Cultura

A “Tragédia Formiguinha da Boa Morte”

            O Nózadu, a Bisca 61, o Bligá, a Novena, o Quiná, o Págá Dêvê…

            A paisagem cultural São-tomense está povoada de manifestações populares e tradicionais entre as quais se encontram o Socopé, a Ússua, o Vindes Menino, a Sóia, o Tlundu, o São Lourenço, o Txilôli, a Xtleva, a Dêxa, o Pasu Fia Glêza, o Sete Passu, o Pló Mon Dêsu, o Bókadu, além das festas religiosas, que germinam em todos os distritos do país recriam a alma do povo e geram momentos de convívio, de alegria, congregam em momentos de tristeza, provocam gargalhadas e espanto ao deixar transparecer os meandros, às vezes malandros do nosso quotidiano.

            E o São-tomense, grosso modo, se encontra e se revê no que se lhe oferece do que é seu e de mais ninguém. Assim pelo menos deveria ser, num percurso em que as gerações se cruzam, se encontram sem desfazer o que é bom do «Kwa ku non bili wê kontlá».

Foto cedida por um elemento da Tragédia Formiguinha

            A esse propósito, ocorre-me recordar e com um misto de alegria e comiseração que se comemora hoje, dia 27 de Janeiro, o 71º aniversário da fundação do grupo cultural e teatral designado, “Tragédia Formiguinha da Boa Morte”.

A iniciativa de formação desse grupo cénico partiu de quatro irmãos, nomeadamente, Manuel Alves de Carvalho, João Manuel Alves de Carvalho, Simão Alves de Carvalho, Manuel dos Ramos Alves de Carvalho e Manuel Madre de Deus Alves de Carvalho, vulgo «Aladino», que chamaram para presidir o grupo, Artur Meneses de Pinho. Estávamos no ano de 1953. A experiência, a capacidade de organização e o sentido de responsabilidade do grupo contribuíram para o engrandecimento do panorama cultural e identitário do arquipélago.

Este grupo teatral, originário da zona de Boa Morte, um subúrbio da cidade-capital, marcou uma época – entre os anos 50 e 70 do século XX – devido à forma como actuava e ao desempenho sublime dos seus actores que revelaram possuir uma performance semelhante à dos profissionais consagrados na arte de bem representar.

Com base na peça designada “Tragédia do Marquês de Mântua e do Imperador Carloto Magno”, atribuída a um autor português, nascido na ilha da Madeira, e cuja representação teatral éconhecida localmente como «Txilôli», o grupo Formiguinha passou a ter protagonismo em relação aos demais, na Província de São Tomé e Príncipe, sendo por isso chamado a representar sempre que as ilhas eram visitadas por entidades oficiais da metrópole e do estrangeiro.

A razão desse destaque reside no facto de ser o grupo de «Tchiloli» que mais inovação trouxe para a representação. Com efeito, introduziramna Corte, por sugestão do presidente, Artur Meneses Pinho,a máquina de escrever e a figura de advogado, insinuando, provavelmente,a busca incessante de justiça,solicitadapelo assassinato de Valdevinos.

Foto cedida por um elemento da Tragédia Formiguinha

Dada a seriedade e a nobreza com que os seus membros actuavam nos espaços da representação da Tragédia do Marquês de Mântua e do Imperador Carloto Magno, o grupo Formiguinha foi compensado pelas autoridades que os levaram além-fronteiras para se exibirem em Portugal, no ano de 1973, acompanhados pelo professor liceal, Álvaro Ferreira da Silva.Estava, assim, em marcha a internacionalização do grupo de Boa Morte.Consta que a iniciativa dessa deslocaçãoterá partido das diligências de Carlos Wallenstein que numa viagem aoarquipélago ficou deslumbrado com uma representação que assistiu, e com a anuência do governador Cecílio Goncalves viajou com o patrocínio da Fundação Calouste Gulbenkian. Seguiram-se outras representações no estrangeiro, salientando-se a exibição feita em Paris em 1990.

Tragédia do Marquez de Mantua de Baltazar Dias (1665)
(In Alberto Figueira Gomes, «Baltasar Dias, o Poeta Cego)
Extraído em 24/01/2024

Acervo histórico

            A Tragédia do Marquês de Mântua e do Imperador Carloto Magnoé uma peça teatral introduzida no arquipélago pelos portugueses em meados do século XVI.

Naquele período, São Tomé atingiu um progresso de monta, ressaltando-se a “introdução de engenhos para a produção de açúcar, no aspecto económico, e no aspecto de vocações selectas, culminou com a fundação, em 1576, do primeiro Seminário da Diocese,uma escola superior de formação eclesiástica, instalada pelos Agostinhos, no Hospício de S.Tiago, no Riboque, não longe da igreja de Nossa Senhora da Conceição, com patrocínio e subsídio régio” (Ambrósio, 1984).

