A política externa da Rússia em relação a guerra no Afeganistão protagonizada pela Organização do Tratado Atlântico Norte, encabeçada pelos Estados Unidos contra os Talibãs, é um dos temas do diário informativo enviado de Moscovo por Filipe Samba.
DIÁRIO INFORMATIVO
Fonte: RIA – NOVOSTI
SUMÁRIO:
- Presidente da Federação Russa e primeiro-ministro do Japão irão encontrar-se no quadro da cimeira da APEC
- Rússia não tem tarefas que exijam presença militar no Afeganistão
- Nesterenko: visita de Lavrov ao Quénia e à Nigéria reforçará relações da Rússia com a África
· Será que a Rússia vai ajudar a NATO no Afeganistão?
Presidente da Federação Russa e primeiro-ministro do Japão irão encontrar-se no quadro da cimeira da APEC
Seul, 12 de Novembro – RIA Novosti.
A secretária de imprensa do presidente da FR, Natalia Timakova, confirmou que no quadro da cimeira da APEC entre 13 e 14 de Novembro em Yokohama está previsto um encontro entre o presidente da Rússia, Dmitry Medvedev, e o primeiro-ministro do Japão, Naoto Kan. No encontro, nas suas palavras, serão discutidos problemas do desenvolvimento das relações bilaterais.
“Em tais encontros, a parte japonesa levanta tradicionalmente a questão das ilhas Curilhas. A posição da Rússia em relação a este problema é inalterável”, destacou a secretária de imprensa.
A 1 de Novembro, Dmitry Medvedev visitou Kunashir, uma das ilhas Curilhas, que Tóquio considera seu território. Os políticos japoneses reagiram dolorosamente a esta visita, mas o MNE da Rússia declarou o presidente da FR “define independentemente o itinerário das visitas pelo território do seu país” e que “quaisquer conselhos externos a este respeito são descabidos e inaceitáveis”. O Japão retirou provisoriamente o seu embaixador em Moscovo para consultas, mas o diplomata já regressou para a Rússia.
Rússia não tem tarefas que exijam presença militar no Afeganistão
Moscovo, 12 de Novembro – RIA Novosti.
A Rússia não tem razões para introduzir tropas no Afeganistão não apenas por força da “memória histórica”, mas também porque é possível garantir os interesses da sua própria segurança “à distância”, sem presença de não apenas tropas russas, mas também estrangeiras no território afegão, declarou quinta-feira o professor da Universidade Militar do Ministério da Defesa da FR, Oleg Kulakov.
No fim de Outubro, alguns meios de comunicação social estrangeiros informaram que a participação da Rússia na campanha afegã estaria a ser discutida activamente na véspera da próxima cimeira da NATO, em que se espera a presença de uma delegação russa. O representante da FR na aliança, Dmitry Rogozin, declarou que estes dados não correspondem à realidade.
“Ainda há alguns anos esta questão não suscitava dúvidas. Quanto à minha posição que sempre defendi, considero que não se pode introduzir tropas por várias causas. A primeira causa é emocional: já temos uma experiência a este respeito. Na sociedade formou-se uma determinada atitude em relação a esta questão”, disse Kulakov ao intervir numa “mesa redonda” dedicada ao tema: “Afeganistão: possibilidades de cooperação entre Rússia e Estados Unidos”.
Nas palavras do perito, de um ponto de vista genérico, a utilização de um contingente militar fora do território da Rússia poderá acontecer, se “tal estiver de acordo com os interesses do nosso país e, naturalmente, este instrumento deve ser aplicado, se houver necessidade”.
“Quanto ao Afeganistão, a meu ver, por enquanto não devemos utilizar este instrumento por razões puramente práticas. Primeiro, estamos muito longe daquele país. Actualmente não temos fronteiras comuns, por isso, se tal acontecer, surgirá imediatamente o problema do abastecimento técnico que é o principal em todas as circunstâncias”, apontou Kulakov.
“Sofremos quase um terço das nossas perdas no Afeganistão na execução das tarefas de abastecimento do nosso contingente. Este é um número inadmissível para as acções militares. Destaque-se que hoje a coligação, levando em consideração os nossos erros, sofre perdas menores no abastecimento da retaguarda do que as nossas, mas para nós foram perdas muito sensíveis… esta é uma questão puramente técnica”, adiantou.
Kulakov não vê tarefas que possam exigir a presença de tropas russas no Afeganistão.
“Pergunte-se: que tarefas terá o nosso contingente no Afeganistão? Para que temos de introduzi-lo? Como se sabe, as tarefas de garantir os interesses e a segurança do nosso país, inclusive na luta contra o narcotráfico, podem ser resolvidas sem a presença das nossas tropas. Estas tarefas podem ser cumpridas sem a presença tanto do nosso contingente militar, como do estrangeiro”, destacou o perito.
