Opinião

Quando o colectivo se sobrepõe às aspirações individuais

“– Quem estará nas trincheiras ao teu lado?

– E isso importa?

– Mais do que a própria guerra.” – Ernest Hemingway

O Comité Central da FRELIMO, Partido histórico de Moçambique, escolheu no passado fim de semana o “seu” candidato às eleições presidenciais de outubro de 2024, onde será conhecido o sucessor do Presidente Filipe Nyusi. Esse processo de escrutínio interno é de importância suprema para o futuro do Partido porque, em condições normais, o candidato da FRELIMO às eleições Presidenciais, em caso de vitória, tornar-se depois, naturalmente, Presidente do Partido. Tem sido assim desde do advento da independência.

A demora na conclusão deste processo deveu-se, numa primeira fase, à alguma indefinição por parte de alguns sectores da FRELIMO, em clarificar a possibilidade de um terceiro mandato do Presidente Nyusi (com a necessária alteração da constituição) e, num segundo momento, na dificuldade para encontrar, de “caras”, uma figura com peso político e projeção mediática nacional suficientes para emergir como o “candidato natural”, o homem ou mulher do momento e do contexto, que pudesse servir os superiores interesses do Partido e galvanizar os eleitores Moçambicanos, no geral.

Sendo um Partido organizado, estruturado e bem implantado, a FRELIMO acabou por fechar esse processo, com alguma serenidade e sem muito “barulho”, como habitualmente, pese embora a manifestação de interesse assumida por alguns proeminentes dirigentes, contrariando a indicação da Comissão Política. No final, 4 nomes prevaleceram na lista de candidatos e Daniel Chapo, de 47 anos, Governador da Província de Inhambane, um ilustre desconhecido para muita gente, superou os outros adversários, numa segunda volta contra o Secretário Geral e nº 2 da estrutura nacional, Roque Silva (que acabou por pedir a demissão depois deste desaire interno, já que “acreditava” ser o sucessor pressentido e predestinado). Os outros candidatos derrotados reconheceram a vitória do Chapo e colocaram-se à disposição deste para trabalhar em prol do Partido. Claro que deve haver algum descontentamento, alguns dissabores, mas nada transpirou para fora e tudo será resolvido em “casa”.

“Este processo não é apenas sobre a escolha de um líder, mas sobre a definição da trajetória de desenvolvimento e políticas que o partido seguirá nos próximos anos” – Essa tem sido a frase chave da maior parte dos analistas políticos sobre esse processo interno do Partido histórico de Moçambique.

Posto isso, quais as lições que a FRELIMO nos dá? Sobretudo a nós, do MLSTP/PSD?

1- Não há Presidentes predestinados. Não “cola” essa conversa de “agora é a minha vez”. Quem decide a escolha do líder são as estruturas e os Órgãos do Partido, colocando sobre a balança, não só as competências ou incompetências dos candidatos, mas também, vários outros fatores e condicionantes que podem influenciar positivamente ou negativamente o sucesso da estratégia eleitoral adotada pelo Partido. Não basta fazer carreira, não basta ter muitos amigos nos `órgãos decisores, não basta querer e estar disponivel, não basta prometer recompensas futuras aos seus apoiantes.

2- Independentemente das legítimas aspirações pessoais e sonhos de cada militante, no final, prevalece a disciplina partidária, a visão coletiva sobre o futuro e o respeito pela vontade da maioria. Nenhum dos candidatos se rebelou contra a decisão do Partido, nenhum dos candidatos colocou em causa a lisura do processo ou ameaçou sair para outro Partido e de certeza que estarão todos, lado a lado, na mesma trincheira, com o candidato oficial do Partido. Eles sabem que a vitória do seu candidato e a vitória da FRELIMO é muito mais importante que os seus egos ou seus interesses pessoais.

Muitos podem questionar alguma falta de democracia neste processo interno ou colocar em causa a legitimidade da decisão de poucos em relação ao futuro de muitos, mas a verdade é que a “coisa” tem funcionado, com resultados eleitorais positivos para a FRELIMO.

Noutra latitude, o MLSTP/PSD está a passar por um processo de reorganização interna que culminará com a eleição do novo Presidente do Partido e, consequentemente, do candidato natural (e com reais hipóteses de sucesso) ao cargo de Primeiro-ministro de STP. Os militantes do MLSTP/PSD têm que ter a noção desta grande responsabilidade, num contexto político e social adverso, em que o Partido terá uma “prova de fogo” decisiva nas eleições gerais de 2026.

Se é muito importante eleger um bom Presidente para o Partido, é mais importante ainda eleger um ótimo candidato ao cargo de Primeiro-ministro, que possa mobilizar os militantes, galvanizar o eleitorado, convencer a população e nos conduzir à vitória.

Há alguns meses da realização do Congresso eletivo, ainda prevalecem algumas pré-candidaturas ou manifestações de interesse, para o desgosto da maioria dos militantes e, se calhar, do eleitorado nacional, que clama por um MLSTP/PSD organizado, modernizado, revitalizado, coeso e unido, com ideias frescas, propostas visionárias e práticas inovadoras. O apelo tem sido para que os pré-candidatos conversem, tenham a humildade de ouvir a voz das “bases” e do povo, se entendam e sejam capazes de chegar a um consenso que nos permita também, de forma serena e sem muito “barulho”, fazer emergir o homem ou a mulher do momento.

Esse apelo é tanto mais importante quando sabemos que nos nossos processos eletivos internos, quando existem várias candidaturas, há um risco fatal de divisionismo e de dissidência que prejudica, em última análise, os superiores interesses do Partido.

Por isso, repescando a frase que utilizei no início desta reflexão, termino, reafirmando que mais importante do que a batalha eleitoral que se avizinha, é o próximo Presidente do Partido ver, na mesma trincheira, ao seu lado, todos os seus generais, capitães, tenentes e, sobretudo, os soldados. Para que isso aconteça, é preciso não deixar “feridas” abertas durante o processo eleitoral interno. É preciso, de uma vez por todas, começarmos a nos entendermos e nos colocarmos de acordo sobre o essencial.

Os militantes do MLSTP/PSD querem isso e a população de STP espera isso, para que o MLSTP/PSD possa se afirmar como alternativa credível e sólida ao atual poder.

Fica o alerta. A luta continua!

Wando Castro

 

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