Opinião

A Independência de STP não foi ainda sentida

Comemora-se mais um 12 de julho, data de aniversário da independência de São Tomé e Príncipe, o país da independência total. Poderemos aqui questionar: Independência total? Como e para quem? Para aqueles que, durante os últimos 44 anos, lapidaram aquilo que a natureza ofereceu à terra de nome de um Santo?

Após o 12 de julho, os São-tomenses ambicionavam, conforme Alda Espírito Santo, um Santo Tomé e Príncipe capaz de “construir, no progresso e na paz, a nação mais ditosa da Terra com os braços heroicos do povo”. Tentamos, ao longo desde artigo, encontrar os ansiados “braços heróis do povo” durante os últimos 44 anos que, de fato, é o que mais se evidencia através de frases memoráveis “trabalhando, lutando, lutando e vencendo” e “vibra rijo no coro da esperança”. Infelizmente, não conseguimos vislumbrar o “caminhamos a passos gigantes (…) Ser herói na hora do perigo, Ser herói no ressurgir do País”.

Na lubricidade de esperança daquilo que nos é devido, continuamos o exercício, através de ações e políticas públicas sistematizadas com vista ao progresso e ao desenvolvimento sustentável do arquipélago de modo a que este se possa refletir no bem-estar social, económico e cultural dos homens e mulheres São-tomenses. O que fizeram os governantes destas duas ilhas com nome de um Santo com apenas 201.784 habitantes? Quais foram os resultados de 44 anos de independência?

Recorremos ao período dos descobrimentos sem, no entanto, entrar em questões demasiadamente académicas que, não é o propósito deste artigo. São Tomé e Príncipe tornou-se, em meados do século XVI, o principal produtor mundial de açúcar. Em 1913, o arquipélago tornara-se num dos maiores produtores mundiais de cacau. A cidade de São Tomé e Príncipe já foi considerada uma das mais limpas do Continente Africano. E, hoje, poderemos perguntar: como estará a nossa bela cidade? Ao nível de infraestruturas, hospitais, empresas agrícolas, vias de mobilidade e de interligação, estaremos hoje em carcaças e em “farrapos”? Tentamos, ao máximo, encontrar evidências para que, moralmente, nos orgulharmos do arquipélago que nos viu nascer e crescer, mas que, infelizmente, sem sucesso. As políticas económicas adotadas no arquipélago, desde a independência, passando pela abertura política, contribuíram para reverter este percurso, ao invés de se fazer “ressurgir o país” (Alda Espírito Santo).

Não é a nossa pretensão entrar em questões nacionais profundas (educação, cultura, economia, política e sistema judicial) mas apenas proceder a uma reflexão para que, cada são-tomense possa igualmente pensar a respeito do feito da independência em jeito de tout court. A tão esperada dignidade, bem-estar, aquilo que, hoje, muitos pensadores pós-modernos chamam de felicidade, ficou-se pelo caminho.

É sabido que, em São Tomé e Príncipe, o povo comum vive numa extrema pobreza. Sobrevivem com base naquilo que a natureza oferece. O que nos leva a reafirmar que houve e continua havendo uma degradação para além da social, económico, ela é igualmente moral e cultural. O extrato de depoimento do Sr. Antonino, ex. contratado, que viveu todo o período aqui destacado, nos chamam a atenção para uma autoreflexão desapegada de patriotismo:

“…a organização do trabalho na era colonial, foi responsável. Todos os trabalhadores eram responsáveis pelos seus trabalhos, seja lá qual for a área de atuação” (…) quando observo as infraestruturas colonias, vejo que houve uma vida melhor neste período” … Em São Tomé, sem interferir nos assuntos internos, São Tomé deveria endurecer a canela antes de se estrear no campo de futebol para a competição… porque a bola foi mal jogada… a independência de são Tomé e Príncipe não foi sentida. São Tomé entrou numa caristia depois de 75, que isto está difícil de se avançar: Já não há produção, mas chuva não faltou… rio não secou… São Tomé e Príncipe não se deu valor a mão de obra de cada homem, pois a riqueza de um pais é o braço de homem. Quando não se valoriza o braço de um homem num país, nem ouro, nem diamante e nem o petróleo, não resolve o problema desse pais. Quem resolve o problema deste pais é o homem (Tradução livre).

