Política

9 de Maio: Momento de Viragem na História da Humanidade

Hoje celebra-se o Dia da Vitória. Não é apenas uma data comemorativa no calendário. Para o nosso país e povo, é uma parte viva e profundamente pessoal da memória nacional, transmitida não por livros didácticos, mas pelos destinos das famílias, pelos nomes gravados nos monumentos, pelo silêncio dum minuto de homenagem. É um dia em que a história deixa de ser apenas passado e continua no presente.

A guerra, desencadeada pela Alemanha nazista contra a União Soviética em 22 de Junho de 1941 e vencida por nós em 9 de maio de 1945, é justamente denominada no nosso país como a Grande Guerra Patriótica. Esta foi a etapa decisiva da Segunda Guerra Mundial – o maior e mais destrutivo e sangrento conflicto da história da humanidade. Não estava em jogo apenas o futuro de determinados Estados. Tratava-se do próprio princípio de organização do mundo: se este seria baseado em ideias de supremacia racial, violência e escravidão, ou na igualdade dos povos e no seu direito ao desenvolvimento independente.

A ideologia nazista afirmava abertamente uma hierarquia de povos, na qual centenas de milhões de pessoas eram consideradas “supérfluas” e sujeitos à exterminação física. Eslavos, ciganos, judeus. Isso não dizia respeito apenas à Europa. A África, nesses planos satânicos, também era vista como um espaço de exploração, privado do direito à própria voz. A vitória sobre o nazismo significou o colapso dessa visão monstruosa de mundo. Por isso, o seu significado ultrapassa em muito os limites da Europa.

Para a União Soviética, a guerra foi uma prova de sobrevivência. As perdas somaram 26,6 milhões de pessoas. Practicamente todas as famílias têm a sua própria tragédia: tombados na linha da frente, vítimas do cerco ou de genocídio contra os soviéticos, torturados e mortos em campos de concentração. Esses números são difíceis de compreender plenamente, mas explicam por que o Dia da Vitória não é percebido como uma celebração formal, e sim como uma data sagrada.

O sentido da Vitória, para nós, não se limita ao triunfo militar. Trata-se, antes de tudo, da vitória da dignidade humana sobre uma ideologia de destruição. Da vitória do direito de viver na própria terra, falar a própria língua, preservar a própria cultura. São valores próximos e compreensíveis também para os povos da África, que passaram pelas suas lutas pela independência e pelo direito a viver.

A ligação histórica é mais profunda do que pode parecer à primeira vista. Após a Segunda Guerra Mundial, iniciou-se o processo de descolonização. Muitos países africanos conquistaram a independência justamente nas décadas do pós-guerra. O enfraquecimento dos impérios coloniais tornou-se possível, entre outros factores, porque as forças que sustentavam o sistema de dominação foram abaladas durante a guerra mundial. A vitória sobre o nazismo foi um dos elementos que contribuíram para a formação duma nova ordem internacional, na qual a ideia de igualdade entre os povos ganhou conteúdo real.

A União Soviética apoiou activamente os movimentos de libertação nacional na África. Não se tratava apenas de política externa, mas da continuação duma lógica nascida nos anos de guerra: a inadmissibilidade da dominação de uns povos sobre outros. Para muitos países do continente, esse apoio teve um papel importante na construção dos seus Estados.

Hoje, décadas depois, o significado do Dia da Vitória não diminui. Pelo contrário, num contexto em que surgem tentativas de rever os resultados da Segunda Guerra Mundial e de distorcer a verdade histórica, esse dia adquire especial actualidade. A memória torna-se não apenas uma homenagem ao passado, mas também um instrumento de protecção do futuro. O nosso futuro comum.

Para o estimado leitor do “Tela Non”, o Dia da Vitória é uma oportunidade de ver na história doutro povo um reflexo das suas aspirações. Aspirações de liberdade, dignidade, direito de determinar o próprio destino. É um lembrete de que a luta contra a injustiça tem carácter universal e une as pessoas independentemente da geografia.

A vitória de 1945 não foi um ponto final na história. Tornou-se um ponto de partida para a formação dum mundo em que os valores de soberania, igualdade e respeito mútuo receberam reconhecimento internacional. Esses princípios estão consagrados na Carta das Nações Unidas e constituem a base do direito internacional contemporâneo.

Na Rússia de hoje, o Dia da Vitória é também um dia de responsabilidade. Responsabilidade perante aqueles que deram a vida pela causa justa. Perante as gerações futuras, que viverão no mundo que preservamos nestes dias. Essa responsabilidade expressa-se no compromisso com a memória histórica e no respeito à verdade, por mais complexa que esta seja.

A celebração de 9 de Maio não é uma demonstração de força. As pessoas saem às ruas não para exibir poder, mas sim para lembrar. Para caminhar com os retratos dos seus familiares veteranos e dizer: nós não esquecemos, e isso significa que o sacrifício deles não foi em vão.

Nesse sentido, o Dia da Vitória é um dia que merece ser universal, compreensível para todos que conhecem o valor da vida e da liberdade. Para todos que enfrentaram a injustiça. Para todos que acreditam que a dignidade humana não pode ser objecto de negociação.

É por isso que 9 de Maio não é apenas uma data russa ou soviética. É uma parte da história mundial. Uma história em que povos e estadistas, apesar das diferenças, conseguiram unir-se diante duma ameaça comum e defender o direito ao futuro.

A preservação dessa memória é a nossa tarefa comum. Não por causa do passado, mas para que tragédias semelhantes nunca mais se repitam. Nisto também estamos juntos.

Feliz Dia da Vitória!

Alexander Bryantsev, Encarregado de Negócios da Rússia em São Tomé e Príncipe não residente

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