Opinião

A ONU: Promovendo os direitos humanos para todos? Não exatamente

É o tema do artigo de opinião de Shimon Solomon, embaixador de Israel em Angola, Moçambique, República Democrática do Congo e São Tomé e Príncipe.

A ONU: Promovendo os direitos humanos para todos? Não exatamente

A resposta patética e hipócrita da ONU ao horrível massacre do Hamas em 7 de Outubro atingiu um dos pontos mais baixos na escala de moralidade a que a organização se desceu desde a sua fundação em 1945.

As atrocidades cometidas pelos terroristas do Hamas contra homens, mulheres e crianças são matéria de pesadelos. Não só civis desarmados foram baleados e cortados até à morte, mas famílias inteiras foram queimadas vivas e bebés assassinados nos seus berços, enquanto mulheres e raparigas israelitas foram sistematicamente sujeitas a tortura, mutilação sexual e violação em massa, um crime contra a humanidade.

Mais de 1.200 israelenses foram massacrados no espaço de 24 horas, aproximadamente 360 ​​deles jovens mortos num festival de música. Outras 240 pessoas, incluindo crianças e idosos, foram raptadas, estando mais de 130 ainda detidas na Faixa de Gaza. Nem um único refém recebeu a visita da Cruz Vermelha.

O que fizeram as Nações Unidas face a estes horrores? Não muito. Na verdade, quase nada.

Desde a sua criação, Israel tem sofrido discriminação na ONU e uma atitude abertamente hostil por parte de muitos dos seus escritórios e agências. Sem dúvida, a conduta da ONU desde 7 de Outubro, que faz uma farsa do seu mandato de promover os direitos humanos e de tratar todos os seres humanos de forma igual, tem sido vergonhosa e deixará uma mancha na sua imagem que nunca poderá ser apagada.

A maior decepção foi a ONU Mulheres, uma organização supostamente dedicada à igualdade de género e ao empoderamento das mulheres. Depois de o Hamas ter utilizado a violência sexual sistemática como parte da sua estratégia de terror, e com as provas desses crimes a acumularem-se, como imagina que a ONU Mulheres reagiu em resposta?

Bem, durante cinquenta dias consecutivos a ONU Mulheres, sob a direcção de Sima Bahous, simplesmente ignorou as vítimas. Apesar dos testemunhos sobre o assassinato de mulheres, das imagens de mulheres raptadas, feridas e amarradas, da verificação de abusos sexuais, nenhuma prova teve o menor interesse para a Sra. Bahous. Só no dia 1 de Dezembro, quase dois meses após o massacre e a violação em massa, Bahous decidiu emitir uma declaração condenando a violência sexual perpetrada pelo Hamas, e isto na sequência de fortes pressões.

Nem Reem Alsalem, Relatora Especial da ONU sobre a violência contra mulheres e raparigas, ficou particularmente comovida com os relatos dos ataques violentos contra as mulheres em Israel. Quatro diasapós o massacre, em 11 de outubro, ela se apressou em escrever um post no X (antigo Twitter) de hipocrisia incomparável para alguém que deveria apoiar as mulheres, classificando essas contas como “desinformação”. Um movimento “ME TOO?” Não se você for judeu, muito menos israelense.

Estes dois altos funcionários responsáveis ​​pelas questões das mulheres, que recebem os seus salários dos cofres da ONU, abusaram do seu cargo. Em vez de serem a voz das mulheres que foram violadas, raptadas e assassinadas, alinharam-se com os terroristas que cometeram esses crimes.

Naquele dia terrível de Outubro, 39 bebés e jovens israelitas foram raptados para Gaza. Uma menina de 4 anos foi mantida refém sozinha após testemunhar o assassinato de seus pais. Em cativeiro, estas crianças foram sujeitas a terror psicológico, como serem forçadas a ver vídeos explícitos da violência bárbara do Hamas, e foram mantidas em condições subumanas, passando fome extrema e sem medicação.

Seria de esperar que a UNICEF, a agência das Nações Unidas para a criança, cujo lema é “para todas as crianças”, publicasse uma exigência fervorosa pela libertação imediata das crianças reféns, por exemplo, no dia 20 de Novembro, Dia Mundial da Criança. Mas nada disso aconteceu.

