Gerir uma pescaria sem dados completos é tomar decisões às escuras: sabe-se que os peixes existem, mas não o estado real dos stocks nem a sua sustentabilidade. É precisamente para responder a este desafio que a FAO, no âmbito do programa FISH4ACP, promoveu uma formação intensiva de oito (8) dias destinada aos técnicos da Direção das Pescas e Aquacultura (DPA) de São Tomé e Príncipe, dedicada à avaliação científica dos recursos pesqueiros em contextos de dados limitados.
A formação decorreu entre 14 e 22 de maio em São Tomé e foi conduzida por Jeremy Mendoza, Oceanógrafo Biológico especializado em pescarias e consultor da FAO, com dois anos de trabalho contínuo com a equipa técnica de São Tomé e Príncipe.

Pescar com ciência, não com intuição
A questão central que esta formação procurou responder foi simples mas vital: o arquipélago está a pescar de forma sustentável? Há espaço para aumentar as capturas, ou é necessário travar o esforço de pesca para proteger os stocks?
Ao longo dos oito dias, os técnicos da DPA trabalharam com espécies como o voador, o maspombo e o bonito, pequenos peixes pelágicos explorados pela pesca artesanal são-tomense e fundamentais para a dieta e economia das comunidades piscatórias. Utilizando ferramentas como o Excel e o R, os participantes analisaram dados de captura e frequências de comprimento para avaliar parâmetros como crescimento, mortalidade e potencial de desova. No caso dos tunídeos menores presentes nas águas são-tomenses, a abordagem foi diferente: por serem geridos por uma organização internacional da qual São Tomé e Príncipe é membro, a sua avaliação teve de ser feita à escala do Atlântico Sudeste, e não apenas ao nível do país.

Conhecimento local, decisões melhores
O impacto desta formação foi além da sala de aula. Ao capacitar os próprios técnicos da DPA, as pessoas que trabalham diariamente com os dados das pescas de São Tomé e Príncipe, o FISH4ACP investiu numa competência que permanece no arquipélago muito depois do fim do programa.
“O objectivo principal foi perceber qual o estado actual dos stocks de pequenos pelágicos explorados pela pesca artesanal de São Tomé e Príncipe, se havia potencial para aumentar as capturas, ou se pelo contrário era necessário reduzi-las”, sublinhou Jeremy Mendoza.
A perspectiva dos próprios técnicos reforçou a importância da iniciativa. Miriam Gomes Cravid, técnica da DPA, lembrou que a última avaliação dos recursos pesqueiros de São Tomé e Príncipe datava de 1984, realizada por investigadores russos. Desde então, sem barcos de investigação próprios, os técnicos dependeram dos dados de captura para monitorizar os stocks.
“Esta formação deu-nos as ferramentas para determinar a mortalidade das espécies, tanto pela pesca como por causas naturais, e o tamanho mínimo para traçarmos políticas de gestão pesqueira. Trabalhavamos sempre com o Excel, mas o consultor trouxe-nos o R para aprofundar essa análise.” afirmou Cravid.
Sobre o FISH4ACP
O programa FISH4ACP é uma iniciativa da Organização dos Estados de África, Caraíbas e Pacífico (OEACP), implementada pela FAO com financiamento da União Europeia e do Ministério Federal Alemão para a Cooperação Económica e Desenvolvimento. Em São Tomé e Príncipe, o programa apoia a cadeia de valor dos peixes pelágicos costeiros, com foco na melhoria das condições de vida dos pescadores e palaiês e no reforço da governação do sector pesqueiro.
FONTE : FAO