Opinião

Crónica de uma Desgraça Anunciada

Desde a proclamação da independência, São Tomé e Príncipe tem sido refém de uma elite política que, em vez de honrar o sacrifício e a esperança de um povo, se dedicou a dilapidar o erário público, património moral, económico e social da Nação. Aqueles que prometeram libertar-nos do jugo colonial foram, afinal, os primeiros a subjugar o país aos seus próprios interesses mesquinhos, deixando um rasto de miséria, desordem e desencanto.

O legado que herdámos é vergonhoso. Primeiro, a destruição do Estado  não apenas das suas instituições, mas da própria noção de serviço público. Transformaram o poder num instrumento de enriquecimento pessoal, onde a competência foi substituída pela bajulação e o mérito pelo compadrio. Segundo, a corrupção moral e intelectual  uma geração de dirigentes e seus apoiantes que confundiram formação com sabedoria, títulos com virtude, e diplomacia com oportunismo. Hoje, vemos as consequências: um país onde reina a mediocridade e onde o cidadão de bem é oprimido por uma elite que perdeu a vergonha. 

Falta-nos liderança. Falta-nos carácter. Falta-nos a fibra moral de quem tem autoridade para criticar a geração presente. Porque aqueles que hoje se erguem em púlpitos ou escrevem como donos da moral em jornais como o Tela Non são, na sua maioria, os mesmos que falharam no exercício da decência quando o país mais precisou, não passam de “finguis lolo”. Não têm legitimidade para apontar o dedo a ninguém, pois foram eles os artífices do colapso nacional. “Galo cá bila vé ê cá muda canta”.

As casas deixadas pelos colonos, que deveriam servir de património público, foram saqueadas na calada da noite por mãos ávidas e sem escrúpulos. Roubaram não apenas paredes e telhados, mas também o símbolo de uma transição que poderia ter sido digna e civilizada. Essas mesmas mãos, travestidas de libertadores e intelectuais, transformaram-se em cúmplices da ruína moral da República.

A desgraça que hoje vivemos não é obra do acaso. É o fruto amargo do mau legado dos pseudo-intelectuais, dos que usaram a educação como disfarce da sua mediocridade e a ideologia como escudo para a sua ambição desmedida. Muitos formaram-se na URSS, em Cuba e em Portugal, mas em vez de regressarem com ideias para construir o país, voltaram com o espírito da dominação, do privilégio e da corrupção. As suas formações serviram-lhes apenas para aprenderem novas formas de roubar com sofisticação e discurso florido, como se não bastasse enviaram os vossos filhos os chamados “ filhos de gente gordo” os únicos que por muito  tempo tiveram direito a bolsas de estudos para darem sequência as vossas maquiavelices.

São Tomé e Príncipe continua à deriva porque os que deviam servir tornaram-se senhores, e os que deviam governar com ética converteram-se em mercadores da miséria alheia. E agora, quando a juventude desperta e questiona, os mesmos que falharam erguem-se em tom moralista, como se fossem exemplos. Mas não o são. São o espelho do fracasso, o retrato da hipocrisia e a prova viva de que o conhecimento sem carácter é tão nocivo quanto a ignorância.

Enquanto continuarmos a venerar esses falsos profetas do patriotismo, permaneceremos prisioneiros do passado. É tempo de romper o ciclo. De exigir mais do que discursos. De reconstruir um país que foi deliberadamente destruído por aqueles que diziam amá-lo.

Regino Inglês

São Tomé

13 Comments

13 Comments

  1. Juízo

    9 de Novembro de 2025 at 10:40

    Caríssimo, senhor que se gaba muito intelectual antes de escrever vê o que vai acrescentar e expõe um raciocínio com algum sentido. Foste para príncipe com muita velocidade mas estás com sorte que eles andam calmos… ganha juízo enquanto é tempo

    • Abucas Nazaré

      9 de Novembro de 2025 at 21:28

      Quem escreveu este comentário é certamente um dos que está no poleiro. A fazer ameaças a quem sente revolta. Tenha vergonha, 50 anos já foram suficientes para afundarem o país.

  2. J.CCosta

    9 de Novembro de 2025 at 11:51

    Está bonito o texto e a revolta nele contida,mas,
    O mais óbvio, e que sequer foi escrito no todo pela imaginação do articulista, pois na prática é um jovem mal-formado, arrogante e malcriado que por ter feito uma má licenciatura em direito à moda das nossas universidades e por saber usar a Inteligência Artificial para conceber o texto ora assinado, já acredita ser um jovem e novo revolucionário.

    Tenha dó, jovem Regino!!!

  3. Luís Maia

    9 de Novembro de 2025 at 12:42

    Uma análise perfeita da realidade actual. Uma vergonha e desrespeito pelo um povo inocente e sem chão.

  4. Mário

    9 de Novembro de 2025 at 14:25

    És o bom profeta, sr Regino?

    • Tainha

      10 de Novembro de 2025 at 8:50

      De nada sabemos(cidadaos e dirigentes, a sociedade civil organizada) sobre a importância do nosso solo, subsolo, ecossistemas, rochas, mar, vegetação, população, viabilidade economia, as estatísticas, sobre o mar e espécies que nele vivem, migram, visitam,…

      De nada sobre rochas do fundo do nosso mar, etc.etc…

      Só conseguimos alterar, modificar, desenvolver aquilo que conhecemos,…

  5. GANDU@STP

    9 de Novembro de 2025 at 14:57

    Boa tarde STP

    Concordo com o texto, uma frase fez-me comichão “A desgraça que hoje vivemos não é obra do acaso”.