Este extrato evidencia o seguinte: houve inversão dos valores e padrões nacionais, em detrimento de interesses de pequenos grupos. Houve falha na perspetiva de longo prazo. Sem educação não se consegue uma visão, dado que esta provém essencialmente da formação no seio da família e da escola. Os trabalhos árduos do homem, sobretudo nas roças têm continuado, mas o trabalho sem visão resulta numa lógica da inversão, isto é, não passa do trabalho pelo trabalho. É urgente refletirmos na prosperidade. Prova disto é o empenho dos pequenos agricultores. Isto leva-nos a concluir o seguinte: o são-tomense comum não precisa de governos e/ou de políticos, dado que estão à sua sorte. Até com a medicina tradicional, através das folhas e cascas de madeiras consegue restabelecer-se das enfermidades.

É preciso hoje mais do que nunca responsabilizar todos aqueles que governaram este país desde a independência em 1975. Mas como tornar isto possível? Quando o sistema judicial não funciona? Somos responsáveis pelos próximos 44 anos. Vamos fazer de uma forma diferente. O país necessita de uma reforma do sistema político. Para o efeito, propomos a diminuição da máquina burocrática do Estado, a adoção de um regime presidencial com pendor parlamentar, na qual teríamos um Presidente, Chefe de Governo, assistido por uma equipa de cinco a oito Ministros e Secretários de Estado. Para quem está pouco informado, nos Estados Unidos da América há doze Ministros para governar mais de 320 milhões de norte-americanos.

A estratégia de desenvolvimento sustentável deve passar por reformas na educação, reformulando todos os subsistemas nacionais com vista à redefinição de um Plano de desenvolvimento dos recursos humanos para os próximos 20 anos. É necessário desenvolver clusters económicos e estratégicos do país, nomeadamente os setores de agronegócio, economia azul, turismo e indústrias criativas. Deveremos aproveitar a posição geoestratégica do arquipélago para servir de uma plataforma de serviços no Atlântico.

Para o efeito, desafiamos o atual governo para os próximos 44 anos a preparar um forte contingente de jovens líderes para que participem na gestão de um país de nome de Santo.

Viva os próximos 44 anos!
Mantenha,

Adilson Barbosa A. Neto

    9 comentários

9 comentários

  1. Barão de Água Izé

    13 de Julho de 2019 as 13:04

    Acabar com as nacionalizações; privatizar a Terra; colocar em causa concessões de terra improdutiva, primeiro passo para dinamizar a economia.

  2. Hernâne Dos Prazeres Ferreira

    13 de Julho de 2019 as 13:41

    Começo por dizer parabéns pelo artigo, obgd pelo contributo. O artigo está muito bem elaborado, espero que nossos políticos possam ler e estrair daí alguma coisa desta crítica construtiva, quevrepensem o STP, que trabalhem arduamente, que incentivem, que faça-nos acreditar. Hum bem haja a todos.

  3. Patt Down

    13 de Julho de 2019 as 18:08

    Meu caro cidadão. Parabens pelo artigo
    Imagine que havia no teu Grande país uma centena de jovens de intervenção civica e politica, like you? Pensemos nisso. Fiz uma viagem a s. Tomé e fiquei violentamente triste. Com a miseria moral do país. Nao é somente o teu pais. Os palop todos, sem excepção. Mesmo onde mediaticamente, por exemplo C.Verde, tem alguma fama de ter atingido alguma coisa, é apenas por comparacao com aqueles que nao atingiram nada. Pq quando comparado com o minimo de existencia, exigido, é só conversa afiada.

