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Adeus Eusébio da Silva Ferreira «Pantera Negra»!

Eusébio nasceu em Lourenço Marques, capital colonial portuguesa do Índico, Moçambique, no Bairro de Mafalala, no dia 25 de Janeiro de 1942. Dentro de dias completaria aos 72 anos de idade.

Como todas as histórias cruzadas de futebolistas africanos, Eusébio, jogava de pés descalços e com bolas de trapos. A sua história futebolística começa com a sua tentativa de inscrever-se no clube “O Desportivo” de Lourenço Marques. Não foi aceite por apresentar uma lesão no joelho.

A veia de jogar futebol consta de que traiu ao clube do coração, inscrevendo no Sporting Lourenço Marques, filial moçambicana do Sporting Club de Portugal. Representou o clube leonino até à sua ida com 17 anos para Portugal em representação do Benfica. A transferência ficou marcada por controvérsias em Portugal, tendo em conta a luta dos dois rivais de Lisboa para assegurar ao passe do menino africano.

Recorda testemunhos da época que o Benfica tinha tudo acordado com o Sporting Lourenço Marques, actual Maputo. Todavia, os responsáveis sportinguistas, conhecedores da promessa evidenciada do atleta, foram buscá-lo ao Aeroporto, encaminhando-o para um hotel. Tudo aconteceu no dia 15 de Dezembro de 1960, data que o menino pisou a metrópole. Nem com o assalto a jovem promessa, o Sporting conseguiu a inscrição de Eusébio que já teria assinado pelas águias através de um funcionário que fez a sua transferência para Sport Lisboa e Benfica.

Consta que a novela de Eusébio para Lisboa foi ao ponto dele ser colocado no avião com o nome falso de “Ruth Malosso”. O funcionário metido na transferência avisou de seguida ao Sporting que o jovem africano tinha viajado de barco para Lisboa, o transporte da altura de ligação entre a metrópole e as suas ex-colónias.

Vencedor da guerra, o Benfica estreia Eusébio no antigo Estádio da Luz no dia 23 de Maio de 1961 num amigável contra o Atlético. Marcou três dos quatro golos ao favor do SLB. No mesmo ano, no dia 8 de Outubro, Eusébio vestiu pela primeira vez a camisola nacional portuguesa.

Ainda na primeira época de vermelho ao peito, Eusébio ajudou o Benfica a trazer para a sua galeria o seu último troféu europeu, a sua segunda Taça dos Campeões Europeus em dois anos consecutivos. Foi o fim da hegemonia do monstruoso Real Madrid de cinco títulos seguidos de 1955/60.

O selo internacional de Eusébio aconteceu nesse jogo, em 1962, na segunda final europeia do Benfica. Marcou dois golos com uma exibição de luxo com a sua força, a sua velocidade e os seus chutos fortíssimos de temer aos guarda-redes adversários. Estava a vista uma pérola negra, tendo a France Footbal considerada Eusébio, o segundo melhor jogador do mundo nesse ano de 1962.

Começa nessa altura os assédios estrangeiros, o que força ao governo de Salazar na sua trilogia FFF (Fátima, Fado e Futebol) a enviar Eusébio para tropa, não permitindo a venda do “ouro” que ganhava apenas trezentos contos. O Juventus, em 1964, ofereceu-lhe um salário de 16000 contos, o que motivou ao Benfica a elevar a sua renda mensal para 4000 contos.

Com a camisola da selecção portuguesa no mundial de 1966 em Inglaterra, Eusébio marcou o seu território no mundo de milhões do futebol arrebatando a rivalidade com o Rei Pelé do Brasil, não muito diferente, pelas características dos dois jogadores ao que acontece na actualidade com o Ronaldo e o argentino Leonel Messi.

O melhor marcador do mundial de Inglaterra com nove golos conseguiu o terceiro lugar de Portugal, o que permitiu ao baptismo de “Pantera Negra”, o menino de Moçambique batalhador, talentoso, cativante e humilde a correr o mundo. Marcou 41 golos com a camisola portuguesa.

A montra de miúdo Eusébio nesse mundial nas terras de Sua Realeza trouxe de volta os italianos na perseguição, subindo a oferta ao Eusébio para 90000 contos. Quando tudo parecia consumado que nem o governo tinha mãos para assegurar a transferência, as notícias da época deram a saber que os clubes italianos deixaram de poder contratar jogadores estrangeiros.

Nos quinze anos de Benfica ao peito, Eusébio, ganhou onze Campeonatos Nacionais 1960/61, 1962/63, 1963/64, 1964/65, 1966/67, 1967/68, 1968/69, 1970/71, 1971/72, 1972/73 e 1974/75, cinco Taças de Portugal: 1961/62, 1963/64, 1968/69, 1969/70 e 1971/72, uma Taça dos Campeões Europeus 1961/62 e ajudou a alcançar mais três finais da Taça dos Campeões Europeus 1962/63, 1964/65 e 1967/68.

Foi o maior marcador da Taça dos Campeões Europeus em 1965, 1966 e 1968. Ganhou ainda a Bola de Prata sete vezes (recorde nacional) em 1964, 1965, 1966, 1967, 1968, 1970 e 1973. Eusébio foi o primeiro jogador português a ganhar a Bota de Ouro, em 1968, proeza que repetiu em 1973.

Em Setembro de 1973, o SLB fez a festa de despedida de Eusébio, mas o Pantera Negra continuou a jogar até 1979.

É de recordar que na sua carreira futebolística, Eusébio foi operado seis vezes ao joelho esquerdo e uma vez ao direito, o que nunca lhe retirou do campo ao serviço do Benfica e da selecção nacional e sobretudo o seu fair-play de jogador.

O seu último jogo com a camisa do Benfica foi no dia 18 de Junho de 1975, em Marrocos frente à selecção africana, em Casablanca.

No final da carreira e com a lesão nos joelhos a ressentir, Eusébio ainda representou clubes estrangeiros até 1979.

“Pantera Negra” o Rei dos portugueses, marcou 733 golos em 745 jogos oficiais na sua carreira e tornou-se embaixador e símbolo de Portugal e de Moçambique.

Esta madrugada, o coração de Eusébio que por motivos da débil saúde, nos últimos tempos, não vinha sendo visto na Catedral do SLB, parou, vítima de insuficiência cardíaca.

Eusébio da Silva Ferreira, o maior jogador de todos os tempos, morreu esta madrugada pelas 4h30, em sua casa, Lisboa. O corpo do malogrado deve estar em câmara ardente a partir desta tarde no estádio da Luz em Lisboa para os admiradores, sem cores clubísticas, velarem a dor familiar também sentida pelos milhares de benfiquistas e, não só, em São Tomé e Príncipe.

O Governo português decretou três dias de luto nacional em memória a “Pantera negra” que viajou o orgulho de Portugal, de Moçambique e da lusofonia pelos cantos do mundo.

Eterna consternação ao Eusébio da Silva Ferreira!

José Maria Cardoso

05.01.2014

    2 comentários

2 comentários

  1. Sweetzer Batista

    6 de Janeiro de 2014 as 14:49

    Descanse em paz eterno Pantera Negra||
    Ícone do Benfica, futebol português em particular e mundial em geral!!

  2. Eu também sou filho da terra

    7 de Janeiro de 2014 as 1:51

    Mandela e Eusébio são duas figuras mundiais incontestáveis. O mundo chorar-lhes-á para sempre.

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