    A nossa situacção não é unica, é vivida por toda AFRICA. O NOSSO CONTINENTE TEM SIDO PILHADO PELOS MESMOS DE SEMPRE!!!???
    Enquanto este facto não for a conclusão, e o principio da nossa analise, nada mudará.

    Temos que ter em mente que esses “RACISTS ALIENS” roubaram e continuam roubando, mantendo AFRICA na miséria.
    O JOGO POLITICO TEM SIDO UM INSTRUMENTO EFICAZ PARA A NOSSA DESTRUICAO.

  6. monte café

    9 de Novembro de 2025 at 15:56

    Tudo que o comentarismo é a realidade pura e cruél da nossa santomensidade! Os que governaram até então foram oportunistas e saqueadores do futuro que poderia ser risonho para todos os santomenses!

  7. monte café

    9 de Novembro de 2025 at 15:59

    Tudo que o comentarista diz é a realidade pura e cruél da nossa santomensidade! Os que governaram até então foram oportunistas e saqueadores do futuro que poderia ser risonho para todos os santomenses!

  8. Viá Malixá

    10 de Novembro de 2025 at 7:25

    De tudo do que escreveste (devemos) de perguntar,…porque que agem assim?

    Porquê que nós Africanos agimos assim? para com o nosso povo, a nossa terra, o nosso território, a nossa administração?

    Verás que a resposta estás muito muito atrás, 500 anos de dominação, extinção cultural, extinção da essencial do Homem, pensamento Africano?

    Leia a História de África, sem esquecer a do teu País, sincrónica, cronológica, económica e sociologicamente,…

    Procura entendera geografia de África, quer física, quer humana, a evolução do Homem Africano,…os processos pelo que passou,…a História das Famílias Africanas(a primeira instituição social), das São-tomenses,…estamos a falar de somente cinquenta anos,…(embora nada justifique tal comportamentos e atitudes, se não vaidade pessoal, política,…ausência de Justiça).

    Nós apreendemos muito a rir para fotos, sabem donde vem este ato, que nos leva a confundir a nossa simpatia, com seriedade?

    Os patrões(ocidentais/americanos) quando queiram tirar fotos com seus súbditos, pediam que sorrissem,…

    Por isso devemos para de arreganhar dentes quando queremos publicar ou aparecer(assinar acordos, normalmente de ajuda financeira, ou de investimento), o nosso semblante deve estar, ou deveria estar comprometidos com a miséria(pensamento e material), a fome, a pobreza da nossa população, território, administração, (pensamento e material),…

    O fato e gravata de que vestes para aparecer/publicar artigos, ir a uma conferência é outra desta realidade, é um comportamento condicionado da realidade descrita em cima, é cultura do outro, (já viste algum dirigente Chinês vestir e comportar assim), o nosso clima é quente e húmido, exige de nós vestes frestas no dia a dia, preferimos fato e casado gravada(porquê), sobretudo quando acabamos cursos

    A língua de que usamos para comunicar, mas de que expressamos e escrevemos mal, é outra desta realidade,extensível a África, é cultura do outro,…

    Enquanto jamais debruçarmos sobre estás realidade, jamais mudaremos, por mais estudos que tenhamos,..

    Continuaremos agir condicionados,….

    Enquanto jamais percebemos desta realidade agiremos condicionalmente,… no contexto atual do mundo.

    Jamais moldaremos o nosso caráter, atitudes, comportamentos,…

  9. Célio Afonso

    10 de Novembro de 2025 at 8:35

    Subscrevo na íntegra.
    O artigo retrata a realidade objectiva do nosso país país.
    Os comentários contra, só podem ser dos filhos ou parentes dos delapidadores do erário público.

  10. Conglôgí

    10 de Novembro de 2025 at 8:51

    De nada sabemos(cidadaos e dirigentes, a sociedade civil organizada) sobre a importância do nosso solo, subsolo, ecossistemas, rochas, mar, vegetação, população, viabilidade economia, as estatísticas, sobre o mar e espécies que nele vivem, migram, visitam,…

    De nada sobre rochas do fundo do nosso mar, etc.etc…

    Só conseguimos alterar, modificar, desenvolver aquilo que conhecemos,…

  11. Florêncio das Neves

    10 de Novembro de 2025 at 19:14

    Excelente texto que retrata bem a realidade dos “barrigudos de camisa justa” que povoam o poder neste país. Uma praga!!!
    Uma realidade infeliz para quem aqui vive e observa quem se governa e não sabe governar. Esta praga não é exclusiva deste país mas isso não pode nem deve nunca, servir de consolo. Esta gente atira STP cada vez mais para a idade das trevas.Pouco se constrói e cresce e, no entanto, tanto podia e devia crescer e construir. Só apostando, em primeiro lugar, na educação para que, da luz se faça justiça, se pode/poderia resolver parte deste problema. Enquanto houver a mama dos fundos da Europa e de outros países, estes “barrigudos de camisa justa”, solidários apenas com os da sua condição, irão florescer para irem vivendo em STP (às vezes) e, a maior parte das vezes em Portugal ou no resto da Europa. É uma vergonha. Mas é um facto.
    Parabéns pela coerência, pela coragem e pelo bom uso da língua portuguesa. Coisa que, pelo site, vai escasseando!!

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