Patrimônio nacional, ruínas e sucata:
O desvanecimento dos elementos físicos da memória histórica em São Tomé e Príncipe
geógrafo
Os meios de comunicação são-tomenses, as redes sociais e alguns foros acadêmicos especializados estão a denunciar constantemente o avançado estado de degradação (e mesmo a perda) do patrimônio nacional. Paralelamente, os discursos de responsáveis políticos e de expertos consultores estão a sublimar a necessidade de desenvolver o setor turístico utilizando esse ingente patrimônio como elemento diferenciador da oferta.
E, efetivamente, não são poucas as propostas alternativas às atividades de resort que aproveitam a cultura de plantação para oferecer excursões guiadas nas antigas roças ou percursos pelo mato humanizado, ou mesmo ultimamente pelos próprios espaços urbanos, que são especialmente agradecidas pelos visitantes estrangeiros, ávidos de adicionar mais alguma coisa que banhar-se na praia ou tomar o sol ou agüentar aborrecidos entretenimentos de salão (coisas para as quais não é preciso deslocar-se a um destino tão caro como São Tomé).

Há uns anos (2014) nos surpreendeu a todos o desmoronamento do pavilhão esquerdo do monumental Hospital de Agostinho Neto (antiga roça Rio d’Ouro), um dos mais famosos emblemas que foi do país, cuja imagem icônica foi largamente reproduzida em postais e guias turísticas, mesmo nos bilhetes de banco. E mais ainda nos surpreende que depois desse tempo e de um vácuo lero-lero, o edifício continue mal ou pior, sem nenhuma reconstrução, nem também não nenhuma intenção real de fazê-la.
No passado março de 2018, o artista e prezado amigo René Tavares, na sua conta de Facebook, influente, se somava ao espanto, também pontualmente noticiado por Tela-Nón, da queda do edifício da roça Amparo II (magnífico exemplo de arquitetura colonial francesa com toques de barroquismo português nas ornamentações exteriores), que há anos, depois de ser sede de diferentes programas de desenvolvimento e outras atividades de ajuda social, tinha sido concedida à Ordem dos Advogados, para depois ser devolvida [2]. Não sentem imensa vergonha os seus concessionários e os responsáveis do patrimônio do Estado por ter possibilitado, já seja por omissão, a aceleração do processo de degradação e queda final do que foi um edifício único no país?
Mas, as suas Excelências: qual vai ser o próximo casarão em cair? Talvez o de Boa Entrada, de Porto Alegre, de Vista Alegre, de Plancas, de Praia das Conchas ou de Uba-Budo, ou mesmo insignes edifícios no centro da Cidade de São Tomé… se vão juntar à perda quase irreversível do Hospital de Ribeira Peixe, do Hospital de Água Izé ou de tantos outros edifícios históricos ruídos dos quais já nem apenas se intui a sua silhueta no chão?
Mais ainda: agora nos chegam comentários preocupantes sobre a degradação das estruturas dos dois imponentes aviões Lockheed L1049H SuperConstellation (“Connies”) que ficam junto ao aeroporto de São Tomé, os que durante tempo se conservaram pela direção do restaurante “As Asas do Avião”, e que constituem o último vestígio da ponte aérea de ajuda humanitária ao Biafra, esforço titânico que empreenderam um punhado de ONGs internacionais no fim dos anos 60, e que emergiam, de fato, como um monumento de memória histórica daquele período, no qual São Tomé teve um papel crucial [3]; mas também de reconhecimento, com a sua preservação, a tantos e tantos outros atos de ajuda humanitária no mundo.


De fato, a perda desse patrimônio também seria um grave atentado contra a economia nacional: sabe alguém verdadeiramente qual é o seu valor, não apenas em termos monetários (que vai perdendo ano após ano com o abandono e o vandalismo ao que estão submetidos), senão em incomensurabilidade de serem elementos físicos de uma cultura e da paisagem e, por tanto, atrativos diferenciais de um país? Que outro país do mundo tem esse patrimônio e o dilapida dessa maneira? Que governantes se desentendem de manter as heranças da história? Talvez talibãs ou membros do DAESH derribando Budas ou dinamitando complexos arqueológicos inteiros? Os efeitos são os mesmos.

