Opinião

A Indiferença no quotidiano dos São-tomenses

              A indiferença na sociedade São-tomense ganha contornos complicadíssimos, principalmente na cidade-capital onde os comportamentos de uma parte considerável de indivíduos são marcados por desdém pelo próximo.             

              Nos dias que correm, a indiferença parece ser uma forma considerada normal de encarar os comportamentos exibidos no dia-a-dia de qualquer cidadão. A ideia de vivermos numa espécie de “condomínio” social, fechado onde o individualismo reina, leva a tornarmo-nos insensíveis aos infortúnios que batem à porta dos nossos semelhantes.

              A indiferença marca negativamente o modo de estar do cidadão numa sociedade, numa comunidade ou numa aldeola (Luchan, na língua Forro), locais onde reside um conjunto de indivíduos que procuram conviver no mesmo “espaço” físico que o nosso.

              Esse fenómeno desregula o comportamento e o sentimento do cidadão, que se torna refém do seu próprio modus vivendi na sociedade. Ele deixa de reagir aos mais pequenos sinais de tudo que, à partida, se move à sua volta. Reage com um encolher de ombros a situações consideradas anómalas. Para um cidadão que se movimenta nesse conturbado espaço social, tudo parece ser um acto absolutamente regular.

A indiferença na cidade de São Tomé

              A indiferença na nossa cidade parece atingir níveis bastante preocupantes. De um tempo a esta parte, os indivíduos com perturbações mentais continuam imperturbavelmente entregues à sua sorte.

              Antes de mais, convém esclarecer o que exprime “indivíduos com perturbações mentais”. Esses indivíduos são os que se designa na gíria popular como sendo “doidos”.

              Eles deambulam pelas ruas da cidade de São Tomé, tal qual o Criador os pôs no mundo. Significa dizer que circulam Unú tá-tali (completamente nus: tradução da língua Forro), como nasceram porque ninguém quer saber.

Essa forma humilhante de se apresentarem na nossa cidade pode ser retractada com pequenos exemplos, contabilizando-se de forma aleatória uma senhora de cabelos completamente brancos, aparentando ter cerca de cinquenta (50) anos; uma pré-adolescente cuja fisionomia revela ainda não ter atingido os quatorze (14) anos de idade; duas jovens que parecem ter entre os dezoito (18) e os vinte e três (23) anos; um jovem que, provavelmente, ainda não terá atingido os dezasseis (16) anos de idade, entre outros.

As pessoas que caminham pela nossa cidade olham para esse grupo de concidadãos nossos, com total indiferença. É como se o infortúnio desses nossos compatriotas fosse apenas e só um problema de cada um deles.

Choca profundamente a maneira de ser e de estar dos transeuntes citadinos que aparentam ter perdido a capacidade e a noção de questionar o papel desempenhado pelos responsáveis pela Saúde Mental no país.

Recuando no tempo, vamos encontrar figuras como Káfendeia, Perry, Sáma Dié, Túmulu Kulú, Cádia, Dêvêcê, tudo nomes que circulavam na nossa capital e que até constituíam motivo de brincadeira e de humor das nossas crianças, mas não constituíam perigo nem desafiavam o Pudor dos citadinos. Casos que extravasassem eram devidamente acantonados no Hospital Central da capital ou recolhidos pelas respectivas famílias.

Não se compreende, por isso, a actual situação que, ao que parece, escapa ao controlo das famílias e das entidades competentes.

A protecção aos mais vulneráveis?

              Na nossa sociedade, os mais vulneráveis já não se contam pelos dedos das mãos.

São incluídos nessa categoria, para além dos indivíduos com perturbações mentais, as crianças, as mulheres, os idosos, os albinos (ôkôsô, na língua Forro), os invisuais (cegos) e os meninos com necessidades de educação especial. Esse conjunto de conterrâneos constitui na nossa insular sociedade as principais víctimas do nosso “contentamento”.

O desafio de se pugnar pela dignidade dos nossos compatriotas mais vulneráveis não deve ser encarado apenas por quem detém o Poder, mas também pelos São-tomenses, em geral.

O espírito de solidariedade, de amizade, de ajuda e o sentimento de pertença não se obtém através de Decreto-lei nem de Resoluções governamentais. Adquire-se através do pedagógico processo da socialização.

A Escola, a Família e o Kinté Nglandji (mini sociedade) têm um papel determinante nesses pressupostos, ajudando a contribuir e a minorar os sofrimentos daqueles cuja visibilidade não parece constituir problema. Nunca é demais referir que o nosso povo na sua douta sabedoria proclama que Vidjan nguê, sa Lumon dê (os nossos vizinhos são como se fossem, os nossos irmãos).

Daí que perfilhamos a opinião de que nós os cidadãos, em geral, devemos dar mostras de comportamentos que nos ajudem a ver a sociedade com “lentes” mais translúcidas.

