Quando se utiliza a expressão adeus significa dizer-se a outrem… um até breve! Pretende-se, no fundo, fazer-se um despedimento momentâneo.
Até breve (antê djá sé, na língua forro) é uma forma simbólica de se despedir de alguém que nos é próximo e com a qual partilhamos andanças e cumplicidades das regras básicas do civismo, trilhamos princípios da moralidade e escalpelizamos as páginas da oralidade literária e cultural.
A razão do meu até breve reside num episódio triste, doloroso e muito sentido. A narrativa desse episódio explica-se em meia dúzia de palavras soltas.
Pois foicom surpresa e muita tristeza que tomei conhecimento da morte prematura do meu compatriota Caustrino Alcântara, um cidadão impoluto da sociedade são-tomense da actualidade.
A expressão cidadão impoluto é utilizada neste caso para descrever uma pessoa educada, com carácter, honesta, integra, cujo modo de ser e de estar podia servir eventualmente de modelo a um conjunto de indivíduos da nossa praça.
O perfil de Caustrino Alcântara encaixa justamente nesse figurino. Ele foi um são-tomense que dedicou grande parte da sua vida a investigar e a resgatar as periferias do património por nós herdado dos cinco séculos de colonização europeia a que fomos sujeitos.
Embora não tenha enveredado por uma carreira universitária formal, Alcântara tornou-se num auto-didacta ímpar que tentava construir pontes que ligassem os meandros da história do país a manifestações culturais, literatura e línguas nacionais.
Quem era Caustrino Alcântara?
Caustrino Leal de Jesus Alcântara nasceu no dia 23 de Fevereiro de 1970, na ilha de São Tomé.
Frequentou a «Escola de Mato» do senhor Duque na zona de Boa Morte, donde era originário, tendo concluído os estudos primários na escola pública da zona. Fez os estudos secundários no Liceu de São Tomé.
Desde muito cedo começou a interessar-se pelos acervos culturais do país, nomeadamente nos meandros da história, no património cultural e nos usos e costumes da população local, uma população que se ergueu sob um mosaico de gentes vindos de vários continentes tais como o europeu, africano e asiático.
Empenhado e abnegado, Caustrino Alcântaratransformou-se num investigador como poucos no arquipélago deSão Tomé e Príncipe.
O valioso contributo do investigador
Na qualidade de investigador colaborou com instituições académicas de prestígio internacional, tais como a Universidade de Lisboa e o Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP).
Trabalhou ainda em pesquisas históricas sobre o massacre de Batepá. Teve um papel determinante no desenvolvimento do Alfabeto Unificado para a escrita da Língua Nativa de São Tomé e Príncipe (ALUSTP).
Participou também no 22.º Encontro Anual da Associação de Crioulos de Base Lexical Portuguesa e Espanhola (ACBLPE) com o tema “As línguas nativas de São Tomé e Príncipe como línguas de herança” em co-autoria com Tjerk Hagemeijer e Beatriz Afonso.
A defesa intransigente de Tchiloli e de São Lourenço
Caustrino Alcântara era originário da zona de Boa Morte, localidade que é considerada o berço do grupo teatral designado “Tragédia Formiguinha da Boa Morte” que o terá levado a desenvolver de uma forma exaustiva a preservação desse emblemático grupo cénico.
Centrado nas suas pesquisas, ele defendeu ao longo da sua vida, como visionário que era, um estudo profundo e exaustivo sobre a preservação das manifestações culturais das ilhas com principal destaque para o Tchiloli e o São Lourenço. Ambas as representações são baseadas no ciclo literário medieval europeu do século XVI sobre o Imperador Carlos Magno e os Doze Pares de França.
O Tchiloli representada na ilha de São Tomé é a designação pela qual é conhecida a Tragédia do Marquês de Mântua e do imperador Carloto Magno, uma peça teatral vinda de Portugal, e cuja autoria é atribuída ao escritor invisual madeirense Baltazar Dias.
Na X Bienal de Artes e Cultura, decorrida em Julho de 2024, Caustrino sugeriu na sua intervenção que fosse feita a institucionalização de uma data para a celebração do Tchiloli na ilha de São Tomé, pois “seria uma grande mais valia para este património”, concluiu.
O valioso contributo dado por Caustrino Alcântara na defesa do Tchiloli culminou com a elevação dessa manifestação cultural a Património Cultural Imaterial da Humanidade, proclamada pela UNESCO em Dezembro de 2025.