Com tudo, o pior de todo isso, dessa desídia e insensibilidade, dessa falta de visão, inadmissível numa governação moderna, é que vai in crescendo, e vai criando na gente um esquecimento pelo que esse povo foi, para que as lembranças dos tempos passados se desvaneçam sem nenhuma piedade, sem nenhum respeito, materializado na queda desses edifícios históricos, com a redução a ferrugem de monumentos da história contemporânea, para que talvez nenhum jovem nem velho possa lembrar-se mais do que os antigos tiveram que trabalhar ou viver para chegar até este ponto, para evitar que, em essência, ninguém possa reagir contra um status quo de alienação mental, que afeta à essência mesma do futuro do povo são-tomense. Talvez seja que a memória histórica são-tomense nos últimos tempos haja sido reduzida também a sucata e vendida a custo zero a tratantes de mediocridade, mestres da destruição ou, pior ainda, a geradores perversos de ignorância e obscuridade.
Os povos ou os países forjam-se a base de valorar e manter viva a sua história, de apreender dela, de identificar-se com todos os seus capítulos, com todos os seus protagonistas, dos que tiveram a sorte ou a desgraça de vivê-la em primeira pessoa, mesmo dedicando-se em corpo e alma, para fundir-se nela, sem os quais a história nunca tinha acontecido e nunca poderiam transmiti-la como herança e aprendizagem, nem menos ainda perguntar-se se algum dia também poderiam ser eles os protagonistas. E agora desalmados espíritos indolentes e destrutivos atentam mais do que terroristas contra essa alma, fazendo-a pedaços.

Notas
- Honrosas exceções como os projetos, em São Tomé, na roça São João, na roça Micondô ou na roça Monte-Forte, ou no seu momento a roça Bombaim ou a aproveitamento do Hospital de Diogo Vaz como escola e centro de formação. No Príncipe, a roça Ponta do Sol, a roça Belo-Monte, e mais recentemente a recuperação da administração de Sundi como hotel. Também é de mencionar que em 2014 o governo de Gabriel Costa também se postulou e anunciou atuações em pró da manutenção do patrimônio, mas em essência pouco ou nada se materializou por parte da iniciativa pública.
- A Ordem dos Advogados, em setembro de 2017, ante a incapacidade de disponibilizar recursos para a reabilitação do edifício da administração de Amparo II, o devolveu à Direção do Patrimônio. Já nessa altura o edifício tinha a ameaça de ruína, à vista da total desproteção da casa do freqüente vandalismo e roubo de materiais. Ver os artigos já publicados em Tela-Nón.
- A consultar sobre esse tema os artigos da série Biafra e a ponte aérea de São Tomé, recolhidos na web da Associação Caué, Amigos de São Tomé e Príncipe em Barcelona:
http://www.saotomeprincipe.eu/caue_projetos/caue_activitats/caue_biafra2011.htm
- Antecedentes na web de Constellation Survivors
http://www.conniesurvivors.com



Mario Andrade
4 de Fevereiro de 2019 at 17:25
Muito bom artigo, mas os políticos santomenses estão mais preocupados em roubar e depois construir horrorosas mansões no campo de milho com a areia das praias, como a Fernando Dias, ou mesmo destruir as praias para construírem horrorosas propriedades como aconteceu com a praia das conchas.
Os 5 anos de licenciatura lá fora não bastam para um africano que vem de um bairro de pau-a-pic aperceber-se que a arquitetura e o ordenamento de um país são também a base do bem estar e no caso de São Tomé uma fonte de atração turística. É inútil alertar, ainda não conseguem perceber.
Metido a Besta
4 de Fevereiro de 2019 at 17:52
Muito triste e eu que trabalhei na central tefefonica conheci de perto todo estes patrrimonio historico quando reparamos ou na instalacao de novas linhas e depois durante servicos militar em Sao Tome e Principe,
30 anos depois voltei a Sao Tome, em 2016 e fiquei triste com o estado de abandono de Edeficio de patrao e o escritorio de Agua Ize onde algumas familias habitam no residem reis chao.
