Moradores reclamam da falta de emprego, da degradação do património e da escassez de oportunidades, enquanto esperam que a valorização internacional da antiga roça se traduza em melhores condições de vida para a comunidade.
A classificação da Roça Diogo Vaz como Património Mundial pela UNESCO representa um reconhecimento internacional do seu valor histórico e cultural, mas, para os moradores da comunidade, o reconhecimento ainda precisa de se transformar em benefícios concretos no quotidiano.
Localizada na costa norte da ilha de São Tomé, a Roça Diogo Vaz alberga mais de 600 habitantes e carrega consigo uma parte importante da história económica do arquipélago. Durante décadas, foi um importante centro de produção de cacau, actividade que deixou marcas profundas na paisagem, na arquitetura e na própria organização social da comunidade.

Hoje, a produção de cacau orgânico continua a fazer parte da realidade local. No entanto, os moradores dizem que a actividade económica existente não tem sido suficiente para responder às necessidades da população, particularmente dos jovens.
“Actualmente, Diogo Vaz não tem água, há parte de Diogo Vaz que se encontra abandonado, principalmente agricultura”, revelaram os moradores quando acrescentavam que a Roça Diogo Vaz era uma empresa tão bonita que muita gente (pessoas), visitavam devido a sua beleza, mas agora não há mais beleza na ex-empresa Diogo Vaz.
A falta de oportunidades de emprego surge como uma das principais preocupações manifestadas pelos habitantes da Roça Diogo Vaz.
A empresa ligada à marca Diogo Vaz continua a desempenhar um papel importante na economia da localidade e é apontada como o principal empregador da comunidade. Ainda assim, moradores questionam a possibilidade de uma maior transformação local da produção de cacau, de modo a criar mais oportunidades de trabalho para a população residente.
“Se cacau sai daqui e porquê que não fizeram ou construiram uma fabrica mesmo na comunidade”, questionou uma das moradoras quando referia que “tiram esse cacau, esse chocolate tem que ser feito em fábrica na cidade. Empregar jovens da cidade, mesmo os nossos jovens aqui desempregados, é uma tristeza”, lamentou.

A declaração evidencia uma das questões centrais levantadas pela comunidade, como fazer com que a riqueza produzida a partir dos recursos da própria região gere também mais oportunidades para quem vive na Roça Diogo Vaz.
“Antigamente tinham mais atenção para com as pessoas (os moradores de Diogo Vaz), e agora não nos dão esta atenção e parece que nem querem saber da gente, nós aqui votamos e acreditando que o governo venha fazer o melhor para os moradores locais, mas assim que assumem o poder não quer saber da gente”, declarou uma das moradoras entretecida com a actual situação.
A importância histórica da Roça Diogo Vaz não se limita à produção de cacau. O antigo complexo conserva um património arquitetónico que testemunha o passado agrícola e económico de São Tomé e Príncipe. Porém, parte desse património encontra-se degradada, segundo os moradores. É neste ponto que a classificação pela UNESCO ganha particular importância.
O reconhecimento internacional poderá abrir novas perspetivas para a preservação do património e para o desenvolvimento de iniciativas ligadas ao turismo cultural. Mas, para os habitantes, a valorização dos edifícios e da história da roça não pode ser dissociada das condições sociais e económicas de quem vive no local.

A classificação como Património Mundial pode representar uma oportunidade para reforçar a preservação da Roça Diogo Vaz e promover novas atividades económicas. Mas o reconhecimento, por si só, não resolve os problemas existentes.
Para a comunidade, a expectativa é que a nova atenção dada à roça possa contribuir para criar emprego, dinamizar o turismo, a economia local e melhorar as condições de vida.
Um dos moradores resume essa expectativa numa frase, “isso seria uma mais valia também para nós que estamos aqui.”
A declaração traduz uma preocupação que vai além da preservação física do património, quem vive no património também espera beneficiar da sua valorização.

A Roça Diogo Vaz encontra-se, assim, diante de um desafio particular, preservar a memória de um dos mais importantes espaços ligados à história do cacau em São Tomé e Príncipe e, simultaneamente, criar condições para que a comunidade que ali vive tenha perspetivas de futuro.
O reconhecimento internacional coloca a roça sob uma nova luz, mas também aumenta a responsabilidade das instituições e dos diferentes intervenientes na preservação desse património.
Para os moradores, a verdadeira valorização da Roça Diogo Vaz não deverá limitar-se à recuperação dos seus edifícios ou à promoção turística do espaço.
Waley Quaresma