Cultura

Minha professora, Maria Alves

Querida Professora


Hoje, o dia nasceu lindo, profundamente claro, como uma dádiva do sol. Para ti. E para nós. Para fixar na nossa memória o luminoso exemplo no sorriso com que atravessaste as nossas vidas.
Suspendi o poema, por imperfeito, inacabado. O poema que deveria ter escrito no íntimo das horas e dos dias partilhados. O poema que irá brotar, naturalmente, botão de flor, riacho doce, ruga inspiradora, súbita canção. O poema que rumorejará sempre que me lembrar de ti. Naturalmente.
Na turma da 2ª classe, na Escola das Madres Canossianas Missionárias, levaste, um dia, o mar à sala de aulas. Quando entregaste as redações corrigidas, a minha foi a última. Havia um ar de triunfo no teu rosto enquanto lias a história que, sobre o mar, eu inventara. ”Isto é outra conversa!”. E eu senti-me feliz, senti-me especial. Senti que as minhas palavras, escritas, me haviam distinguido, singularizado. O maior prémio foi o sorriso nos teus olhos e nos teus lábios ao devolver-me a folha de papel. Do reverso, também jamais me esquecerei. A palavra não era muito comum e o destino, uma após outra, era o quadro preto. Dez falhanços registados, viraste-te para mim e intimaste, a expressão segura de quem havia achado a solução.
– Tu!
E eu falhei. A tua menina de ouro, a que acertava sempre.

Antes mesmo do impacto, pela primeira e única vez, da vara sobre o meu ombro, um fraco impacto, diga-se (a vara era um instrumento complementar no processo ensino-aprendizagem), vi a profunda deceção no fundo dos teus olhos, a desilusão, a mágoa pela traição.
-Nem tu! Vai-te lá sentar!
Ao longo das nossas vidas nunca mais separadas, esse episódio fez-nos sempre sorrir. Muitos anos depois, estava eu na BBC, em Londres, viria a ser matéria para uma crónica publicada no extinto semanário Correio da Semana, intitulada ”Carta para o Afonso Varela entregar.”

Quantas vezes nos rimos! Tu e eu. Tu e nós.

Quanta e constante presença, mesmo quando entre nós se interpunham oceanos!

Resta-nos agora a lembrança da tua voz dentro da sala de aulas, dentro das nossas vidas, no âmago do bondoso e implacável tempo transcorrido. A aspiração ao poema que traduza o amor, o sentido de verdade, de comunhão e de justiça, de solidariedade e de partilha, a festa da congregação em torno da antiga mesa. Tudo o que semeaste nas filhas e filhos que não tendo nascido do teu ventre, foram tuas filhas e teus filhos. A tua profunda experiência, conhecimento da vida e seus enigmas, a tranquila sabedoria. O talento da estilista que contribuiu decisivamente para o ressurgimento dos trajes tradicionais femininos depois da independência. O ativismo social, tua cristã espiritualidade, a discreta, porém, sempre firme defesa das mulheres mais vulneráveis, sobretudo das jovens mães sozinhas.
A sóbria elegância sempre, sempre envergada.

Não se apagará a gravura da beleza do teu rosto, tua intrínseca beleza, teu esguio, alto vulto, o timbre tranquilizador em tua boca, as mãos estendidas para nós, para todos os que te rodearam sempre, porque te amavam. Como tu nos amavas. Como tu nos amaste.

Há menos de um ano, ofereceste-me, da tua coleção, o último livro: ”O Canto do Ossobô”, do nosso fundamental, indomável poeta Marcelo da Veiga, como tu, da ilha do Príncipe. O livro estendido e o sorriso.

Em nós continuará a ressoar a palavra assertiva e ponderada, carinhosa, inda quando severa. E a cuidadosa cesta com o molho no fogo (iguaria da ilha do Príncipe onde nasceste, em cuja confeção eras exímia) e o vermelho vinho. Nos dias de aniversário, depois do infalível telefonema de parabéns às 5 horas da manhã. E a tua inata empatia, aquele dom ou capacidade de sentir, dos outros, a dor, de rejubilar ante as suas alegrias e vitórias.

E sob este céu profundamente claro, dádiva do sol coroando a tua existência, este nosso sentimento misto de perda e de orfandade, de gratidão, tributo e celebração. Momento de separação onde não há lugar para uma eterna despedida.

Conceição Lima

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