Nao me pareceu que tal edeficio apresenta estabilidade minima para habitacao e ate isso Autoridade nao existe para zelar nem para o bem estar de um edificio historico e muito menos o bem estar de populacao que ocupam p stais edificios ilegalmente.
Comeram e destruiram tudo que gente malvada e ruim.
Nao ajudam empresarios nacionais e so empoe uma taxa exorbitante que leva o capital e o lucro.
Depois de varias critica dos empresarios so agora que o FMI vem defender o melhor ambiente de negocios.
A muito que empresarios Sao Tomense, Angolanos e Cabe Verdiano vinha reclamado as melhores condicoa para trabalharrem , fazendo negocios .
Juntei a minha voz ao dos referido empresarios e o Governo da Cabo Verde respondeu com uma linha de credito e a fundo perdido alinhado a credito boneficado, Angola reformulou as taxas de Alfandiga com reducao .
E Sao Tome ???? Aumento a taxa para 120% onde o custo de produto ja colacao em Sao Tome incluindo transporte custou € 4.000.00 e o governo taxou € 5000.00 e o lucro bruto seria € 3000.00 .
a venda seria no totaL € 7000.00 e o governo de parasita de ADI cobrou 5.000.00 mais 4000.00 de custo de pruto e tramsporte perfazem o custo total de 9.000.00 .
Quando no mercado de Sao Tome o valor comercial seria de € 7.000.00
O ADI e P Trovoado nap passam de bandos dos estudidos que nada entendem de governacao nem tao pouco de negocios ,
Investi € 4.000.00 mil e fiquei a arder sem lucro nem o capital e isso explica o estado de abandono de maioria das estructura em Sao Tome.
Enquanto ministros de direitores de servicos constroem hoteis , vivenda e sao done de tudo e mais alguma coisa , como pode?
Gatunos , corruptos e fornicadores que so sabem usurparem dos bens alios ate mulheres de outtrem.
Tony
4 de Fevereiro de 2019 at 18:15
Após 43 anos, o que fizeram??
Somente roubaram e destruiram, em primeiro os Srs Governantes após Independência, sem qualquer exceção, depois o povo por sobrevivência e falta de conhecimento.
Depois vejo todos os anos e em todos os governos que o turismo vai florescer, agora pergunto como? Com destruição e miséria, acho que não, jamais.
Stp não tem condições para ser estado independente, após 43 anos está mais que provado. Tambem na economia não tem relevância para que exista investimento externo.
Agora se um empresários quiser a concessão de uma roça para promover uma unidade de turismo, tem tantos problemas para resolver que desiste, e o estado somente mantém a destruição.
Não têm condições para se governarem….
Alberto de morais
5 de Fevereiro de 2019 at 6:16
Está tudo dito
Gente ruim
Gentino Plama
5 de Fevereiro de 2019 at 19:20
Pois é a mentalidade. Os colonos não nos ensinaram a valorizar coisas, a não ser trabalhar a chicotadas. Mesmo assim, poderíamos nós vermos de que, estes elementos são singulares e que enriquecem a paisagem urbana, bem como o nosso quadro infraestrutural e arquitetural. Anos após anos, Governos sucedendo outros, todos eles com ministro e ministério de infraestrutura, nenhum com o crânio para fazer ver e ouvir de que no País existe enumero edifício a clamar pela reabilitação ou mesmo a recuperação.
Existiu, existe e provavelmente existirá jovens, homens e mulheres a procura de meio para sobreviver. A falta de trabalho é gritante, mas Há trabalho, a questão é que a entidade governamental continua ignorante perante certas matérias. A recuperação destas relíquias, diminuirá significativamente a falta de trabalho no País.
Infelizmente, as pessoas não veem ou não querem ver o País a progredir. Há muito trabalho. Se o governo não tiver a cobertura para tal, existe a cooperação. Estou em crer que os são-tomenses não têm o amor a Pátria. Veem que o primeiro ministro de cabo-verde construiu na sua legislatura 4 Aeroportos Internacional. Tenhamos Vergonha.
