Opinião

Presidenciais – A Entrevista de Delfim Neves

Num contexto político, como S.Tomé e Príncipe, onde se reflete e debate muito pouco sobre os problemas do país, a opção alternativa, nos contextos eleitorais, tem sido a ocupação paulatina do espaço político-mediático com várias ações de aparente demonstração de força eleitoral e capacidade mobilizadora, com o objetivo de influenciar a opinião publicada e tentar polarizar e ganhar uma dinâmica ganhadora.

Tem sido esta a receita, desde a inauguração da democracia no nosso país, com pequenas adaptações neste momento, todavia, com os resultados que todos conhecemos.

E, infelizmente, este esforço de influenciar a opinião publicada, nos contextos eleitorais, com recurso a elementos de natureza imagética e política no terreno (suportado por caciques de ocasião), amplificado, momentaneamente, por disputas no contexto digital, nomeadamente no uso das redes sociais, não influencia esta mesma opinião publicada da maneira como os problemas deveriam ser colocados, problematizados e definidos, em prol da criação de condições que permitiriam a transformação da realidade vigente.

Aquilo que tenho assistido, na última semana, em termos de posicionamentos pré-eleitoriais, das diversas candidaturas em presença, ao cargo do presidente de república, com algumas exceções, denuncia a repetição desta receita.

Neste âmbito, Delfim Neves, depois de uma passeata, no norte e sul da capital do país, numa manifestação de força eleitoral e capacidade mobilizadora, apareceu na entrevista (programa Nós Acreditamos),de papo cheio, convencidíssimo da sua inteligência relativamente ao contexto político de intervenção.

Sendo ele um dos políticos mais antigos e com protagonismo relevante, nos últimos anos, na nossa terra, esta interiorização, ainda que subjetiva, da compreensão do contexto político, far-se-ia expressar, com maior ou menor evidência, na referida entrevista.

Este foi, por isso, um dos poucos pontos positivos da referida entrevista que permitiu ao entrevistado discorrer sobre a realidade, política, social e económica, prevalecente no país, num registo, sobretudo, de diagnóstico, no entanto, com uma visão minimalista, contraditória às vezes e pouco aprofundada, sobre diversos temas abordados.

Para além deste ponto positivo, destaca-se, também, na referida entrevista, a falange de apoio de internautas que, num registo inusual de demonstração de força e apoio indefetível ao político em causa, ultrapassando a barreira de milhares de comentários, animaram o referido espaço virtual, em manifestação do apoio ao referido candidato presidencial.

Delfim Neves, por exemplo, acertou no diagnóstico quando reconheceu que, no país, predomina, neste momento, um discurso e praxis de ódio e perseguições, como forma de ataque à tolerância, inclusão e diversidade, com impacto na coesão social e aprofundamento de valores que suportam a nossa democracia mas, por outro lado, teve dificuldades em explicar, de forma convincente, que, sendo ele um dos protagonistas desta nova maioria governamental, não tenha, no entanto, em momento de celebração do tal compromisso político interpartidário, criado condições para acabar com este clima de manifestações de ódios e perseguições políticas no país, querendo, contudo, fazê-lo quando for eleito presidente da república.

De igual forma, Delfim Neves acerta no diagnóstico, quando referiu que o país tem de mudar de paradigma, no contexto económico, criando as bases, tendo em conta a sua particular localização geoestratégica, para se industrializar e, com tal, dinamizar a sua economia, transformando-se num país essencialmente exportador para o mercado circundante da áfrica ocidental constituído por milhões de pessoas.

Acrescentou, posteriormente, que o país não tem, desde a instauração da democracia, um “Plano de Desenvolvimento Económico” que pudesse contribuir para a alteração do paradigma existente e prometeu, caso fosse eleito presidente da república, contribuir para a criação de “uma república renovada”.

No entanto, Delfim Neves não foi capaz de explicar de que forma é que ele, na presidência da república, conseguirá mudar o paradigma económico do país nem tão pouco construir uma “república renovada” sendo que, para tal, a montante, temos um sistema partidário, cada vez mais fragmentado, que se tem transformado, ao longo dos tempos, em “Clubes de Defesa de Interesses Privados”, com “chefes” pré-determinados cuja função primordial é a representação da defesa destes interesses.

Qualquer estratégia de industrialização constitui um forte desafio para qualquer país e exige, indubitavelmente, uma forte e inequívoca liderança política bem como o empenho, abnegação e articulação entre todos os agentes, ao nível governamental e da própria oposição.

Como é que se vai fazer isso num país onde não existe partidos políticos (no verdadeiro sentido da palavra) nem tão pouco“ uma liderança política” (na expressão utilizada, recentemente, pelo anterior presidente da república Pinto da Costa).

