Opinião

Presidenciais – A Entrevista do Guilherme Pósser da Costa

 

A entrevista do candidato Guilherme Pósser da Costa foi a coisa mais entediante que vi, neste ciclo de entrevistas dos pré-candidatos presidenciais ao “Nós Acreditamos”, quer ao nível do conteúdo como de forma, sendo que, o mesmo, com uma esplêndida síntese da pedagogia totalitária que caracterizou a nossa vida coletiva, logo após a independência nacional, com resultados que todos conhecemos, parece convidar-nos para a repetição da receita.

Comecemos pelo conteúdo. Pósser apresentou, em linhas gerais, na referida entrevista, os cinco pontos ou ideias centrais do seu manifesto eleitoral, para as referidas eleições, que comporta: a estabilidade política e governativa; o resgate dos valores da família; o combate à corrupção; a mobilização de esforços para atrair investimento direto estrangeiro para o país e o reconhecimento do papel e importância da diáspora no desenvolvimento do país.

Repetiu, pelo menos nove vezes (se não me enganei a contar), com uma expressividade comovente, que o nosso maior problema, momentaneamente, é a instabilidade política e governativa (sendo, no entanto, que o anterior governo completou toda a legislatura e o atual vai no mesmo caminho), com consequências no contexto económico e social, tendo, para tal, feito comparação com um outro país, estrategicamente não referenciado, cujo registo da estabilidade política e governativa bem como resultados conseguidos,indiciam, neste momento, estar melhor do que nós.

Nesta esplêndida pentalogia do Pósser da Costa, cujo centro é ocupado pela “estabilidade política e governativa a qualquer preço”, que para ele tem o valor de “autoridade”, só faltava trocar “Deus” e “Pátria”, por combate à corrupção, pela mobilização de esforços para atrair investimento direto estrangeiro ao país e pelo reconhecimento do papel e importância da diáspora no desenvolvimento do país, para termos, neste ato eleitoral, de forma panfletária, a série de cartazes, distribuídos por Salazar em 1938, por todas as escolas primárias do país e das colónias, para comemorar os dez anos do seu governo.

Para o candidato Pósser da Costa, algo também partilhado pelo candidato Delfim Neves, a “estabilidade política e governativa a qualquer preço” surge como a essência absoluta e prevalecente sobre todos os outros atributos do nosso regime democrático, em prol da salvaguarda dos interesses de uma aparente maioria, faça ela o que fizer para colocar em causa aqueles atributos.

Pósser parece estar num estado profundo de negação, pois, ao mesmo tempo que pede ou sugere, “estabilidade política e governativa a qualquer preço”, para um governo e maioria que nos tem tirado a liberdade, que tem uma agenda de oposição à tolerância e diversidade por indisfarçável manifestação de ódio e perseguição aos opositores políticos e que manifesta tiques insaciáveis de um centralismo anacrónico ao ponto de desqualificar de forma reiterada a autonomia regional do Príncipe, acredita que estará, desta forma, a “respeitar a decisão do povo”, neste seu propósito, de acordo com as suas próprias palavras na referida entrevista.

Das duas, uma: ou Pósser é ingénuo, coisa que eu não acredito; ou, em alternativa, a tal “estabilidade política e governativa a qualquer preço” que ele pretende é apenas um expediente de eficácia instrumental do Estado para satisfação de uma agenda em prol da defesa intransigente dos interesses dos seus amigos da atual maioria governamental. É esta a decisão do povo que ele, supostamente, pretende respeitar?

Todavia, este posicionamento não representa nenhuma surpresa para mim, pois, o Arzemiro dos Prazeres, anteriormente, já tinha dito que o Pósser e o Delfim Neves eram os dois únicos candidatos nestas eleições presidenciais que estariam em condições de defender, a qualquer preço, todos os interesses desta nova maioria, independentemente dos prejuízos que tal representasse para a nossa democracia e para a nossa comunidade.

É, também, por isso, que, os propósitosdo Pósser da Costa, de acordo com o seu manifesto eleitoral, declarado na referida entrevista, para “resgatar os valores da família”, denunciam preocupação, porque ignoram, a montante, a situação difícil do país, em termos económicos e sociais e, até, a influência da imagem institucional negativa dos representantes das organizações do nosso sistema político e partidário na degradação dos valores da sociedade e da própria família que ele pretende resgatar.

