoridades por haver receios de represálias por parte dos predadores, por vergonha ou por outras razões que se desconhece.

            De acordo com relatos populares e também de familiares próximos, já houve casos de vítimas mortais não relatados e comunicados ao Ministério Público e à Polícia Nacional. Os dados de estatista actualizada reportados por organismos estatais como o Ministério Público, a Polícia Nacional e pela Polícia Judiciária não são encorajadores. (2)

 Entende-se, por conseguinte, que algumas idosas que vivem sozinhas estão em pânico e indubitavelmente sem qualquer perspectiva de segurança e de protecção.

            Sem dúvidas que essas práticas de violação sexual engrossam sobremaneira os casos de violência contra a população idosa em São Tomé e Príncipe. (3) 

Violência contra idosos

            De acordo com a OMS a «violência contra idosos pode incluir abuso psicológico, físico e sexual, muitas vezes oculto por “mistaken compassion” ou vergonha».

            No livro, A violência sobre os idosos: os maus-tratos aos idosos na ilha de São Tomé e Príncipe, resultado da tese de mestrado da autoria de Paula Leal Deus, a autora sublinha que “muitos idosos foram empurrados para a margem da sociedade. Passaram a ser vistos como um peso, um encargo, um problema. Ser idoso e pobre em São Tomé e Príncipe pode significar, viver no abandono, na invisibilidade, muitas vezes, na violência”.

            Tal como a melodramática cena projectada no filme do realizador Nicholas Meyer, as idosas e seus familiares ficam desarmados com o drama e a atrocidade de “O Dia Seguinte “à violação e aos maus tratos.

            A violência sexual é um tema também explorado na obra “A mulher que cultivava silêncios”, publicada em 2024 pelas edições Colibri, Lisboa. Pode-se depreender da sua leitura que o “silêncio” suscitado pelos traumas pós-violação é um fenómeno assustador em São Tomé e Príncipe.

Muito mais se podia acrescentar acerca da violação sexual de mulheres idosas. Para além do estigma social e de outras provações que passam nas comunidades elas são apelidadas de “feiticeiras”.

            Abandonadas à sua sorte, as idosas são-tomenses aguardam por melhores dias no leve-leve do seu quotidiano.

            O que fazer, ou seja, a quem se deve dirigir para apresentar queixa ou pedir ajuda?

            Existe uma Plataforma vocacionada para questões dessa natureza intitulada Violência Baseada no Género (VGB) que na República Democrática de São Tomé e Príncipe leva o Estado a implementar estratégias nacionais para eliminar formas de violências contra mulheres e meninas, incluindo a violência doméstica e sexual.

            Na actual conjuntura, porém, e em face do surgimento de novas práticas e do aumento do número de casos, não parece ociosidade pretender o reforço das instituições e medidas para o real saneamento desse flagelo. E que quem de direito melhor se posicione em relação às denúncias e às constatações que não podem ser ignoradas.

LÚCIO NETO AMADO

Atenção: O autor do texto não subscreve o Acordo Ortográfico de 1990

Notas:

 (1) Mlaska Kondénxi – Kondénxi era uma figura mítica do Danço Congo que terá nascido provavelmente nos finais do século XIX, princípios do século XX e que faleceu aparentemente no último quartel desse século. Homem com uma altura fora do vulgar (cerca de 2,05 metros), Kondénxi quando actuava usava um maxim (catana) de madeira com cerca de um metro de comprimento, e exibia uma máscara de dupla face tão feia, tão feia que causava calafrios às pessoas, principalmente às crianças. Daí a expressão popular são-tomense “Kala lalugu mo mlaska Kondenxi (rosto largo como a máscara do Kondenxi).

(2) Os dados do Ministério Público assinalam um “acréscimo de cerca de 20% nas denúncias de crimes sexuais e violência doméstica nos últimos anos, destacando a necessidade de maior proteção para vítimas vulneráveis”.

“Acredita-se que o número real de abusos sexuais contra idosas seja superior ao registado, devido à «cultura de silêncios» e ao facto de os agressores serem, muitas vezes, familiares” refere a Polícia Nacional.

A Polícia Judiciária refere no seu relatório que se “manifestou em 2024 uma «preocupação profunda» com o aumento generalizado da criminalidade violenta “.

(3) A título informativo assinala-se que no Contexto Demográfico e Social (INE – Recenseamento 2021/2024): Aumento da População idosa (65 +) aumentou em números absolutos, passando de 5.897 em 2001 para 6.590 em 2012. Em 2024, a população com mais de 65 anos representa cerca de 3,9% do total.

FAÇA O SEU COMENTARIO

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

To Top