Opinião

Sobre o bom senso

Está na boca do Povo: muito se tem falado sobre a construção do novo edifício do Banco Central quanto às dispendiosas dobras que o ajudaram a erguer-se. Todos têm sido unânimes em concordar que as prioridades, para já, não passam sequer à beira do embasbacado prédio, devido às razões que todos já sabemos: o estado oco, vazio, do cofre estatal, em que nunca há coisa alguma.

Ora, este modo de proceder reveste-se de uma atractividade imensa junto de quem anda nas franjas do prestígio, na regência da nossa sociedade, sobretudo. Com isto, não pretendo aqui desdizer, apontar o dedo ou pisar aborrecidamente em quem quer que seja, mas apelar ao bom senso. Na maioria das vezes, procuramos levar uma vida ostensiva; não queremos sentir, ou fingimos não sentir, o movimento giratório do mundo – o império que, em meio década, pode desmoronar-se –, e metamorfoseamos o arquipélago em betumes: tapa-se a ilha em aberto, resolve-se as necessidades inexistentes, e já está. Até aqui nada de novo. A moda, agora, é a nova caminhada exodal do santolas para a nova “terra prometida”, a China.

Talvez o busílis da questão não seja apenas as férias mascarradas de intercâmbios que, graças ao punda bô, se têm proporcionado a alguns, mas sim o seu real sentido: se a China, efetivamente, tem sido para nós um “pai misericordioso”, porque não nos abraça construindo um hospital de referência, capaz de dar resposta, porventura, às enfermidades do Povo? Pois é. Se queremos continuar a ser lazarones, acho que temos de saber pedir, ao menos, o melhor agasalho para as noites friorentas de gravana.

Sei que esta prosa me vai provocar azedas ressonâncias; na boa. Mas, a razão do que aqui escrevo não é a de rebaixar o bilateralismo que temos com a nova “terra prometida”; pelo contrário, até; o que eu intento vincar são as prioridades, os sucessivos adiamentos do futuro que pela vida fora se arrastam e o olhar disfarçado daqueles que, sempre, escarnecem dos que os fizeram (ou fazem-nos) estarem sentados onde estão.

Será por isso que vemos a nossa sociedade tão distante dos mais vulneráveis e fascinada com quem tem mais uns tostões, ou boquiaberta quando se senta à mesa com os tais donos do trono, ou quando desfila vibrante e sorridente os seus gibões como os jovens que estreiam uma roupa nova na festa de freguesia? Este cenário fílmico traduz-se num ambiente amaneirado, onde os trajes dos modelos já primam pelos bolsos chorudos – isto não podia ser.

Uma coisa, porém, é certa: esta forma de reger a “Terra dos incrédulos”, longe de granjear qualquer empatia, revela uma falta de razoabilidade. Contudo, há sempre exceções que se transformam em possibilidades: pessoas que não se deixam drenar pelo sistema e continuam a ter um coração contrito.

Outra coisa, e com isso termino: nenhum império permanece com a espada embainhada ditando a Lei de talião – olho por olho, dente por dente (i.e., pagar com a mesma moeda). Em todo o reinado sob a imperiosa cláusula, cedo ou tarde, as pessoas transformam-se em cegas e desdentadas.

Por isto, não podemos continuar a ceifar uns e outros, não podemos continuar estáticos, como estátuas inamovíveis, no nosso pântano, sem dar passos e soçobrando. É preciso sairmos da lagoa do afogamento comum: bom senso, a coisa do mundo mais bem distribuída (René Descartes)!

Ass.: Francisco S.

    10 comentários

10 comentários

  1. Arlete García

    19 de Setembro de 2019 as 0:43

    Adorei o teu artigo, jovem! Noto muita falta de bom senso na nossa sociedade!

  2. Cuá daná

    19 de Setembro de 2019 as 10:57

    Muito bem. Precisamos que colocar as prioridades à frente, pelo bem do país. Abraço.

  3. Joaquim Fg

    19 de Setembro de 2019 as 15:42

    Bom senso, a coisa do mundo mais bem distribuída. Ainda nos falta!

  4. Maria Teresa Cristina

    19 de Setembro de 2019 as 22:37

    Gostei muito do artigo. Infelizmente as prioridades inverteram-se.
    Falta muito bom senso. Beijinhos

  5. Ralph

    20 de Setembro de 2019 as 0:30

    Infelizmente, este relato não é tão incomum como se pensaria, acontecendo vezes sem conta em volta do mundo. E o bom senso não é tão comum como se acharia, sendo algo fora do alcance de muitos políticos. Parece ser uma ocorrência comum políticos preferirem avançar os seus próprios interesses do que os dos povos que os elegeram. A única coisa que se tem para tentar resolver a situação é votar eles fora em eleições legítimas, dando-lhes um sinal que tais comportamentos não são toleráveis. Mas o problema é que, o que quer que seja o partido político, parece desenvolver-se uma classe política que apenas procure o poder para se enriquecer e servir os seus próprios interesses (e os interesses dos seus familiares), fazendo o problema cada vez mais difícil para solucionar.

  6. A voz do pequena

    20 de Setembro de 2019 as 11:45

    É verdade! A China não dá nada a ninguém. Eles querem é vender a sua cultura aos países pobres. Bom artigo

  7. Joaquim S. Cravid

    22 de Setembro de 2019 as 17:41

    Aqui, em STP, bom senso não serve pra ninguém: nem para os que estão no poder nem para os da oposição. É sempre a mesma coisa! Importante é só chegar lá para fazer igual (ou pior). Mas, continue a chamar atenção deles para os tais casos sociais, que tens anotado!

  8. Armindo L.

    22 de Setembro de 2019 as 21:55

    O governo tem que implantar uma política que visa as prioridades pra o país. É preciso criar estratégias de investimentos prioritários. Se não, haverá novamente o tal «afogamento comum». Abraço

  9. pascoal carvalho

    23 de Setembro de 2019 as 17:37

    Corretíssimo meu caro, a falta do bom senso de dar o que mais urgente precisa-se e, pedir o que mais falta faz.

  10. Carlos Silva

    24 de Setembro de 2019 as 23:36

    É preciso criar uma política multilateral, e deixar da política de muro (barreira)! Só mesmo pelo bom senso, consiguiremos lá chegar. Bem haja.

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