São, também, aos líderes ou responsáveis do país, nas últimas décadas, a quem se deve apontar o fracasso da imagem institucional transmitida e refletida em sociedade, com impacto na degradação negativa dos valores da família. Espanta-me, por isso, que Pósser da Costa, antes de anunciar a sua disponibilidade eleitoral em resgatar os valores da família na nossa sociedade, não tenha feito nenhuma autocrítica, tendo em conta o desempenho dos políticos da sua geração em prol desta empreitada que nos entristece como comunidade.

A não ser que Pósser da Costa, tal qual Salazar com o seu propósito da série “Deus, Pátria, Família”, em 1938, pretenda resgatar os valores da família, pretendendo, com tal, restaurar o papel do pai, como chefe desta, sendo este o único que trabalha, e, quando chega à casa, encontra a mulher, que, submissa, cumpre escrupulosamente a sua missão de esposa, mãe, educadora e escrava, e está desprovida de quaisquer direitos mesmo o de trabalhar ou divorciar-se do marido.

Será este o “resgate dos valores da família” prometido pelo Pósser da Costa na sua entrevista? Como é que ele pretende resgatar os valores da família sob a coordenação política de um governo e maioria que atropela, todos os dias, os direitos dos cidadãos, individualmente considerados?

A estabilidade política e governativa é importante, muito importante mesmo, mas não pode ser confundida, interpretada ou muito menos aceite como um direito, necessidade imperiosa ou instrumento ao dispor de um hipotético presidente da república para defesa dos interesses de um grupo de pessoas que se consideram donas do país e todos os dias faz de tudo para prejudicar e perseguir a outra parte do país por delito de opinião, manifestação de discordância política e ideológica ou, simplesmente, no exercício do mandato ou cargo efetivo, como é o caso do Filipe Nascimento, no Governo Regional do Príncipe, só pelo facto de não concordarem com a sua ascendência ou com a autonomia do Príncipe.

Caso Guilherme Pósser da Costa ganhe estas eleições presidenciais ficamos todos a saber que ele, por vontade própria, abdicará de uma parte dos seus poderes, nomeadamente de ser árbitro e polícia (na expressão utilizada por Vital Moreira e Gomes Canotilho), para ser apenas um bombeiro, em prol da defesa intransigente dos interesses de alguns privilegiados desta nova maioria governamental.

Ou seja, Guilherme Pósser da Costa, assume-se, de forma antecipada, comportar-se como um presidente de fação, coisa que a atual maioria agradece e já começou a apertar as cordas do sapato para agir em conformidade e, para tal, basta ver o conteúdo do atual projeto de Lei de reajuste salarial na função pública que é um exemplar flagrante de implementação de um clima persecutório e de terror, em prol da defesa dos interesses de um grupo específico de pessoas afetas a esta nova maioria governamental e um grande ataque ao aprofundamento da autonomia da região autónoma do Príncipe.

O Guilherme Pósser da Costa vem nos informar, nesta entrevista, sem hesitações ou contemplações, que apoiará, em qualquer circunstância, estes atropelos todos, cometidos por esta nova maioria governamental, em nome da “estabilidade política e governamental a qualquer preço”.

Ao nível da forma, o desempenho do Guilherme Pósser da Costa, também não foi melhor. Um candidato presidencial que se predispõe, tendo em conta um dos eixos do seu manifesto eleitoral, contribuir com a sua intervenção pedagógica no esforço da luta contra a corrupção,por exemplo, não pode nem deve, como princípio relacionado com a transparência e vínculo à comunidade de pertença, num exercício de uma entrevista pública com objetivo de escrutinar aspetos de natureza eminentemente política relacionados com as condições para o exercício do referido cargo, desobrigar-se, de forma ameaçadora, de responder às questões propostas por um painel de entrevistadores.

Um presidente da república tem de ser o primeiro a dar exemplos neste âmbito, pois, cabe ao mesmo, o sucesso da imagem institucional relacionada com os propósitos de aprofundamento da nossa democracia, transmitida e refletida no contexto comunitário de pertença.

Se a moda pegar, teremos, no futuro, um presidente da república que, perante um escrutínio público sobre os problemas políticos do país, desobrigar-se-á, de forma ameaçadora, de manifestar qualquer opinião sobre os mesmos num exercício de vitimização ou de manifestação, de forma autoritária, do seu poder.

E tudo isso é muito preocupante porque o nosso sistema político, tal qual o conhecemos e percecionamos, não está concebido para informar pedagogicamente as pessoas sobre as perspetivas do nosso futuro coletivo, sendo, que, a única relação que tem, com a sua base, é nos contextos eleitorais. Ora, se um candidato ao cargo de presidente da república tem um comportamento desta natureza, exatamente num contexto eleitoral, tal indicia preocupação.