  4. Pedro Cerqueira

    13 de Julho de 2019 as 18:17

    Inteligência na leitura da situação actual do nosso belo país! É bem verdade que não se sente independência porque nunca fomos de facto independentes. Em 1975, teria sido uma medida bem mais sensata assumirmos um estatuto como o das outras regiões autónomas insulares portuguesas como a Madeira e os Açores. Hoje estaríamos bem mais fortes e, sobretudo, organizados. Mandar o Português embora, o povo que nos trouxe de tantas origens desgarradas para estas belas ilhas onde não existiam quaisquer seres humanos antes deles as descobrirem foi uma burrice sem tamanho, tínhamos simplesmente exigido trato idêntico ao do branco. Simples. Seriamos hoje uma nação maior, rica, com expressão no mundo. Hoje viajo pelo mundo e quando falo da minha terra na Alemanha, no Chile, em França ou nos Estados Unidos, raros são quem conhece sequer o nome e mesmo em Portugal são muito poucos quem já visitou nossas ilhas. É triste. Se fôssemos região autónoma portuguesa estou certo que seríamos bem maiores e estaríamos bem melhor. Mas quando digo isso estando aí me chamam nomes que não quero repetir aqui e por isso vivo na Europa e viajo pelo mundo em meu trabalho. Ter pai branco ajudou muito. Com passaporte da UE é bem fácil ter visto para qualquer país no mundo. Com muita pena minha nosso passaporte verde oliva serve de muito, muito pouco. Por isso concordo que a independência não foi ainda sentida. Não foi sentida porque não é real. Quando dependemos de donativos da China, de Taiwan, do Japão, que independência é essa?! O que fazem por nós de facto os chineses, os japoneses, ou os taiwaneses? Não querem decerto organizar nosso país. Não estão nem aí para a nossa cultura, nossas raízes nem tradições. Querem pior do que colonizar. Querem servir-se de nós para negociatas internacionais e servir somente os seus interesses internos. O tuga foi burro também na forma como abandonou as (então) suas ilhas. Podia ter feito um plano de 1 ou 2 décadas para transição de soberania ou alterar o estatuto de província ultramarina para região autónoma. Somos o único arquipélago sob administração do então império português onde não havia ninguém antes da chegada dos tugas que foi levado na onda das independências descontroladas após a revolução na “metrópole”; porquê? Por não sermos maioria de branco? Ridiculo. Nem me quero alargar para temas mais recentes para não me entristecer…

    • Joao Batepa

      13 de Julho de 2019 as 23:15

      Concordo a 100% meu compatriota.
      Um abraço

  5. Joao Batepa

    13 de Julho de 2019 as 23:15

    Excelente artigo.
    Parabéns compatriota.

  6. Nanana

    14 de Julho de 2019 as 3:24

    Obrigada ao conterrâneo Adilson Neto, pela leitura fiel da evolução ou involução do País.

    Quero também enaltecer as sugestões que apresenta como veículo de solução.

    Mas, meu querido conterrâneo, não sei se o regime Presidencial ajudaria, tendo em conta a qualidade dos últimos PRs que STP tem tido…
    A degradação de valores é tamanha, que o discernimento de voto é muito raso.
    Corremos o risco de termos um PR que faça sabe-se lá o quê com as Ilhas…

    Quando a educação e a formação são quase inexistentes, é muito difícil a reedificacao de qualquer sociedade.

    Todos os grandes Lideres sabem e defendem a Educacao/Formação, Disciplina e Saúde como pedras angulares para o desenvolvimento.
    Nelson Mandela, Fidel Castro, Lenin, Manuel Pinto da Costa e muitos outros PRs herdeiros de países saídos de convulsões sociais tinham isto em grande conta.

    STP se tivesse mantido a linha de estruturação social (educação dos jovens, ordem pública, alfabetização dos mais velhos, saúde) que tinha até 1990,e se tivesse combatido a corrupção dos políticos, o nepotismo e o narcisismo, estariamos a anos luz do desenvolvimento que temos hoje.
    Em vez disso, enveredamos por caminhos obscuros que é do conhecimento de todos.

    Haja muita Luz, para a iluminação dos nossos “governantes”.
    Ámen!

  7. Piukulancia

    21 de Julho de 2019 as 7:46

    Caro Barbosa Neto, Independencia Total éso para alguns.Vejamos o caso petroleo onde algumas pessoas ja encheram o papo com altos salários e prémios. Quando é que chegara ao povo, mesmo falando daqueles direitos mais básicos?
    Fomos enganados, continuamos a ser enganados e continuaremos a ser enganados.Eu não sou contra essas pessoas, desde que deixem de enganar o povinho com mentiras.
    VIVA STP E QUE DEUS NOS ABENÇOE.

  8. ARNALDO GOMES

    23 de Julho de 2019 as 7:34

    Acho que dramatiza-se muito a imagemdo pais o que vejo sao aqueles corruptos que perderam o leite da vaca patricista fazendo depoimento a radio para o estrangeiro atravez dos capangas adistas

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