A poesia como lugar onde a humanidade se reconhece e salva.
Henrique Levy
A recente atribuição, por unanimidade, do 44.º Northern California Book Award à antologia de Conceição Lima (Lima) No Gods Live Here, com tradução de David Shook, segundo Conceição Lima, David Shook é o primeiro destinatário do prémio que distingue esta antologia, pois trata-se da categoria de poesia traduzida. A autora refere ainda que a atribuição desta prestigiada distinção se deve a um trabalho de estreita colaboração, que trouxe David Shook duas vezes a São Tomé e Príncipe.
Esta consagração internacional, pela primeira vez atribuída à poesia de São Tomé e Príncipe, pela voz de Lima, eleva a obra poética da autora às constelações maiores da literatura mundial. Esse gesto não me surpreende, antes vem confirmar o que, desde há muito, é evidente para quem lê poesia com atenção e rigor. Lima ocupa o lugar cimeiro da poesia em língua portuguesa na contemporaneidade.
Reitero e proclamo: Lima é, hoje, a maior de entre todos os poetas da língua portuguesa. O seu canto coloca-se lado a lado com os grandes nomes da literatura mundial contemporânea. E se Aimé Césaire (Martinica, 1913-2008) ou Pablo Neruda (Chile, 1904-1973) deram voz ao seu tempo, também Lima é a consciência lírica do nosso século, cantando a memória da dor e a promessa da esperança. A poesia de Lima, que leio à luz da experiência atlântica, encontra eco na vida quotidiana e nos símbolos universais da experiência humana. A poetisa partilha com o leitor o gesto de escrever como testemunho ético, onde cada verso é arquivo e restituição e cada palavra, denúncia e canto. A partir de um arquipélago africano, o poema, fundindo a ferida da escravatura atlântica com a força regeneradora da linguagem, convoca, a partir de um microcosmos insular, uma cosmologia onde os versos são simultaneamente ponte para a universal pulsação do corpo, do tempo e da história.
Ler Conceição Lima é reconhecer uma poesia que, tal como a de Neruda e Césaire, sabe unir intensidade lírica e consciência histórica, memória e profecia, beleza e justiça, fazendo da sua poética instrumento de uma universalidade que é ao mesmo tempo pessoal, histórica e cósmica. A voz desta poesia nasce da insularidade santomense, mas não se deixa enclausurar na topografia da ilha. Pelo contrário, a ilha é, nos seus versos, metáfora expandida do mundo, lugar de origem e de desterro, palco de memórias feridas e horizonte de universalidade. A minha leitura da poesia de Lima realiza-se a partir dos Açores, outro arquipélago atlântico. Este deslocamento geográfico é fundamental, pois permite que a sua palavra, nascida do ventre de um país africano, dialogue com uma insularidade europeia, ambas marcadas pela memória oceânica e pelo encontro de culturas.

Natália Correia, natural da ilha de São Miguel, transformou a pequena ilha açoriana onde nasceu em palco de vastos movimentos poéticos e culturais. A sua poesia é marcada por uma insularidade vital, orgânica e telúrica, mas ao mesmo tempo inquieta e expansiva. Os Açores, em Correia, são lugar de tensão, fronteira entre confinamento e abertura, entre memória da paisagem e imaginação ilimitada. Essa experiência insular imprime à sua poesia uma densidade lírica e um vigor simbólico que se cruzam com a consciência histórica e social da cultura e do país de nascimento. O ponto de convergência entre Lima e Correia está na capacidade de transformar a insularidade em cosmologia. Para ambas, a ilha é um microcosmo do mundo. Enquanto Lima centra a sua atenção na memória da diáspora e na reconstrução de identidades feridas pelo colonialismo, Correia expande o espaço insular em cosmos imaginativo, onde a linguagem é simultaneamente corpo, política e mito. Em termos formais, Correia e Lima cultivam uma poesia intensa, musical e imagética, capaz de unir o íntimo ao universal, o particular ao cósmico. As suas obras poéticas demonstram que a insularidade não é limitação, mas força geradora de criatividade, consciência histórica e transcendência estética.