A Diretora Executiva da UNICEF, Catherine Russell, cancelou uma visita a Israel, bem como uma reunião com famílias de crianças feitas reféns, alegando que tinha sido ferida num acidente de carro, mas de alguma forma encontrou forças para visitar Gaza no dia seguinte. Tal como a ONU Mulheres, a UNICEF deixou a sua posição muito clara: “para todas as crianças”, excepto para as crianças israelitas.

Possivelmente o mais significativo de tudo é a indiferença demonstrada pelo Secretário-Geral da ONU, António Guterres, para com o sofrimento israelita.

É revelador que, ao denunciar um dos ataques terroristas mais brutais da história recente, o tenha feito de uma forma altamente seca e concisa, em nítido contraste com a linguagem emotiva que utiliza quando fala sobre os palestinianos.

Além disso, o Secretário-Geral considerou importante acrescentar aquele notório “mas” a cada frase. “Eles não aconteceram no vácuo”, disse ele em referência ao massacre de 7 de Outubro, como se houvesse um contexto em que a violação de mulheres, a queima de famílias vivas e a decapitação de pessoas inocentes pudessem alguma vez ser justificadas. Em vez de culpar clara e inequivocamente o agressor, na verdade Guterres estava sugerindo que as vítimas eram culpadas pelas suas próprias mortes.

Aos olhos dos funcionários e entidades da ONU, ser israelita é aparentemente justificação suficiente para ser torturado e assassinado.

E assim, a ONU, uma organização que foi criada, conforme especificado na sua Carta, para “reafirmar a fé nos direitos humanos fundamentais, na dignidade e no valor da pessoa humana, na igualdade de direitos de homens e mulheres e de nações grandes e pequenas” não consegue cumprir os seus compromissos mais básicos, pelo menos sempre que os israelitas estão envolvidos.

Essa, talvez, seja toda a história.

Por : Shimon Solomon, embaixador de Israel em Angola, Moçambique, República Democrática do Congo e São Tomé e Príncipe.

5 Comments

5 Comments

  1. Resistir

    26 de Dezembro de 2023 at 19:47

    Sr. Shimon Solomon, desculpe, mas o Hamas é tão terrorista como o governo Israelita com os seus colonos na Cisjordânia. O que o Hamas fez num dia os colonos têm feito ao longo dos anos. O Sr. não tem razão. Mostre que são civilizados e reúnam-se a volta de uma mesa e construam um país para cada povo, e vivam em paz. Deixe de crucificar o Guterres.

  2. Manuela Pedroso

    27 de Dezembro de 2023 at 21:37

    Israel é um país de terrorista e governado por terroristas. Israel não respeita nenhuma resolução das Nações Unidas. Israel ocupa território palestiniano a dezenas de anos e viola de forma constante todas as resoluções das Nações Unidas que determina que não devem construir colonatos nos territórios palestinianos.
    Israel sempre bombardeou o povo indefeso palestiniano, matando crianças velhos, mulheres indefesas. Os Estados Unidos de América que vivem a custa do dinheiro dos judeus que vivem na América, apoiam Israel na matança das crianças palestinianas, enviando bombas e armas para castigar este povo indefeso.
    Estados Unidos manobra o Tribunal Penal Internacional e faz desta instituição, um grupo dos seus serviçais e estão sobre mando dos Estados Unidos e Israel. Espero que o TPI acione o mandato de captura ao primeiro ministro de Israel, e os membros do seu Governo pela violação selvagem dos direitos humanos na palestina. Se o TPI não tomar esta decisão, peço a todos os Governos africanos para abandonarem esta porcaria de organização que está ao serviço de Israel e Estados Unidos.
    Quando o Putin retirou as crianças nas zonas onde ia bombardear na Ucrania para não morrer as crianças inocentes, o TPI mandou a ordem de captura internacional.
    E agora com a matança e assassinato de mais de dez mil crianças palestinianas, o que é que está a espera o TPI.
    Se depois desta matança toda TPI não tomar medidas contra este Estado Terrorista, e se os países africanos continuarem nesta organização, então os africanos serão mesmo considerados os governantes mais atrasados do mundo
    Viva o Povo Palestiniano
    Abaixo o Estado terroristas de Israel

  3. Melo Moreira

    27 de Dezembro de 2023 at 21:43

    Viva António Guterez. Viva o Secretário Geral das Nações Unidas
    Abaixo Estado Israelita manchado de sangue das crianças palestinianas
    Abaixo Estados Unidos e países ocidentais que apoiam Israel na matança das crianças palestinianas
    Força Senhor António Guterez

