Cultura

Escritor ficou assustado com a violação sexual em STP e escreveu “A Mulher que Cultivava Silêncios” 

 “A Mulher que Cultivava Silêncios”, é o título do livro de contos publicado no espaço Sun Sékléta no centro da cidade de São Tomé. Lúcio Amado professor e escritor é o autor da obra literária, que dentre outros contos revela a violação sexual como um fenómeno assustador em São Tomé e Príncipe.

«Escrevi este livro justamente para despertar a sociedade. Eu fiquei assustado com o número de violações que existem aqui na nossa sociedade. Eu acho que a própria sociedade não tem noção da dimensão da violação que existe no nosso país», afirmou Lúcio Amado.

FOTO : Lúcio Amado / Escritor

Autor de várias obras literárias, nomeadamente a “História da Educação em STP de 1470 – 1975”, Lúcio Amado explicou porque razão incluiu SILÊNCIOS, no título da mais recente obra publicada.

«Silêncios porquê? Porque são as mulheres de São Tomé e Príncipe, que cultivam o silêncio sobre as suas filhas pré-adolescentes que são violadas. Isto é um trauma para toda a vida. Dificilmente se fala dessas coisas, porque temos um problema grave que tem a ver com a justiça», precisou.

No livro o escritor alerta toda a sociedade santomense para estar atenta aos sinais que são transmitidos por uma criança vítima de violação sexual.

«Uma criança que está a ser violada por alguém da família, por amigos da família, ou pelo padrasto, a única coisa que ela faz é não falar, fica assim embrenhada. São pequenos sinais que podemos ver.   É preciso que as famílias estejam atentas para minimizar este problema no nosso país», pontuou Lúcio Amado.

Para além da violação sexual das crianças, a coletânea de contos suscita reflexão nacional sobre o crioulo fòrro e a língua portuguesa. Segundo Lúcio Amado ambas são muito maltratadas em São Tomé e Príncipe.

Segundo o autor do livro, a violação da língua materna e da língua oficial deve ser combatida. Deu o exemplo do crioulo da ilha do Príncipe o Lunguié, que está em vias de extinção.

«O Lunguié desapareceu, é a língua do Príncipe. Quem fala o Lunguié no Príncipe são os idosos. Mas, de um tempo a esta parte introduziu-se o ensino do Lunguié, da primeira classe ao décimo segundo ano», frisou

“Okossô”, é o nome vulgar dos Albinos em São Tomé e Príncipe.  Os Albinos fazem parte de um dos contos do livro. O escritor manifesta-se preocupado com o aparente desaparecimento dos Albinos no país.

«Ando nas ruas, nas escolas, nos bairros e não vejo um Albino. Alguma coisa está a acontecer, ou as famílias escondem-nos, As autoridades deveriam agir para saber o que se passa com os Albinos», concluiu.

Professor e escritor, Lúcio Amado alimenta também a consciência nacional sobre os mais variados aspectos culturais e sociais, através de artigos publicados na imprensa santomense, nomeadamente o Téla Nón.

Abel Veiga   

2 Comments

2 Comments

  1. ANCA

    28 de Outubro de 2024 at 11:16

    Antes de mais parabéns, ao escritor Lúcio Amado.

    O grande mal, que condiciona a instituição Família São Tomense, que condiciona o funcionamento/evolução/modernização das nossas instituições, o avanço desenvolvimento da nossa, sociedade/comunidade está nas características do Homem, a falta de responsabilização.

    Assim temos instituições fracas, logo sociedade pobre, miséria, fome.

    Necessário se torna reforma modernização do modo operandi das instituições, como a da Justiça, da Segurança, da Proteção, da Educação/Formação(formação dedicada ao fortalecimento familiar, formação para cidadania), de trabalho e solidariedade,…assim temos( crimes, o ócio, os roubos, as violações, violência infantil, trabalho infantil, violência domestica, gravidez precoce na adolescência, consumo excessivo de álcool, consumo de estupefacientes, a poligamia, a prostituição, as intriguices e mentiras, a difamação, a corrupção, etc, etc… necessário perceber as causas, as origens destas manifestações), pois que se jamais formos capazes de inverter tais realidades, pela formação(expansão dos serviços, fortalecimento institucional, medidas, aplicação efetiva de penas, a responsabilização, autoridade do estado, emprego, rendimento, a integração social), urgente, premente, temo que se possa tornar viral perene e cultural na nossa sociedade/comunidade/instituições/país.

    Pratiquemos o bem

    Pois o bem

    Fica-nos Bem

    Deus abençoe São Tomé e Príncipe

  2. wilson bonaparte

    28 de Outubro de 2024 at 15:45

    O sistema judicial santomense mais parece uma rede de proteção de interesses próprios, onde cada caso escandaloso é varrido para debaixo do tapete, e quem levanta a voz arrisca-se a “cultivar silêncios” também. Talvez o que o país precise não seja apenas um novo livro, mas de uma verdadeira expurgação judicial – uma limpeza radical que retire de circulação esses indivíduos que, em vez de protegerem os inocentes, se protegem uns aos outros.

    Enquanto escritores e ativistas tentam sensibilizar a sociedade através das artes e da palavra, os responsáveis legais, ironicamente, parecem proteger-se atrás de leis que apenas lhes servem, numa inversão completa de valores. Talvez um dia São Tomé acorde para a necessidade de expurgar o próprio sistema que deveria proteger os seus filhos – e até lá, os escritores continuarão a escrever e as vítimas a “cultivar silêncios…

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