Nas operações no território do Afeganistão participam um contingente multinacional da coligação antiterrorista, dirigido por representantes das Forças Armadas dos EUA, assim como um contingente das Forças de Assistência a Segurança Internacional (ISAF, na sigla em inglês), lideradas pela NATO.
Os dois contingentes têm por missão procurar e eliminar os extremistas dos movimentos fundamentalistas islâmicos Talibã e Al Qaeda.
Nesterenko: visita de Lavrov ao Quénia e à Nigéria reforçará relações da Rússia com a África
Moscovo, 12 de Novembro – RIA Novosti.
O porta-voz do MNE da Rússia, Andrey Nesterenko, falou à RIA Novosti sobre o programa e os objectivos das próximas visitas do ministro dos Negócios Estrangeiros da FR, Serguey Lavrov, ao Quénia e à Nigéria.
– A 16 e a 17 de Novembro, terão lugar as visitas do ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Serguey Lavrov, ao Quénia e à Nigéria. Quais são o programa e o objectivo da visita do ministro àqueles países?
– O programa da visita prevê encontros de Serguey Lavrov com os presidentes do Quénia e da Nigéria, Mwai Kibaki e Goodluc Jonathan, assim como conversações com os chefes dos departamentos para a política externa destes países.
A visita do ministro russo ao Quénia será a primeira na história das relações, visando contribuir para o alargamento da cooperação em diferentes ramos e o reforço da interacção na política externa. No quadro das conversações as partes irão trocar opiniões sobre os problemas internacionais da actualidade, expor as suas posições em relação às tendências contemporâneas do desenvolvimento da situação no mundo, aos problemas da contraposição aos desafios e ameaças globais, inclusive tais como a luta contra o terrorismo internacional e a pirataria na costa leste da África. Será analisada a situação no Corno Africano, inclusive no contesto da busca de vias de solução de conflitos.
As partes discutirão o estado e as perspectivas das relações económico-comerciais e a possibilidade de lhes conferir uma dinâmica adicional. Está prevista a assinatura de documentos bilaterais.
Estão previstas uma visita do ministro russo ao Centro da ONU em Nairobi e um encontro com o dirigente do Centro e director executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP), Achim Steiner.
A visita do ministro dos Negócios Estrangeiros russo à Nigéria tem por objectivo fixar a dinâmica estável de desenvolvimento das relações russo-nigerianas, que alcançaram um novo nível qualitativo após a visita do presidente da Federação Russa, Dmitry Medvedev, a Abuja em Junho de 2009. No quadro das conversações com o presidente e o ministro dos Negócios Estrangeiros da Nigéria está previsto discutir o estado das relações bilaterais, avaliar a realização dos entendimentos alcançados e definir as perspectivas do desenvolvimento da base jurídico-contratual.
EM FOCO NA IMPRENSA RUSSA
12 de Novembro de 2010
Será que a Rússia vai ajudar a NATO no Afeganistão?
Andréi Fediachin, RIA Novosti
As relações Rússia-NATO estão prestes a ter um avanço significativo. Em vésperas da cimeira da NATO, que se realizará de 19 a 20 de Novembro em Lisboa, a Rússia e a NATO estão a desenvolver uma actividade diplomática e militar sem precedentes. Tomando em conta o arrefecimento provocado pela guerra entre a Rússia e a Geórgia em 2008, poderemos falar de um restart ainda mais importante que o das relações com os EUA. Em parte, isso deve-se ao facto de o presidente russo participar na cimeira, durante a qual intervirá na sessão do Conselho Rússia-NATO e terá uma reunião de duas horas com o presidente dos EUA Barack Obama, outra com o secretário-geral da NATO, Anders Fogh Rasmussen, e ainda mais algumas com os líderes dos principais países-membros da NATO.
Actividade frenética
As negociações de alto nível já começaram em Setembro, quando o ministro da Defesa russo, Anatoli Serdiukov, fez uma visita ao Pentágono para se avistar com o secretário da Defesa dos EUA, Robert Gates. Os contactos Rússia-NATO continuaram a 1 e 2 de Novembro com a chegada a Moscovo do comandante supremo aliado na Europa, James Stavridis, que manteve encontros com o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Serguei Lavrov, o ministro da Defesa, Anatoli Serdiukov e o chefe do Estado-Maior da Rússia, Nikolai Makárov.
Depois, a delegação da NATO visitou a EMERCOM, o Conselho de Segurança, o comando do Distrito Militar Oriental e vários centros de formação militar russos. Para além disso, Lavrov e o seu homólogo alemão, Guido Westerwelle, analisaram as relações Rússia-NATO. É ainda significativo o facto de a chegada a Moscovo do secretário-geral da NATO, Anders Fogh Rasmussen, ter sido antecipada de 5 para 2 de Novembro.