A solidariedade não pode ser uma palavra vã, exibida no período do Natal, oferecendo um pacote de arroz, outro de esparguete, outro ainda de caldos de galinha, a um grupo de idosos, testemunhado com pompa e circunstância pela Rádio, pela Televisão e pelo Jornal on-line.

O sentimento de pertença não deverá constituir um mero piscar de olhos, quando se pretende ocupar um cargo de relevo no aparelho do Estado para a resolução de problemas individuais de cada um.

Continuamos a pensar que os benefícios da Independência, passados que foram cerca de meio século, não constituem propriedade privada de um punhado de concidadãos que se intitulam presunçosamente defensores do “povo”.

As interrogações do nosso quotidiano?

              As interrogações em São Tomé e Príncipe são múltiplas, de natureza social, económico e cultural.

As de natureza social passam pela extrema pobreza que um número significativo da população experimenta na luta pela sobrevivência.

Utilizando uma “estatística” rudimentar, é provável que existam, em cada cinco famílias, três que não conseguem fazer uma refeição por dia. Não conseguem alimentar os seus filhos, nem comprar sebentas – porque ainda não se conseguiu introduzir manuais no sistema de ensino – para os filhos levarem à Escola. A título de exemplo, uma mãe que tenha muitos filhos a estudar gasta para adquirir fotocópias para a nona (9.ª) classe, cerca de mil e duzentos dobras (1200.00 Dbs). Imaginem uma mãe que em média tem quatro, cinco filhos, de pais diferentes, e não tem ajuda do pai. A irresponsabilidade dos homens que não registam os filhos, nem contribuem para a sua educação complementa o calvário dessas mães.

As de natureza económica, aparenta ter um grande impedimento que representa o tão propalado polvo e os seus tentáculos da corrupção. No nosso país, utiliza-se a expressão Anka nglandji, Kóbo nglandji; Anka txókó, Kóbo txókó (o caranguejo precisa de se adaptar aos buracos que serviam os seus interesses). Isto significa dizer que no primeiro caso, Anka nglandji, Kóbo nglandji, que hipoteticamente, quanto maior for o cargo que se ocupa, maior é a possibilidade de se acumular fortunas. No segundo caso, Anka txókó, Kóbo txókó, significa que nos lugares intermédios tem-se que enriquecer, provavelmente num ápice, visto o dinheiro que circula ser menos avultado e o cargo efémero.

As de natureza cultural são mais complexas. Os sucessivos governos que ao longo desses anos – cerca de cinquenta anos – estiveram a frente dos destinos do país aparentam ter tido uma “cegueira” no que respeita à Política Cultural. Um indivíduo que tenha nascido no ano de 1975, não conhece um cinema; um teatro; um estádio de futebol; uma piscina; um pavilhão desportivo; uma biblioteca digna desse nome; instrumentos como o violino, o violoncelo, o acordéon, a gaita de beiços, que os seus antepassados já utilizavam no passado. O património nacional também passa ao lado das suas preocupações. O incentivo aos escritores, aos artistas plásticos, aos desportistas, aos músicos e aos actores, parece constituir uma autêntica heresia na conta dos orçamentos do país.

Esta é a visão acerca do estado de coisas que mais nos preocupam na nossa sociedade. Entendemos também que os estabelecimentos de ensino deviam criar uma cadeira (universidade) e uma disciplina (ensinos preparatório e secundário) que focassem objectivamente a Educação para a Cidadania, visando levar os nossos jovens a adquirir os bons hábitos, que andam, infelizmente, arredados do nosso quotidiano.

Enfim…, os nossos concidadãos portadores de uma doença do foro psiquiátrico merecem de todos nós o respeito e a capacidade de se desenvolver mecanismos que lhes permitam ter uma vida digna, apesar do infortúnio que lhes bateu à porta.

(artigo de opinião)

Lúcio Neto Amado

4 Comments

4 Comments

  1. Fernando Simão

    26 de Novembro de 2024 at 13:06

    Ver um doente mental a deambular nos lugares públicos em situações indecorosas devia chocar qualquer ser humano. Mas o que me choca mais é a total indiferença das autoridades policiais e sanitárias que têm mecanismos de recolher esses doentes e dar-lhes o devido tratamento. Muitas vezes esquecemos que qualquer um pode estar nesta situação, porque trata-se de uma doença como qualquer uma.
    O nosso Estado não está a cumprir o seu papel. Muito triste!!!

  2. Leonel Sousa

    26 de Novembro de 2024 at 13:50

    Subscrevo na íntegra o conteúdo deste excelente artigo. Não fora eu filho de um enfermeiro da casa dos malucos!

  3. Joao Batepa

    26 de Novembro de 2024 at 14:28

    É o cara da sociedade.
    É uma sociedade toda ela doente.
    Infelizmente São Tomé e Príncipe é uma nostalgia.

  4. Neto

    27 de Novembro de 2024 at 20:58

    Não existe língua forro mas sim criolo forro

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