Renato Cardoso
5 de Fevereiro de 2019 at 21:13
A incúria agregada a memória suicida consubstanciam esta passividade ou falta de amor próprio.
Caso para dizer andam loucos!
Xavier
6 de Fevereiro de 2019 at 14:00
Com tudo, acho que é momento de passar à ação: plano de recuperação, catalogando oficialmente, estabelecendo prioridades e possíveis vias de financiamento, assím como possíveis novos usos para os edifícios/espaços recuperados
XXXXXXXXX
7 de Fevereiro de 2019 at 16:14
Concordo plenamente!!!
José Mendes
6 de Fevereiro de 2019 at 14:43
Deixe de reclamar e execute, Europa é o que hoje diz-se ser não pelo estado mas pelo cidadão que tinham bens, fez e entregou ao estado faz você também, Historia deve ficar na Historia se a Europa não tem memória pelo seu erro porque teria a África de ficar com a memória? Por não acusa-lo do crime contra Humanidade e exigir a respectiva indemnização pelas vidas perdidas?
Escreva coisa com sentido e não bobagem.
MIGBAI
7 de Fevereiro de 2019 at 14:06
És mais um palerma nesta terra destruída pelo comunismo trazido pelo ponto da costa.
Vai-te lavar.
Xavier
8 de Fevereiro de 2019 at 8:29
Quem deve executar é o proprietário desse ingente patrimônio que é o Estado santomense. Nós podemos advertir da perda, sugerir atuações, mesmo pressionar para que se façam (e isso não é “bobagem”),… mas quem tem as rédeas nesse assunto é o Governo da nação.
XXXXXXXX
9 de Fevereiro de 2019 at 18:37
Sim, mas podem ser criados grupos de pressão. E a imprensa pode jogar um papel importante, agora que o protofascismo acabou.
MIGBAI
6 de Fevereiro de 2019 at 16:11
DEVOLVAM as roças aos verdadeiros donos para que estes as voltem a dinamizar.
Estou farto de alertar para a necessidade de acabar com a propriedade coletiva imposta pelo comunismo trazido pelo pinto da costa e avançar com a devolução das roças aos donos.
Infelizmente a raça negra é assim mesmo, não faz, nem deixa que os verdadeiros donos fazerem.
Terra minha, como estás completamente destruída pelos novos colonos pretos que aqui aportaram com uma única intenção, ENGORDAR!
XXXXXXXXX
6 de Fevereiro de 2019 at 16:41
As roças coloniais, esta parte tão determinante e tão traumática da nossa história e da nossa identidade, devem ser preservadas. É preciso salvar o que for ainda possível salvar. Agir.
Xavier
8 de Fevereiro de 2019 at 8:33
De fato, se estou bem informado, no registo da propriedade ainda constam os antigos proprietários, se bem também há o decreto de nacionalização (mas não está apontado no registo). Segundo isso os antigos roceiros poderiam reclamar a propriedade.
MIGBAI
8 de Fevereiro de 2019 at 20:33
Já cá estiveram antigos donos com vontade de dinamizar e implementar turismo rural e outras actividades empresariais que iam criar riqueza e imensos postos de trabalho. Coitados tiveram que ir embora porque está negrada de oportunistas e colonos negros quase que os iam levando ao desespero. Não dá para entender este meu povo e muito menos estes governantes oportunistas.
XXXXXXXXXXX
9 de Fevereiro de 2019 at 14:57
Agente provocador branco…
MIGBAI
10 de Fevereiro de 2019 at 12:57
Branco só mesmo os dentes e o coração. O resto é igual à maioria da escumalha que tomou conta de STP e que teima em arruinar totalmente as ilhas.
Barão de Água Izé
9 de Fevereiro de 2019 at 7:53
Privatizar, não concessionar, deverá ser a regra para mudar o modelo econômico. O fim das Nacionalizações tem que ser o caminho para se recuperar o País.