Continuo ciente que os nossos maiores problemas não estão relacionados com o comportamento dos cidadãos em sociedade (isto é outra conversa) mas, sim, o de saber o que queremos realmente, ou seja, a configuração política: diagnosticar de forma fiel os constrangimentos, dar-lhes conteúdo e forma e designar isso como política. O inverso, como aquilo que tenho assistido neste contexto pré-eleitoral, mesmo tratando-se de eleições presidenciais, é continuar a deixar a sociedade indecisa e na expetativa.

Adelino Cardoso Cassandra

    13 comentários

13 comentários

  1. Gregorio Furtado Amado

    11 de Junho de 2021 as 16:25

    Está bem claro que Posser ou delfim, se um deles qualquer for eleito, o povo santomense estará desgraçado. A natureza obrigou-os a abrir a boca nesse sentido. O povo pequeno já está a ser manipulado com 50 dobras e um cálice de aguardente. Como é que um candidato sabe que houve sobrefaturacao de um milhão de euros denunciado pelo relatório de tribunal de contas e ele não pronuncia por ser elemento do seu partido e só depois de ser presidente é que ele irá combater a corrupção? Autarca foi julgado no nosso tribunal por ter vendido talhão do estado e recebido em seu proveito 100 mil euros, e ele não pronunciou porquê? E o espaço de domínio público usurpado e vendido? O processo de corrupção que recai sobre ele com a compra de avião que vem de Moçambique? Vai enganar a outro. Este velho caduco, contraditório, sem caráter, vão dormir.

  2. Matabala

    11 de Junho de 2021 as 20:52

    Esse senhor é um dos responsáveis do estado em que nos encontramos e de lá parece que não saimos há já 46 anos. Dinossauro do poder pelo poder no sentido de venha a nós (sendo nós a elite a que ele pertence ) o nosso reino. Este dono de pais apesar do pão com chouriço e da rosema espero que seja um dos tais que leve tamanha vergonha nestas eleições que o leve a ir uma temporada definitiva para a sua grande casa em Portugal gozar a sua reforma choruda com tanto dinheiro e negociata que já subtraiu a este povo.

  3. Seabra

    11 de Junho de 2021 as 22:30

    O senhor Guilherme Pósser da COSTA é um CORRUPTO, um OPORTUNISTA NATO, que cobiça ser MESTRE SUPRÊMO de STP para continuar a encher os bolsos, as suas diversas contas bancárias, para colocar os seus parasitas familiares nos lugares estratégicos do país (bancos, justiça etc…a ” iluminada economista” Laurinha sobrinha do posser, que o diga).
    O Posser sempre fez parte dos MANDA CHUVAS do reino pós independência…até quando.
    Vamos dizer um NÃO definitivo ao “camarada ” GP da COSTA. Vá se repousar em seu palácio privado que você construir graças aos numerosos anos de privilégios, de benefícios de altos cargos cujo o camarada Posser ocupou.
    Senhor Posser, vá descansar e aproveitar tranquilamente, com vida e saúde da sua aposentação. É o maior bem que lhe desejámos.

  4. Belo

    11 de Junho de 2021 as 22:34

    Eu assisti este debate e também fiquei desencatado. O candidato, senhor Dr.º Pósser da Costa, eu tinha muita esperança nele. Mas acho que ele tem um discurso e pose do regime único. Não explica as coisas com detalhe, com transparência e com interesse para as pessoas perceberem bem as ideias dele para o país. Dá muita volta, tem muitos gestos de boê, muita conversa para não dizer nada. No regime único também era mesma coisa. Ninguém compreendia a linguagem daqueles políticos e mentiam muito, enganavam o povo muito. Eu acho que alguns dirigentes desse tempo não cresceram, ficaram cristalizados como políticos. E também não gostei que ele não queria responder aos membros do painel que faziam perguntas. Assim não pode ser na democracia. Assim eu não acredito que ele ganha esta eleição.

  5. Monteiro

    11 de Junho de 2021 as 22:44

    Ainda bem que existe estas entrevistas para conhecermos algumas coisas que acontecem e ideias dos candidatos. Com todo o respeito acho grande maioria destes candidatos muito fracos. Eu vejo que Cabo Verde tem dois grandes candidatos para eleições presidenciais sendo que o dois já foram primeiros ministros durante dez anos pelo menos. Não vejo em Cabo Verde uma data de candidatos sem preparação. Os dois grandes partidos de Cabo Verde apoiam cada um deles um destes dois candidatos. Vejam lá a grande confusão que existe cá em S.Tomé. Isto diz tudo do rumo que o país está a seguir. É uma autêntica desgraça.

