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Conflitos em África – A Eterna Maldição, ou Eterna Conspiração

Durante muito tempo as posições dos países africanos no cenário internacional pautaram-se por opiniões isoladas facilmente manobradas pelas antigas potências coloniais em favor próprio. As decisões eram tomadas. Os africanos simplesmente assinavam.

Há cerca de três anos resultante da experiência e maturidade nas lideranças africanas, começam a surgir modificações. Por exemplo, na última assembleia das Nações Unidas foi notória a tendência de união dos países africanos na defesa dos interesses do continente, agindo solidariamente e em coesão.

Outra situação ocorreu na III cimeira de Tripoli, aqui volta a destacar-se uma nova posição dos países africanos, onde não aceitaram rubricar os documentos unilateralmente concebidos pela Europa – a proposta de Acordo de Parceria Económica, que previa investimentos na ordem de 500 milhões, tendo Europa como contrapartida o livre acesso ao mercado africano – .

O que mudou então?

A visão africana individualista foi substituída por uma perspectiva de integração regional mas num contexto continental.

Sinais dos tempos; a África começa a unir-se, tal como a Europa. Na declaração de Tripoli por unanimidade, os participantes manifestaram as suas preocupações e inquietações quanto aos conflitos em várias regiões de África, em especial no Sudão.

Naquela altura, nada fazia prever os conflitos no norte de África, única região africana onde a paz era notória, pese embora a ligeira insegurança na Argélia, berço das independências Africanas, e que igualmente apoiou a luta anti-fascista, através dos canais de comunicação onde os membros da resistência portuguesa promoveram a divulgação dos ideais revolucionários, sementes que originaram a queda do antigo regime em 25 de Abril de 1975 em Portugal.

Sob o ponto de vista sócio-económico, quer a Argélia como a Líbia, destacavam-se pelo nível de vida acima da média em relação aos demais países africanos e com qualidade de vida superior a alguns países do sul da Europa, onde são notórios os sinais de pobreza e as degradantes condições humanas nas franjas das populações mais desfavorecidas.

No caso da Líbia, esta ocupa o primeiro lugar no Índice do Desenvolvimento Humano; tem a mais alta esperança de vida do continente; tem o maior produto Interno bruto africano. É dos países onde as riquezas nacionais estão melhores distribuídas, tendo os cidadãos líbios acesso aos serviços sociais básicos incluindo a educação e a saúde grátis.

A Líbia tinha em acção um grande plano de desenvolvimento económico e social, onde empregava mais de 2.000.000 (dois milhões) de técnicos, operários e profissionais qualificados estrangeiros, incluindo milhares de profissionais qualificados ocidentais. Nascia uma nova África.

Poderemos concordar ou discordar do modelo de governação. Mas ninguém pode duvidar que era uma nação africana que estava a construir o seu destino, em observância aos seus valores e cultura. É claro que vivemos num mundo globalizado. As expectativas e as manifestações das populações são legitimas mesmo quando ultrapassadas as necessidades básicas.

Por outro lado, nenhum governo consegue satisfazer todas as reivindicações, mesmo nos países onde as regras convencionadas como democráticas estão sedimentadas. Pode-se dizer que nada será como dantes nos países do Magrebe, a dimensão das contestações e as alterações que irão provocar na vida dos seus povos de forma directa, e na dos restantes países de forma indirecta dada a repercussão económica.

Fazendo um exercício de reflexão, a quem poderá interessar uma Líbia desintegrada ou fragilizada?

Aos Líbios não. Os relatos dos expatriados são pródigos em confirmar que se sentiam bem e nunca se sentiram ameaçados e que pretendem regressa logo que a situação de normalidade esteja restabelecida.

À África, também não. A Líbia era o grande propulsor da unidade que já se verificava no seio dos 53 países, quando os assuntos africanos eram objecto de análise e reflexão. Talvez interesse aos países e/ou blocos económicos que pretendem continuar “ad aeternum” a controlar as riquezas africanas, sem nunca se preocuparem com as populações nem com a África, esta constituída por países maioritariamente fragilizados, dada a exploração desenfreada e aos saques seculares das suas riquezas no passado, e posteriormente agravada na pós independência por alianças firmadas pelos novos governantes e os representantes dos países outrora colonizadores, sob a capa do exercício das boas praticas, da democracia e dos direitos fundamentais.

