Cultura

Jornalista e tradutor angolano oferece mais de 200 livros infantis sul-africanos à Biblioteca Nacional

O jornalista e tradutor angolano, Aires Walter dos Santos, ofereceu à Biblioteca Nacional mais de 230 livros infantis eletrónicos, 200 dos quais, de autoras e autores sul-africanos. Todos os livros foram traduzidos do inglês, a partir do website Book Dash, uma organização filantrópica da África do Sul.

A coleção inclui também alguns livros brasileiros, indianos e a adaptação de um livro de uma autora portuguesa. São histórias curtas profusamente ilustradas, escritas com a leveza requerida para crianças até aos cinco anos de idade. A diretora da Biblioteca Nacional de São Tomé e Príncipe, Marlene José, que tem como uma das maiores preocupações o reforço do acervo infantil e infantojuvenil, ficou encantada com a oferta. ‘’Estamos muito gratas ao senhor Aires Walter dos Santos. A nossa gratidão ao recebermos este acervo de histórias infantis, é enorme. Estes contos são uma autêntica e preciosa biblioteca infantil que contribuirá para enriquecer a dinamização dos clubes de leitura na Casa dos Contos (nas sessões de contos no Caroceiro) e no espaço infantil da Biblioteca Nacional Francisco José Tenreiro.’’  

A coleção inclui títulos como ‘’A melhor coisa do mundo’’, ‘’A Melita quer ajudar’’, ‘’A menina bonita de cabelos enfeitados’’, ‘’A turma dos humores’’, ‘’A surpresa do aniversário do Tiago’’, ‘’A menina que não parava de rir’’, ‘’A Nawami vai ao parque’’, ‘’A nossa estrada’’, ‘’A nuvem rabugenta’’, ‘’A pequena cozinheira’’, ‘’A preguiça dorminhoca’’, ‘’A prenda da tia Milu’’, ‘’A princesa do Soweto’’, ‘’A raposa malandra’’ e ‘’A surpresa do aniversário do Tiago.’’ Aires Walter, cujo pai é são-tomense, fez a oferta através da poetisa e jornalista Conceição Lima. ‘’A profunda e fraterna amizade’’ que os liga, nas palavras de Conceição Lima, teve o seu início nos anos de 1980, quando ambos começaram a trabalhar nos Serviços em Língua Portuguesa da BBC, em Londres.

O Téla Non entrevistou Aires Walter dos Santos, a viver presentemente em Portugal.

P – Como nasceu a ideia de traduzir todos estes livros?

R – Em Fevereiro de 2023 vi na Internet, por mero acaso, um website da Book Dash, organização filantrópica sul-africana que se dedica a produzir e a distribuir, gratuitamente,  pequenos livros infantis. A Book Dash defende que, até aos 5 anos de idade, cada criança deve ter uma pequena biblioteca com pelo menos 100 livros. Eles convidam escritores e ilustradores (alguns de renome), que oferecem a sua arte, de forma gratuita. Os livros produzidos são colocados no website para leitura livre. Todos eles têm entre 14 e 16 páginas ilustradas e coloridas, e estão em Inglês e em várias línguas sul-africanas. Podem ser baixados, imprimidos, adaptados, encadernados, espalhados como folhas livres ou como ficheiros digitais, em formato PDF, por exemplo. A Book Dash tem a particularidade de permitir que os livros sejam também livremente traduzidos para outras línguas de quaisquer partes do mundo. 

A minha irmã tem um colégio em Angola e a minha ideia inicial foi traduzir os livros para os miúdos mais novinhos do colégio. Os miúdos adoraram os livros. Os pais e encarregados de educação recebiam-nos nos telemóveis e liam-nos aos filhos. E também começaram a passá-los a outros amigos e conhecidos – que passaram a lê-los também aos filhos.

P – Quanto tempo levou a traduzir?

R – Não levei muito tempo. É que gostei tanto do conteúdo e das ilustrações, que havia dias em que traduzia, calmamente, entre 10 e 15 livros! Claro, traduzi também livros mais antigos. Eles publicaram os primeiros livros em maio de 2014. Traduzi mais de 200.

P – Quais foram os principais desafios?

R – Não houve grandes desafios. Tratando-se de livros infantis, os textos são curtos e descomplicados. Adaptei alguns nomes de personagens e de localidades. Os nomes originais eram, na sua maioria, nomes sul-africanos – alguns difíceis de pronunciar. Por isso alterei alguns. Os livros mais recentes podem ser baixados ‘limpos’ (sem texto), o que facilita, depois, a colocação dos textos traduzidos. Alguns dos mais antigos não tinham páginas sem texto. Tive de apagar os textos em Inglês para colocar os textos em Português. Isso faz-se com relativa facilidade, usando apps para o efeito.

P – De que forma tem procurado maximizar os frutos desse esforço?

R – Não tenho feito grandes esforços, confesso. Enviei os livros a alguns amigos. Também enviei o endereço do website a amigos anglófonos, que têm filhos, sobrinhos e netos que não têm acesso a livros infantis de raiz africana. Tenho uma amiga que me disse, há tempos, que o problema não é as nossas crianças lerem sobre a Branca de Neve, a Gata Borralheira, ou o Super-Homem; o problema é não lerem TAMBÉM livros sobre crianças mais parecidas com elas mesmas. Essa é a mais pura das verdades. Se os pedagogos consideram que uma criança deve, até aos 5 anos, ter pelo menos 100 livros, como é que se consegue fazer isso? Comprando-os? Não é comportável para muitos pais. Sabemos que os livros (incluindo os infantis) não são baratos em parte alguma – menos ainda no nosso continente. Daí a tremenda ajuda que a Book Dash e a sua equipa dão a todo o mundo com esta incrível iniciativa.

P – É missão cumprida ou vai continuar?

R – A missão não está cumprida, a menos que a Book Dash deixe de publicar os livros! Todos os anos, em março, eles lançam cerca de uma dezena de novos livros. Assim que recebo a notificação deles, começo a ‘trabalhar’. Dá-me um prazer muito especial traduzir e distribuir esses livrinhos.

P – O seu pai é são-tomense. Esta oferta às crianças são-tomenses tem um significado especial?

R – Claro que tem! Tenho a certeza que crianças da minha família são-tomense vão ler alguns dos livros. Mas, mais do que isso, a mim satisfaz-me a possibilidade de ver crianças são-tomenses a lerem (ou a terem os pais a lerem-lhes) TAMBÉM livros deste tipo, com crianças parecidas com elas e enredos com que facilmente se identificam; com pais e avós e amigos e colegas e lugares parecidos com os deles próprios.

Téla Nón

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