  4. Margarida Lopes

    28 de Dezembro de 2023 at 0:02

    É de facto verdade VERDADEIRA,sum RESISTIR. É um ESCÂNDALO esta posição de favoristismo CRIMINOSO dando apoio e razão ao Mais e ao PIOR terrorista nesta GUERRA no MÉDIO-ORIENTE. Eu estive naquela região em julho de 2022 e pude constatar/ testemunhar como são tratados os palestinos assim como os etíopes que vivem no terreno…é horrível. Qualquer ser humano, normalemente constituído,com o mínimo de noção da justiça fácilmente REVOLTA-SE, porque a categoria destas duas populações citadas sofrem e são maltratados pelos européus instalados na região que hoje se proclamam ser os DONOS da TERRA, os GENUÍNOS filhos do TODO PODEROSO e INTOCÁVEL POVO escolhido, que basta não estar-se de acordo com uma ideia, posição ou outra situação com estes individuos é-se logo considerado de ANTISEMITA.
    Será que se alguém não estiver de acordo com um negro é-se considerado RACISTA?
    Nós os AFRICANOS também fomos maltratados, fomos VENDIDOS, ESCRAVIZADOS, COLONIZADOS etc mas não é por isso que nos tornãmos INTOCÁVEIS e super-protegidos como bonecos de porcelana…embora nós não nos tenhámos reclamado os nossos direitos de JUSTIÇA para nos fazermos respeitar, nós continuámos o nos desvalorizar por aí fora, em vez de reveindicar a nossa ” VICTIMIZAÇÃO” de termos sido o 1° povo do mundo( que eu saiba) a sofrer o pior CRIME contra a HUMANIDADE. Cadê os nossos dirigentes políticos que nos representam para fazer valer este NOSSO DIREITO? Eles estão todos ocupados com a mais importante TAREFA CORRUPÇÃO pela qual os nossos países africanos lhes nomeiam.
    É assim, 😥 para a nossa DESGRAÇA…infelizmente !!!

  5. Edson Neves

    28 de Dezembro de 2023 at 18:21

    Sr. Shimon,
    Parece-me que o senhor não consegue enxergar os excessos praticados pelo Israel, não consegue perceber que o Estado Israelense vem bombardeando desenfreadamente escolas, creches, hospitais, sinagogas, bairros populosos e inclusive locais próximos aos campos de refugiados. Como diplomata conhece as Convenções de Genebra e de Haia sobre o Direito de Guerra 1864, 1949 e seus Protocolos Adicionais I, II e III que culminaram com a criação do Tribunal Penal Internacional (1998) visando estabelecer direitos e deveres das partes em conflito assim como proteger os civis.
    O senhor Shimon parece querer nos dizer que a vida dos palestinos vale menos que a vida dos israelenses, o que é inadmissível para uma pessoa que ocupa o cargo de alto prestígio como a que o senhor ocupa.
    Senhor deveria envengonhar-se de se posicionar de maneira tão incoerente. Não há proporcionalidade no uso dos meios que Estado Israelense lançou mão para combater o Hamas, está tratando toda a população inclusive enfermos nos hospitais como terrorista.
    O Estado de Israel é conhecido como o país que tem a polícia política (polícia de inteligência = Mossad) mais eficiente do mundo, portanto, deveria traçar estratégia para atingir de maneira pontual os líderes do Hamas e não bombardear crianças, mulheres, idosos e jornalistas que nenhuma relação têem com os atos terrorista de 07 de outubro.
    O seu país sr. Shimon, vem ocupando sistematicamente terras palestinas desde a criação do Estado de Israel na década de 60, desrespeitando resoluções da ONU, executando crianças e adolescentes que jogam pedradas nos soldados na fronteiras em reação aos assentamentos ilegais, a torturando cidadãos palestinos quando presos. Todos esses atos são vistos e acompanhados pelo mundo em silêncio desde a morte de Ariel Sharon e Isaac Rabin.
    Espero que quando acabar essa guerra os líderes do Hamas, os ministros Benjamin Netanyhau, Yoav Gallant e todos os comandantes do exército israelense sejam processados e condenados pelos crimes previstos no Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional.
    Senhor Shimon, agradeça a Deus (o mesmo Deus criador dos Israelense e Palestinos, porém, com nome distinto) por não ter familiares em região de conflito e não sentir a dor dos lá sofrem por não terem a paz.
    Que um dia Allah tire as vendas dos seus olhos e o senhor saiba o significado da empatia, justiça e igualdade.

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