A historiografia portuguesa refere que o textoda Tragédia, inspirado no ciclo carolíngio do século XI, foi produzido, no século XVI, por um madeirense, Baltazar Dias, um dramaturgo invisual que pertenceu à escola de Gil Vicente (c. 1465 – c. 1536).

O investigador António Bárbolo Alves sublinha na sua obra, «Verdadeira Tragédia do Marquês de Mântua e do Imperador Carloto Magno», (2007), que Baltazar Dias, “(…) o «cego da ilha da Madeira», configura-se como um autor onde confluem e de alguma forma se sincretizam alguns aspectos temáticos fundamentais da mundividência medieval: o cavaleiresco e o religioso. A fé na justiça, a honra e o heroísmo são outros vectores temáticos presentes na sua obra e que terão igualmente contribuído para o sucesso do texto e do seu autor”.

Baltazar Dias, conclui o investigador “(…) é quase o único sucessor daqueles cegos jograis que cantavam velhas façanhas. A sua aceitação por parte do povo foi grande, graças, entre outros motivos, à simplicidade da sua linguagem e «por ser homem pobre», que vendia e cantava publicamente os seus pliegos sueltos, revitalizando, deste modo, a imagem antiga do cego músico e cantor”.

Velha polémica à volta do «Txiloli»

            Vários são os autores que põem em causa a data real da introdução e da representação daTragédia do Marquês de Mântua e do Imperador Carloto Magno em São Tomé e Príncipe. Algumas datas avançadas pelos estudiosos aparentam ser meramente especulativas, do ponto de vista histórico.Contudo, é provável que o texto de Baltazar Dias tenha chegado a São Tomé com comediantes viajantes que vieram para a safra da cana-de-açúcar.

O romance sobre o Marquez de Mântua mereceu, entretanto, a atenção de estudiosos como, Fernando Reis (1969), Ribas (1970), Seibert (1991), Valverde (1998), entre outros.

            Depreende-se que o «Txilôli», imortalizado no quadro do pintor São-tomense, Pascoal Viana de Sousa Almeida Viegas Lopes Vilhete,terá começado a ser interpretado pelos nativos, provavelmente no final do século XIX, princípios do século XX, altura em que surge, inspirado pelos padres autóctones, a «Escola de Mato», criada para dar instrução aos indígenas como forma de debelar a iliteracia.

            Através dos conhecimentos adquiridos na referida «Escola de Mato», os nativos ter-se-ão, presumivelmente,apoderado dos textos de Baltazar Dias, e com a ajuda dos frades São-tomenses, feito uma interpretação adaptada ao seu modus vivendi. A aculturação parece ter fornecido instrumentos significativos que contribuíram para o apoderamento pelos nativos do secular romance do dramaturgo madeirense escrito cerca de 1540.

            No início do século XX, nos anos de 1930 a 1960 conseguiu-se um melhor enquadramento dos textos e da representação nativa do Txilôli, com a chegada de jovens filhos da elite nativa que iam estudar para o exterior, nomeadamente no Reino Unido, em Portugal e nos Seminários de Angola. Acresce-se a esse movimento, os esforços de demarcação própria desencadeados por instituições como a Liga dos Interesses Indígenas de São Tomé e Príncipe (1910-1926), o Sporting Clube de São Tomé (1912-1976?), a Associação de Socorros Mútuos da Freguesia da Trindade (surgida em 1933).

            É, também, na esteira desse movimento que na obra“Educação Física e Desporto nas ilhas de São Tomé e Príncipe”, de Amado, (2022), edições Colibri, Lisboa, pp. 31-35, faz-se referência circunstanciada,à criação de associações recreativas e de lazer que proporcionaram o aparecimento de instituições que ajudaram a dar o pontapé de saída a representações teatrais, musicais e outras.

Diligências para a aceitação de Txilôli como Património Mundial

            Está em marcha diligênciasprofícuas para que o Txilôli seja considerado Património Mundial.

            Aolongo da sua história há registos de grupos teatrais vários como a Tragédia de Desejada, no ano de 1935, seguindo-se no ano de 1944 a Tragédia Florentina de Caixão Grande, no ano de 1953 a Tragédia Formiguinha da Boa Morte, no ano de 1956 a Tragédia Santo António Madredense e no ano de 1976 a Tragédia de Cova Barro.

Alguns desses grupos já não têem a mesma pujança de outros tempos, estando alguns em vias de extinção.

Seguramente surgirão outros grupos …

Do que não pode haver dúvidas é que, independentemente da obra que está na sua origem, o Txilôli perfila-se como uma manifestação artística genuína, entrelaçando conteúdo e forma, que fazem a sua autenticidade incrustada na identidade de um povo que reconhece a sua conformação com o seu passado e se orgulha da sua adequação ao seu presente.

            Sendo a aceitação como Património Mundial um processo moroso e delicado, aguarda-seserenamente nas ilhaspelo veredicto da UNESCO em relação ao Txilôli.

Lúcio Neto Amado

Nota: O autor do texto não subscreve o Acordo Ortográfico de 1990

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