  6. Nanana

    12 de Junho de 2021 as 4:31

    Uma fiel e escrutinada leitura do candidato, caro Adelino.
    Estamos de facto, muito mal entregues, com quem nos está e quer representar.

    Um muito obrigada, por mais este exercício de Democracia, em complementar e ajudar a informar a nossa população com o resumo de cada entrevista.
    Bem haja

  7. José pires

    12 de Junho de 2021 as 9:51

    Mas o Posser quer mais o quê mesmo?
    Depois de mlstp ter governado todos esses tempos atrasando o país, alimentando a corrupção, querem perpetuar no poder para continuar a destruir essa terra roubando e perseguindo os outros. Este governo nem energia e água conseguem garantir as pessoas. O Jorge é um pau mandado que quando fala é so poesia. Essa maioria fala de corrupção mas na prática ela só serve para atacar adversários políticos. Este governo quer destruir os tribunais reduzindo salários de juízes e procuradores.
    Há anos o senhor posser destruiu o gabinete do procurador geral prometendo porrada.
    Vejam o mercado coco coco que mandou construir com tanto dinheiro de Taiwan. Uma porcaria de mercado.
    Por mim só pode ser presidente pessoas honestas e que tenha dado provas na governação pelo que não vou votar nesse senhor nem nos candidatos da nova maioria. Fui

  8. Mepoçom

    12 de Junho de 2021 as 15:49

    O que mais me encomoda são os profetas da desgraça, que depois de todos os males que causaram a este país, continuam aparecendo como Salvador. Falar de combate à corrupção, qual é o seu moral de pronunciar essa promessa? Um dirigente que foi, da sua reputação, que tentou agredir o procurador da República no seu gabinete por causa de uma acusação, um ex-dirigente que pronunciou publicamente que roubou, e não sózinho, tem moral para falar da corrupção? Falar de valores da família, um país que ao longo da independência nenhum presidente da República conseguiu apresentar a primeira dama, como família estruturada, vem prometer? Que demagogia! Povo não continue a comprar gato por lebre, por causa de 50 dobras e uma cerveja…

  9. Fuba cu bixo

    12 de Junho de 2021 as 16:16

    Os miúdos que nasceram agora podem ser enganados por este senhor Posser e Delfim,Eu nem com uma arma apontado a cabeça votaria nestes referidos senhores eles são as piores espécies de pessoas que apareceram em S.tomé e Príncipe,eles serviram da política pa proveito próprio e das suas elites e deixando o país no estado em que se encontra não valem nada.

  10. Pascoal Carvalho

    12 de Junho de 2021 as 23:18

    muito fumo preto.

  11. XYZ

    13 de Junho de 2021 as 14:33

    Esqueçam isso, o país não tem salvação com esta máfia que está instalada. Vai ser preciso uma grande revolução. Acreditem nisso. Eles vão continuar a controlar tudo e a mandar em tudo e dividir tudo entre eles enquanto dão-nos migalhas nas campanhas eleitorais. Abram olho minha gente.

  12. Voz do Povo

    13 de Junho de 2021 as 14:37

    19 candidatos para presidente da república e mesmo assim eu não encontro um deles em que eu posso votar e escolher. Alguma coisa está muito mal neste pais.

  13. Manuela Pedroso

    18 de Junho de 2021 as 8:28

    Senhor Posser mandou desempregar uma série de país de familia no supermercado CKDO, sem dó nem piedade. Não teve a hombridade de negociar com a empresa, mesmo a possibilidade de baixar algumas regalias se existem, com vista a garantir o pouco sustento destes chefes de família. Nada.
    Apenas pensou no seu salário chorudo que a empresa lhe paga, para sacrificar todos estes chefes de família. Este homem é um Judas, vende a família em troca de dinheiro.
    Ele é que é advogado de todas as empresas grandes no país. Sabem porquê? Não é por sua competência. Mas sim, porque todas sabem que ele é o único capaz de manobras os governos, a justiça, os sindicatos a seu favor. Ele tem o apoio dos políticos corruptos do país, e é o chefe da corrupção nacional e internacional, então as empresas aproveitam, pois sabem que nos países corruptos, só os chefes dos corruptos os podem defender. BANDIDOOOOO….

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