Urge repensar África, a sua diversidade cultural, social e religiosa. Uma reflexão que deve ser discutida previamente em cada um dos países, e posteriormente a nível regional visando a definição do seu próprio percurso em face aos desafios da globalização.

A humanidade perde sempre com a guerra. Todos somos unânimes que a Paz deve regressar à Líbia, para bem do seu povo e a estabilidade em África.

26 de Fevereiro de 2011

Danilo Salvaterra

15 Comments

15 Comments

  1. Buter Teatro Esquecido

    11 de Março de 2011 at 9:34

    Concordo plenamente, os Europeus estão preocupados com a União Áfricana, todos os países que garantem a sustentabilidade da África estão ameaçados.

  2. Veneno de Cobra Preta

    11 de Março de 2011 at 10:54

    Para responder a tua reflexão devo dizer que estamos perante a interna conspiração.
    Basta lembrar que Kadafi era único líder africano que punha em sentido esses ditos defensores dos Direitos Humanos, os mesmo que bombardearam o Iraque, deixou em situação que despensa qualquer comentário.

    O que esses senhores querem todos nós sabemos, mais não basta saber, é preciso que povo africano saia a rua para dizer a esses malandros dito ocidentais que não precisamos deles para resolver os nossos problemas.

    Costa de Marfim, está em plena Guerra civil porquê que os senhores da Nato não vão lá para ajudar a resolver o problema? Claro que não vão, lá não tem petróleo.
    Eles estão em crise, como sempre é na África que vão a procura da solução para as suas crises.

    Estou farto dos ditos Ocidentais, tanta criança que esses senhores mataram no Iraque e mesmo nenhum está preso por crime contra humanidade?!!

    • Veneno de Cobra Preta

      11 de Março de 2011 at 12:26

      “Iterna” queria eu dizer.

    • RS

      11 de Março de 2011 at 15:05

      “Eterna”, queria você dizer.

    • Veneno de Cobra Preta

      11 de Março de 2011 at 15:58

      Ok thanks.

  3. Celsio Junqueira

    11 de Março de 2011 at 11:18

    Meu Caro Danilo Salvaterra,

    Um muito obrigado pelo seu testemunho e pude depreender das suas palavras que conhece bem a Libia e as suas gentes.

    Não nego os indicadores internacionais e o impulso de união que a Libia deu a União Africana.

    Podemos dizer que a revolta dos Libios será manipulação de forças externas (a AlQuaeda, o Ocidente, e até as substâncias psicotrópicas, etc) e/ou em linguagem popular “um povo com barriga cheia e farto de felicidade” que resolve deitar abaixo tudo e começar do zero. Pode ser! A Humanidade tem um pouco de tudo, também de factos insólitos.

    Penso não ser bem assim!

    Actualmente, com o mediatismo/mass media o desgaste das Lideranças é maior dado a sua permanente exposição pública a todos os niveis, uma sociedade mais educada, com conhecimento e muito mais comunicativa (internets,sms, tvs, etc).

    Ninguém entende o porquê de se ser governado tanto tempo pelas mesmas pessoas e com um acumular-apropriação de riquezas que não resulta da sua actividade profissional.

    Precisamos de renovar permanentemente os projectos de vida e de sociedade. O ritmo de vida mudou radicalmente, já não se trabalha ou vive-se com uma pessoa/empresa toda a vida. Estamos sempre a mudar e queremos que isso aconteça também a nivel politico.

    Julgo que o grande erro da liderança Libia foi não ter percepcionado isso atempadamente. Tem que haver rotatividade nos cargos públicos e politicos, exige-se novas ideias e esperanças, sobretudo adequada aos novos tempos e realidades.

    Só espero que um exame de consciência tal como o nosso Grande Nelson Mandela fez (disse que já tinha desempenhado o seu papel) passe pela cabeça do lider Libio a bem de todos, principalmente dos Libios e da Libia.