Sou cabo-verdiano, pertenço a um país arquipelágico africano, e é nessa condição insular que encontro a ressonância mais íntima da poesia de Lima, reconhecendo no Atlântico uma matriz comum. Um espaço de feridas e de travessias, mas também de resistência e de canto. Entre Cabo Verde, Açores e São Tomé desenha-se uma cartografia poética singular que projeta estas ilhas para o mundo pela voz dos seus poetas, demonstrando que a insularidade não confina a criação literária, antes a impele para a abertura de horizontes partilhados, que transcendem as fronteiras da língua e da cultura. A poesia de Lima, recebida desde os Açores e pensada a partir de Cabo Verde, mostra-se como o coração poético do Atlântico inteiro.

O Útero da Casa (2004) incorpora a matriz fundamental do seu projeto poético, inscrevendo a casa como ventre e como ausência: «Quero-me desperta/se ao útero da casa retorno/para tactear a diurna penumbra/das paredes/na pele dos dedos rever a maciez/dos dias subterrâneos/os momentos idos.» Um lugar de pertença e de perda. Espaço materno e ferida aberta. Nas suas imagens, a ilha respira como cosmos. É uma geografia mínima que se torna mapa do mundo. Seguiram-se títulos decisivos como A Dolorosa Raiz do Micondó (2006), em que Lima transforma a árvore frutífera em arquétipo da memória doce e amarga, viva e ferida. Ali, o canto não narra a escravidão como passado morto, mas como cicatriz que ainda sangra no presente. A cada verso, o Atlântico ressuscita corpos e vozes silenciadas: «E quando o olho da câmara/desventrou enfim o silêncio/um metódico vendaval avermelhara/para sempre as águas e os campos.» É aqui que se revela o caráter ético da sua poesia, onde nomear é resgatar, escrever é restituir dignidade aos que foram apagados da história.
Em O País de Akendenguê (2011) e Quando Florirem Salambas no Tecto do Pico (edição de autor, 2015), encontramos o mesmo impulso de reterritorialização da língua portuguesa. Esses versos ilustram como a poetisa utiliza a língua portuguesa para evocar imagens e sentimentos: «Hoje as palavras nada dizem de naufrágios./Pétalas apenas/Pétalas não visíveis/Infinitas pétalas/E na ponta dos nossos dedos/O fantasma de uma doce, habitável Cidade/Suas vestes de púrpura e de lenda/Seu corpo, fruto tenaz e justa partilha.» É nesta mitopoética que a sua obra toca o universal. Porque nomear o que é pequeno, local, concreto, é afirmar o direito de existir de todos os mundos minorados pela história. A sua poesia, nascida de São Tomé e Príncipe, alcança a condição universal de quem canta para toda a humanidade.
Tal como José Craveirinha e Noémia de Sousa fizeram da poesia o lugar da luta moçambicana, e Corsino Fortes ergueu Cabo Verde à altura do cosmos, em poemas como Pecado Original: «Passo pelos dias/E deixo-os negros/Mais negros/Do que a noute brumosa./Olho para as coisas/E torno-as velhas/Tão velhas/A cair de carunchos./Só charcos imundos/Atestam no solo/As pegadas do meu pisar/E fica sempre rubro vermelho/Todo o rio por onde me lavo./E não poder fugir/Não poder fugir nunca/A este destino/de dinamitar rochas/Dentro do peito.», também Lima nos dá um canto insular que é, simultaneamente, planetário. O seu gesto é singular: a ferida do colonialismo torna-se mito e o mito devolve-nos à esperança de um mundo por vir.
No Gods Live Here projeta a voz da poetisa santomense além da língua portuguesa. Na tradução inglesa, a sua palavra ganha nova respiração, mas preserva a dor ancestral convertida em canto universal. A frase do título ecoa como uma advertência, não há deuses a proteger-nos, mas também como epifania ditada por esses mesmos deuses que parecem segredar: resta-nos apenas a palavra como último reduto de humanidade. É por isso que, ao ler No Gods Live Here, compreendemos que a tradução não pretende somente uma transposição linguística, mas a confirmação da vocação ecuménica de uma obra que sabe falar a todos os povos e em todas as línguas.
Ao reconhecer esta obra por unanimidade, o júri norte-americano confirma que a voz de Conceição Lima não pertence apenas às ilhas do Equador, mas à consciência planetária.
Celebrar a obra de Conceição Lima é afirmar que a poesia continua a ser o lugar onde a humanidade se reconhece e se salva.
São Miguel, setembro, 2025
Pascoal Carvalho
22 de Outubro de 2025 at 11:56
Um excelente e mais que merecido reconhecimento internacional.