Quando questionado no sentido de exprimir a sua preferência pelo sistema de governação mais adequado para o país, tendo em conta a sua longa experiência política, Delfim Neves hesitou e concluiu que não tinha uma preferência particular pelo presidencialismo, semipresidencialismo ou outro sistema qualquer, mas que os considerava, quaisquer que fossem, adequados para o país desde que suportado por um regime democrático.

Ou seja, Delfim Neves foi incisivo na constatação, pobre na argumentação e insuficiente no propósito. Compreende-se, mais uma vez, mal, que, tendo sido ele um dos maiores protagonistas desta solução governativa maioritária, não se tenha lembrado de alertar os seus pares, no contexto adequado, que um “Plano de Desenvolvimento Económico” era uma questão premente e inadiável para o desenvolvimento do país e, como presidente da Assembleia Nacional, não tenha criado condições e pontes para a sua realização, procurando, todavia, neste momento, como candidato presidencial, alcançar tal propósito.

Para além disso, compreende-se mal, também, que, sendo ele um dos protagonistas com maior experiência política no país e estando a concorrer para o cargo de presidente da república, não tenha, neste momento, por convicção ideológica (considerou-se um socialista), motivação pessoal ou partidária, uma ideia clara sobre o sistema de governação que melhor serve os interesses do país neste momento concreto. Se os partidos políticos nacionais não servem para se fazer reflexões pessoais e coletivas sobre estes temas servem, então, para quê?

E esta constatação, infelizmente, tem sido prática de uma parte significativa dos nossos políticos, desde a instauração da democracia no país, com resultados que todos conhecemos na realidade prevalecente nos nossos contextos comunitários.

Isto faz-me lembrar aquela metáfora de um bêbado que acabou de sair de uma taberna, trôpego e sem reflexos nenhuns, tendo deixado perder as chaves de casa, durante a referida bebedeira, e tenta, contudo, encontrá-la debaixo de um único candeeiro que ilumina uma pequena parcela da referida rua e estabelece um pequeno diálogo com um transeunte, sobre tal facto, que, entretanto, passa naquele momento.

Diz o transeunte: tem a certeza que perdeu as chaves de casa aqui debaixo deste candeeiro?

Reponde o bêbado: eu não sei, mas acho que a perdi noutro sítio.

Replica o transeunte: se acha que perdeu a chave noutro sítio por que razão a procura aqui?

Treplica o bêbado: aqui pelo menos tem luz e eu posso encontrá-la.

Temos, de facto, uma tendência quase suicidária, para adotar soluções fáceis, sem reflexão e estudo, para determinados problemas, noutros casos procurar soluções simplistas para problemas complexos ou, noutros casos, ainda, por inaptidão ou algo mais grave, como o bêbado referenciado anteriormente, mantermo-nos na nossa zona de conforto, insistentemente, debaixo do candeeiro procurando a chave, mas, todavia, sabendo de antemão que ela não está lá.

Temos, de facto, muito por fazer para mudarmos de paradigma.

Adelino Cardoso Cassandra

    18 comentários

18 comentários

  1. Povo

    30 de Maio de 2021 as 12:58

    Hoje falei com uma empregada de limpeza sobre as presidenciais. Ela disse que delfim Neves está a gastar muito dinheiro mas que povo vai comer dinheiro dele e votar no candidato de ADI Carlos Vila Nova porque outros estão no poder mas país está mal

  2. Matabala

    30 de Maio de 2021 as 13:09

    Esse candidato não vem trazer nada de novo a este país. Faz parte do sistema de vicio e corrupção que acompanha a classe politica desde as primeiras eleições livres. Queremos caras novas. Este e outros como ele se tivessem vergonha na cara já tinham reformado com tanto que prejudicaram o nosso país e já tem vida feita. Povo se vota nele nao vem queixar depois…

  3. Nanana

    30 de Maio de 2021 as 14:43

    Adelino Cardoso Cassandra, como sempre perspicaz e sem papas na lingua. Obrigada pelo resumo da entrevista.
    Uma fiel e suave leitura do candidato à PR.
    Já não foi mau, o candidato ter-se apresentado a entrevista…
    S Tomé Poderoso e Santo António que nos acudam…

  4. Bernardino

    30 de Maio de 2021 as 14:51

    Boa explanação da realidade de nosso país. Muito obrigado senhor Adelino Cardoso Cassandra. Basta ver o que o primeiro ministro J.B.J nos prometeu na campanha e no início do seu cargo para aquilo que ele está a fazer agora. Volto a dizer muito obrigado.
    Bernardino Oliveira

  5. Vungo Dóxi

    30 de Maio de 2021 as 15:00

    País precisa de uma grande reforma mas não é com estes dirigentes. Estes dirigentes que existe já provaram que não conseguem fazer reforma nenhuma no nosso país. Passam a vida a lutar entre eles para dividir a pouca riqueza que o país tem e a aumentar a sua riqueza. O país precisa de novas pessoas com outras ideias e que pensa no interesse do povo.