    Um Grande Abraço,

  4. lino

    11 de Março de 2011 at 15:09

    Não há lugar a condescendência …meu amigo Danilo.
    Esse senhor Kadafi e todos iguais a ele ….que se agarram ao poder e acumulam fortunas incalculáveis em benefício próprio e da familia….onde é que andamos afinal!?
    O país é propriedae dessas pessoa?
    É quintal dessa familia?
    Deve sair e confiscado todos os bens para depois ser aplicado em causas humanitárias naquele país.
    Julgado e quiça…enforcado.
    Ja matou muita gente.
    NADA DE CONDESCENDÊNCIA.

    • Arnaldo Campos

      11 de Março de 2011 at 16:54

      Concordo cotigo Lino…
      Não percebo como é que uma pessoa, minimamente instruída e com princípios e valores humanitários pode achar que a revolta popular na Líbia pode significar a interferência de potências económicas estrangeiras. O Kadafi já era um louco que tinha interesses em enlouquecer o seu próprio povo e com ambições de estender este objectivo a toda a África. Agora que o seu próprio povo revolta contra as injustiças que este tirano praticou procura-se a culpa nas potências económicas. Este chão já deu uvas que tinha que dar…
      Acabou o tempo de se culpabilizar os erros e arbitrariedades dos ditadores e sanguinários com disfarce e pseudo-objectivos de potências ecómicas estrangeiras.
      Hoje em dia ninguém se sujeita aos tiranos e discordo totalmente do conteúdo do artigo do meu amigo Danilo Salvaterra muito embora entenda os efeitos da escola totalitária, Cuba, onde ele se formou e fez-se homem que estão reflectidos no referido artigo.
      Mas eu que já sofri muito com a ditadura, no regime antigo do MLSTP não desejo este regime para o meu país. Peço desculpas ao Danilo Salvaterra e a sua condescendência para com Kadafi. Ele mas é tem que responder no Tribunal Penal Internacional todo o mal que ele tem feito ao seu povo. Quem mata o seu povo não merece perdão.
      Fui
      Arnaldo Campos

    • Mina di Célivi

      13 de Março de 2011 at 13:19

      Caro Arnaldo, concordo em partes consigo…
      Agora te pergunto porquê não enviar tambem para o TPI o George BUSH que tantos inocentes “matou”?!
      A TPI funciona para alguns, para os outros não?!

  5. Osana Leal

    11 de Março de 2011 at 16:06

    É altura de África “bili uÊ”, e não aceitar de mãos prontas, as propostas das grandes potencias. Quem não conhece o ditado: “de boas intenções, está o chão do inferno pavimentado”?. Alguns países vêm com essa de “ajudar África”. Mas, o que se passa é que cada um está a olhar para o seu bico.
    É normal que Kadafi não seja um líder perfeito, e se calhar, ja devia dar oportunidade aos outros de governarem a Líbia. Mas a grande verdade, é que ele levou Líbia a um grande crescimento.
    Agora o povo Africano tem estado a manter-se vigilante, e a abrir os olhos, não aceitando de mãos- dadas, obviamente, as recomendações das “GRANDES POTENCIAS”. É claro que há uma conspiração contra o líder Líbio, pois ele não deve ter acatado órdens das potencias, que por sua vez, acham que está na altura de se livrarem do Kadafi.

  6. Carlos Ceita

    11 de Março de 2011 at 18:40

    Pois é meu caro amigo
    A África é um gigante adormecido. Ela tem de se despertar rapidamente para impor o seu ponto de vista em termos económico político e militar.
    Tem a potencialidade material e humana para efeito. Mais cedo ou mais tarde espero que a nova geração de africanos familiarizados com as novas tecnologias pugnem para que a nossa África seja respeitada. Perante os acontecimentos da Libia agora potencias ocidentais se lembraram da democriacia e os direitos humanos. Onde andava esses cínicos hipócritas quando abraçavam e faziam elogios públicos ao Kadafi. É preciso ter lata esses senhores de vir agora com a democracia e direitos humanos. Qual democracia qual carapuça. Mas a par disso há coisas que não entendo sinceramente. Porque razão ainda existe a NATO? Então não está morta o bloco militar-comunista soviético do Pacto de Varsóvia? Faz sentido a existência desta organização?
    NATO e EUA que invada a Libia mas ela que não se esqueça de intervir também na Costa do Marfim porque ai também há pessoas a morrer. Os será que os marfinenses não são gente que se deve proteger.
    Tenham amigos e amigas um bom fim de semana