A 3 de Novembro Fogh Rasmussen reuniu-se com o presidente Dmitry Medvedev e o ministro dos Negócios Estrangeiros russo para preparar a cimeira de Lisboa.
O que é que a NATO quer da Rússia?
Está claro que, desta vez, não se trata de uma visita formal. A Rússia e a NATO prevêem assinar durante a cimeira (ou pouco tempo depois, se as partes não tiverem tempo para preparar e acordar todos os documentos necessários) uma série de acordos sobre a cooperação em diferentes âmbitos:
- Apoio logístico à NATO no que se refere ao transporte de cargas, incluindo militares, para o Afeganistão através de território russo, tanto por via aérea, como ferroviária e rodoviária.
- Fornecimento de helicópteros russos ao Afeganistão.
- Formação de pilotos, militares e pessoal das forças especiais, unidades anti-droga e anti-terrorismo nos centros de instrução russos.
- Provavelmente, a participação da Rússia no sistema de defesa anti-mísseis da NATO.
Ainda que a ideia de participação russa no sistema de defesa da NATO pareça estranha, a probabilidade de tal acontecer é alta. Após reunir-se com James Stavridis, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Serguei Lavrov, afirmou que a Rússia e a NATO têm certas ideias a respeito de um sistema de defesa anti-mísseis comum. Não obstante, a Rússia necessita de ter uma proposta mais concreta e de ver como o sistema de defesa anti-mísseis comum encaixa com o escudo anti-mísseis de Obama que, sendo diferente do anterior projecto de George Bush, não é tão inofensivo para a Rússia como os norte-americanos o pretendem apresentar.
Quanto aos helicópteros, as negociações duram há mais de um ano. As tropas polacas da ISAF já há algum tempo que utilizam quatro helicópteros russos no Afeganistão e está provado que são mais resistentes e adaptados às condições do país do que os aparelhos da NATO. Agora trata-se de fornecer cerca de 20 helicópteros, incluindo aparelhos Mi-17, ao Exército afegão.
Quais as razões da aproximação da NATO à Rússia?
O Afeganistão está à beira de mudanças da maior importância, mudanças que serão impossíveis de realizar sem a Rússia, como reconhecem tanto a NATO, como os EUA, embora não oficialmente.
A cimeira de Lisboa levará em conta a Declaração de Cooperação entre a NATO e o Governo de Hamid Karzai depois de 2014-2015, que preconiza a retirada das tropas da NATO do Afeganistão e a entrega do controlo da segurança ao Exército, Polícia e forças especiais afegãs.
Não obstante, fica claro que até esta data a NATO não conseguirá nem ganhar a guerra contra os talibãs, nem fazer a paz com eles, nem garantir a segurança.
Para escapar ao fracasso do Afeganistão, a NATO precisa da Rússia.
A Rússia é capaz de organizar a formação de soldados afegãos e de lhes fornecer equipamentos, prestar ajuda na luta contra o tráfico de droga e conceder à NATO um corredor de trânsito a partir dos portos do Mar Báltico até ao Cazaquistão, Quirguistão e Tajiquistão, de forma a completar o corredor do Paquistão, que já é insuficiente para a logística da NATO. Mas, de momento….
“Os russos poderiam complicar-nos muito a vida no Afeganistão, mas não o fazem” – comenta um diplomata da NATO. Agora, a Aliança Atlântica procura que a Rússia passe da ajuda passiva à ajuda activa.
Condenados a cooperar
A NATO sublinha que não se trata de enviar tropas ou instrutores russos para o Afeganistão. As recordações da guerra soviética no Afeganistão ainda permanecem na memória dos russos e uma decisão nesse sentido levaria a consequências políticas graves tanto para Medvedev como para Putin. Não obstante, mesmo uma cooperação indirecta complicará muito a situação nas regiões sul da Rússia. A participação de Moscovo na formação das tropas de Karzai, na organização de um corredor logístico na NATO e em operações conjuntas anti-droga converterá a Rússia em mais um alvo para os talibãs e a Al-Qaeda.
Tomando em conta o volume de heroína que se produz no Afeganistão e a quase inexistência de controlo das fronteiras entre a Rússia e os países meridionais seus vizinhos, Moscovo não tem outra opção.
Se a NATO sair do Afeganistão sem deixar alguém que a substitua, a Rússia terá a seu lado uma zona cheia de droga e de material bélico sem qualquer controlo. Em troca de fazer parte da “solução” afegã, a Rússia poderá pedir à NATO que reduza as suas tropas nos países da Europa de Leste, que deixe em paz a questão da Abkhásia e da Ossétia do Sul (o que é muito provável) e que comece a destruir as plantações de papoila no Afeganistão, deixando no entanto bem claro que não enviará os seus soldados para o Afeganistão para serem carne de canhão.