O São Lourenço por sua vez é a designação local atribuída ao Auto de Floripes, uma peça teatral outorgada a um autor anónimo e que é considerada uma das principais manifestações culturais da ilha do Príncipe.
Nessa proposição, Alcântara foi assertivo pois entendeu com congruência fazer um paralelismo com o Auto de Floripes que é celebrado religiosamente no dia 15 de Agosto na ilha do Príncipe. Essa celebração, sentenciou Caustrino, “tem produzido ganhos significativos naquela região”.
O investigador e a luta pela sobrevivência
Nos últimos anos da sua vida, Caustrino Alcântara teve um percalço cujo infortúnio o terá levado a enveredar por uma existência que não era de todo compatível com o prestígio que havia granjeado, sobretudo nas instâncias internacionais.
As dificuldades eram muitas, sobretudo na luta diária pela sobrevivência. O investigador confidenciava em surdina às pessoas mais próximas, que a entidade patronal não lhe pagava os honorários a que tinha direito.
Ostracizado e desamparado, Caustrino começou a dar sinais preocupantes de abandono. A luta pela sobrevivência no seu quotidiano entrou numa rota aparentemente sem retorno.
O abismo e o infortúnio apoderaram-se desse investigador cultural são-tomense causados pela falta de consciência de quem de direito.
E assim ficou oculto na calada emudecida da noite, e escancarado na estreita e sorumbática mente dos iluminados de uma pátria onde a esmagadora maioria dos dirigentes parecem lidar mal com a meritocracia.
A fuga na bebida surgia cada vez mais como o caminho inevitável para a resolução dos problemas de ordem financeira, social e cultural que acossavam o brilhante investigador.
No decorrer dos dias, semanas, meses e anos, o peso da culpa, da vergonha e do descaramento incrustados nos corredores das instituições e das pessoas que procuravam com apego os conhecimentos do investigador Caustrino Alcântara sentenciou inexoravelmente o seu destino.
Relegado para a área marginal da indiferença, Caustrino Alcântara não aguentou a pressão gerada pelo desprezo e pela exclusão a que tinha sido votado, segundo opiniões dispersas manifestamente deliberada.
Parafraseando o músico e compositor são-tomense Aidé Índia (1935-1981) “Home na ka fé home mali pundá sôtxi fá” (não se deve vingar de ninguém quando o infortúnio bate à porta de outrem), as instituições e os detentores do poder que um dia bajularam a capacidade de argumentação e os conhecimentos académicos e culturais do Caustrino ficaram emudecidos. Ninguém deu a cara.
Falecimento no anonimato das trevas
O compatriota Caustrino Leal de Jesus Alcântara, um investigador brilhante que se empenhou na busca de raízes das línguas nacionais e da história de São Tomé e Príncipe, faleceu numa sexta-feira 10 de Julho de 2026, como um indigente, num anonimato cuja inércia faz lembrar o espartilho da feira das vaidades do cinismo, e sepultado num caixão feito de madeira de ocá.
A consideração e o elogio final
«Meu caro Caustrino Alcântara.
Não tive a oportunidade de assistir ao teu funeral.
Contudo, tenho a dizer-te que foste para mim um homem do dever e com elevado sentido de responsabilidade. Encaraste a vida com uma incomensurável devoção e não como se ela fosse uma sucessão de direitos e de interesses pessoais.
A meritocracia, a seriedade e o respeito pelas regras sociais faziam aparentemente parte da tua maneira de estar.
Considerava-te um homem de virtudes. Via-te como um cidadão que aceitava a existência de valores superiores a ti próprio e que encarava o Estado com interrogações, esse nosso Estado que festejou no dia 12 de Julho, o 51º aniversário da sua existência e cuja máquina administrativa avassaladora nos apoquenta a todos e que sorrateiramente nos deixa entregues à nossa sorte.
Tu parecias ter sempre uma resposta satisfatória para essa inquietação – paravas, respiravas fundo e dedicavas-te com serenidade ao bem comum dos teus compatriotas.
Para ti, os direitos e os deveres dos cidadãos tinham um propósito funcional que justificavam o cabal cumprimento do dever Moral.
Muito obrigado.»
Pelo que fez pelo país e pelos cidadãos seus compatriotas, gostaria de propor que conste no epitáfio de Caustrino Leal de Jesus Alcântara um singelo e merecido,
“ATÉ BREVE (antê djá sé), mina malé.”
LÚCIO NETO AMADO

Nota: O autor do texto não subscreve o Acordo Ortográfico de 1990