  6. Pascoal Carvalho

    30 de Maio de 2021 as 15:13

    só posso pelo menos concordar cntg, pois temos dificuldades em proporcionar mudanças de paradigmas partindo de nós, mas, facilidades em apontar ou direcionar tais mudanças a partir dos outros. um enfim sem fim presente e, que o futuro é ainda mais sem fim.

  7. WXYZ

    30 de Maio de 2021 as 16:32

    E o mais chocante naquela conversa foi quando o mesmo admitiu que não sabia que havia assim tanta pobreza em STP, depois de ter visto um habitante duma casa quando não era casa, mas sim uma casa sem “C”. Uma aberração. Homem que diz vir do povo mas não conhece a realidade do seu povo. É MALANDRO O GAJO.

  8. Ululú

    30 de Maio de 2021 as 17:15

    Refundação de uma nova República com estes dirigentes? Brincadeira tem hora minha gente. Vão enganar os outros. Chega eleições cada um começa a prometer a torto e direito. Brincadeira. Só pode ser.

  9. Pedro Costa 2

    30 de Maio de 2021 as 17:34

    Temos uma classe política muito fraca! Infelizmente
    Espanta-me como é que este senhor chegou a ter este cargo! Presidente de Assembleia da República? Triste imagem do país.
    Agora todos aparecem com o Blá-Blá-Blá. Querem tirar o país da situação em que está. Querem mas sim tratar dos seus problemas pessoais e dos seus familiares.
    Enquanto não houver obrigatoriedade de apresentarem contas ao povo, cada um “saca” o que poder, o pais afundará mais e o povo continuará na miséria. Todos estes candidatos juntos, espremidos não sai sumo nenhum.
    A situação deste país só pode ser resolvida com uma segunda revolução cívica, com aqueles que estão fora do país em que é retirado todos estes corruptos (desde presidentes, ministros, diretores, juizes, chefes e mais chefes) e incluir uma equipa totalmente nova que não esteja comprometida com nada e fazer um saneamento geral deste estado. Atacar enriquecimento ilícito e quem não justificar os bens seria tudo nacionalizado.
    O que se passa neste país é um abuso

  10. Cantagalo

    30 de Maio de 2021 as 20:02

    Isto quer dizer que estamos num país de bêbados. Coitado do meu país que tem estes dirigentes. É muito triste. Não sei que raio de independência é que nós estamos nele.

  11. Jonas Bonfim

    31 de Maio de 2021 as 0:23

    Bom, todos são mais contractos mas povo anda com fome. Delfim veio de base e conhece as dificuldades que estamos a passar ele de certeza que irá olhar para nós.

  12. Muito grave

    31 de Maio de 2021 as 7:36

    Realmente nessa entrevista percebi que o candidato estava com uns copos a mais.
    Enfim é assim que querem continuar a governar o país,oferecendo álcool as pessoas transformando o povo em alcoolatra e assim ninguém pedirá explicações sobre nada.

  13. Original

    31 de Maio de 2021 as 8:13

    Pergunto: Não é possível vir Santomenses da Diáspora bem sucedidos e que não têm compromissos com nenhum Partido,governar este país e aplicar regras duras doa quem doer em 4 anos para ver se isto avança? Porque se for com estes gajos que temos cá,nem daqui a 50 anos isto vai mudar.

  14. Anjo do Céu

    31 de Maio de 2021 as 10:37

    Fugitivo de inferno verde e vermelho.e seu Carlos Vila Nova.que durante o seu mandato no governo não apresentou contas e nem entregue de pastas.Por isso ele não é serio com o País e povo.Qual exemplo que ele irá dar ao povo se ja está viciado com malandrice juntamente com seu chefe pirata Patrice Trovoada.Povo tem ke fazer justiça contra essas malandrices exigir prestar conta durante o seu mandato e c PT

    • Democracia em decadência

      1 de Junho de 2021 as 9:46

      Anjo do Céu!O que é que este artigo tem a ver com o Patrício.
      Credo calor.
      Não quero confusão.
      Fui…

  15. desilusão

    31 de Maio de 2021 as 12:48

    Nesta geração este país não tem salvação.

  16. Tudu Djá

    31 de Maio de 2021 as 14:52

    estes debates são bons para se ver a nossa realidade.

  17. Sem assunto

    31 de Maio de 2021 as 17:39

    Cruz credo, valha nos nossa senhora da aparecida. Delfim Neves, é uma ave de irribação, tem cheiro de enxofre e incenso está figura, vejam bem para ele tem marca da besta marcada na testa, é um anti cristo.
    Povo comam dinheiro desta besta e na hora do voto dá lhe uma banana, manda lhe passear.

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