  7. mariana salvaterra

    11 de Março de 2011 at 18:55

    Aló,,priminho td,bem!..li o teu artigo,mas
    permita-me discordar em alguns pontos.”dar o ceptro a outra geracao”,s/Mandela ex:-outro ponto,quando os filhos rebelam contra os pais…,ou os filhos sao maus,ou o pai nao é bom…temos que parar com a politica de matar o homem para salvar a nacao,eu vive na carne tive que dizer uma crianca de 7 anos que pai foi assassinado….por outro lado os africanos nasceram no meio duma repressao,cruel e nao conheceram democracia,e sao opressores crueis,quanto sangue está na mao do kadafy?outro ponto é quando uma sociedade se desenvolve intectualm/económica/e social ela axpira
    mudancas crediveis e tangíveis que sao sempre sufocadas cruelm/ em banhos de sangue,outro ponto mt. importante da luta contra o terror esses paises corruptos deram os seus opositores como terr… e as suas cadeias transformaram em máquinas de represao…os individuos cruzavam continentes em condicoes miséraveis de fraldas e descalco algemados para estes paises para serem torturados…quando as nuvens se acumulam ninguém pode impedir que a chuva cai…o céu abriu-se até os donos da inteligencia foram apanhados de surpresa…Eu estou convicta que a geracao X vai por a casa em ordem, a pera nao cai longe da pereira se os nossos pais rebeleram contra as injusticas colonias,hoje a exclusam no comando na vida do pais esta gritando o “O IPIRANGA”para um poder executivo independente e forte,com constituicao de um mandato de dois periodo irrevogável..
    e que todos servidores apresentam os seus bens acumulados obrigatoriedade de pagar taxas sobre os rendimentos assim a sua saúde e sua vida moral. “cheque and balence” tem ser a coluna vertebral.o periodo de “homem forte” acabou agora é tempo duma sociedade forte,bem haja o povo libio..

  8. Abílio Neto

    11 de Março de 2011 at 21:54

    Caro Danilo Salvaterra,

    Esta frase é quase assassina, tenho de dizê-lo e digo-te com toda a frontalidade:

    “Aos Líbios não. Os relatos dos expatriados são pródigos em confirmar que se sentiam bem e nunca se sentiram ameaçados e que pretendem regressa logo que a situação de normalidade esteja restabelecida.”

    Afirmar “aos Líbios não”, justificando com os “relatos dos expatriados”, seria como comparar o que diziamos e reivindicavamos os africanos, aquando das nossas independências, com os “relatos dos colonos / retornados”! A similitude é espantosa, acho.

    O mais complicado, para mim, é tentar compreender e especular com distanciamento e racionalidade porque razão, face as condições materiais conseguidas, o regime não teve a sageza de auto-regenerar-se, mais ainda quando no seu interior sabia-se que essa reflexão já vinha sendo feita, lamentavelmente, com imensos condicionamentos.

    E se não te importares, relativamente ao abaixo, acho que há um gap, um vazio histórico, falta aqui, pelo meio, no pós-independência, as ditaduras revolucionárias que contagiaram o continente. Suponho que estas também deverão ter um lugar na história.

    “E posteriormente agravada na pós independência por alianças firmadas pelos novos governantes e os representantes dos países outrora colonizadores, sob a capa do exercício das boas praticas, da democracia e dos direitos fundamentais.”

    Termino, meu caro, confessando-lhe que um futuro melhor do n/ continente passa por lideranças descomplexadas, dinâmicas, responsáveis e capazes de assumir as suas decisões, boas ou más, sem usar o gasto argumento da culpabilização dos países ocidentais.

    Cordialmente.

    Abr.,

    An

  9. Daniel

    12 de Março de 2011 at 22:33

    Pois

  10. antónio pinto

    14 de Março de 2011 at 9:25

    A união Africana tem que ser mais determinante. O sr. Kadafi já cometeu muitas atrocidades contra o seu povo e por isso, está na hora da saída.

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