Cultura

-E já lá vai uma década…. Por Albertino Bragança

Att : O texto que se segue em alusão ao décimo aniversário do falecimento da Poetisa e combatente da liberdade da pátria, Alda do Espírito Santo, é de autoria do escritor Albertino Bragança.  

Com a leveza de um pássaro voando nas belas e tranquilas paisagens do sul, o tempo como que também esvoaçou e eis que, quase que sem nos darmos conta, dez anos se passaram sobre o falecimento daquela que incarnou, como poucos, a expressão dos sentimentos identitários dos santomenses e que mereceu destes o afecto, o respeito e a consideração, apenas conferidos aos que se entregam, com genuína seriedade e convicção, à nobre acção de os representar. No caso vertente, a professora, poetisa e activista política, Alda Espírito Santo.

Falar dela é retornar inevitavelmente ao passado, pois foi há dez anos que desapareceu aos nossos olhos, a mulher intrépida da militância desde jovem nos círculos político-literários africanos de Lisboa, onde pontificavam reputados patriotas africanos, oriundos das colónias sob o jugo de Portugal, que aliados aos antifascistas e anticolonialistas daquele país, se entregaram, com empenho e destemor, à luta pela dignificação dos africanos e de emancipação dos seus destinos; a autora de chocantes versos repudiando, com veemência e dor, os trágicos ventos de loucura que, em Fevereiro de 1953, varreram a ilha e levaram na sua irracionalidade centenas e centenas de mulheres e homens inocentes.

Ela foi ainda a jovem arrojada que, enfrentando a severidade das temerosas forças policiais do regime colonial, não temeu conceder apoio ao advogado Dr. Palma Carlos, enviado em nosso socorro, e expeliu dezenas de cartas ao exterior, pelas quais exteriorizava a repugnância que sentia pelos hediondos acontecimentos perpetrados pelo colonizador sem escrúpulos; o afã colocado no apoio, em pleno regime colonial, à emancipação cultural dos jovens santomenses, incitando-os à leitura, pelo empréstimo de obras dos mais reputados escritores progressistas da época, de que eu próprio, estudante ainda do liceu, fui um dos beneficiários; enfim, a sua preciosa contribuição, de índole política e literária, como Ministra da Educação e Cultura e Presidente da Assembleia Nacional, e a criação, em 1985, da União dos Escritores e Artistas Santomenses, de que foi sempre a dinâmica Presidente.

Para quem, como vós, a acompanhou no difícil processo de criação desta instituição, perdura a imagem plena de determinação do seu rosto incentivando-nos a seguir em frente, prova da sua inigualável capacidade de incutir nos que com ela operavam a ideia de que, juntos, eram capazes de atingir os desejados objectivos, ciente como era de que a única luta que se perde é aquela que se abandona.

Recorde-se ainda que, membro do escol de dirigentes que então se evidenciou no projecto conducente à independência de S. Tomé e Príncipe, Alda Espírito Santo, embrenhando-se na estrada da imaginação, sacou do recanto mais profundo do seu ego patriótico o texto do que seria (e é ainda) o Hino Nacional, cujos versos retratam, de forma assaz indesmentível, o seu fervoroso apego à terra e ao povo, ao consenso, à solidariedade e à conjugação de esforços na nobre defesa dos interesses nacionais, num apelo para que o futuro se pudesse consubstanciar num ciclo histórico favorável à sua ditosa concretização.

Eis-nos, agora, na cerimónia com que honramos, uma vez mais, a memória de Alda Espírito Santo, tendo bem presente que não nos devemos eximir ao reencontro com a convicção que ela exprimia ao reiterar que estamos do mesmo lado da canoa, bem assim, a persistência que colocava nos empreendimentos sob a sua direcção,
Dez anos após a data fatídica do seu desaparecimento, perpassam por nós um fluxo extraordinário de recordações de uma personalidade de rara dimensão histórica, cultural, política e cívica.

Por tudo isso, recordar Alda Espírito Santo é rememorar o exemplo de uma mulher em que a coragem, a frontalidade, a persistência, o inconformismo e o fervoroso amor pátrio constituíram traços destacados da sua personalidade.

Disse um dia o poeta, numa fatídica referência à morte: “não mais verás a chuva a bater na vidraça, /nem ouvirás o rumor do vento na floresta, /nem as aves abrindo as janelas da manhã”(1).

Ora, se é verdade que já não somos capazes de ter de novo entre nós aquela que tanto se empenhou em prol da UNEAS e da cultura santomense, de que era como que a irredutível depositária, apropriemo-nos então, orgulhosos e decididos, do legado social e cultural que nos deixou, o qual depõe nas nossas mãos uma fabulosa ferramenta para a prossecução dos ditosos trilhos do futuro.

Enfim, algo de marcante que a sua memória nos obriga a preservar, na construção desse amado S. Tomé e Príncipe que, tal como ela, todos desejamos mais próspero, mais justo, mais solidário e mais digno.

MUITO OBRIGADO

Albertino Bragança
Presidente da União Nacional dos Escritores e Artistas de São Tomé e Príncipe

    1 comentário

1 comentário

  1. Santomense de gema

    11 de Março de 2020 as 9:46

    Referência exemplar da Pátria. Dgnissima filha de São Tomé e Príncipe e de África. Matriarca das letras e da nação. Curvo-me perante o teu exemplo e a tua memória gigante.

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