A polémica à volta das novas regras da Escola de São Marçal — penteados, tissagens, uniformes, telemóveis — incendiou conversas em casa, nas ruas, nas redes sociais e até debates sérios. Uns aplaudem a disciplina; outros denunciam exagero ou eventual limitação das liberdades.
Mas o debate, tal como emergiu, ficou preso à superfície. A discussão não é sobre cabelos. É sobre futuro.
E antes de avançar, uma honestidade necessária: estas reflexões não se apresentam como diagnóstico técnico. São observações cívicas, empíricas, intuitivas — e profundamente ancoradas na realidade que todos sentimos. Precisam de validação especializada, claro. Mas não são inventadas do vazio. O país reconhece-as porque vive-as.
A crise disciplinar é real — e é grave
Há uma geração de jovens a crescer sem bússola emocional — porque a estrutura familiar está a ruir de forma preocupante.
Há sexualidade precoce, gravidez na adolescência, violência escolar, assédio, adultização* forçada. Há ausência de limites e há também, cada vez mais, a ausência de referências.
E tudo isto parece desembocar na escola, que passou a ser o último muro de contenção. Quando o lar falha, a escola tenta sobreviver com regras cada vez mais apertadas.
As tissagens, os cabelos, os brincos e os telemóveis não são apenas escolhas estéticas. São símbolos de uma aculturação “globalizada” que chega sem mediação, sem orientação, sem contexto.
A estética tornou-se substituto da identidade. E isso diz muito sobre o vazio emocional que deixámos crescer.

A crise pedagógica não grita — mas é tão profunda quanto a disciplinar
A verdade dói. Sejamos francos: estamos a formar adolescentes que não conseguem:
- ler com profundidade
- escrever com clareza
- raciocinar com método
- pesquisar com rigor,
- ou organizar um trabalho minimamente estruturado.
E vemos episódios como este — real, recente e pessoal:
“Numa reprografia, uma adolescente tentava concluir apressadamente um trabalho pedido há 15 dias.
Copiou-colou textos do Google sem compreender nada. Não sabia usar Word. Não sabia estruturar ideias. E estava desesperada.”
O problema não é o cabelo: é o caderno. É a lacuna cognitiva. É a ausência de competências mínimas num mundo em que STEM* (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), literacia digital e pensamento crítico já são apenas… o básico.
As duas crises encontram-se — e o choque produz o caos
O cabelo e o caderno, não são problemas diferentes. São faces da mesma moeda.
Indisciplina → baixa aprendizagem → frustração → mais indisciplina → mais autoritarismo → vazio pedagógico.
A escola tenta resolver um problema cultural com medidas disciplinares. Mas o problema pedagógico — que é a raiz — continua sem resposta robusta, eficaz e douradoura.
E, a isto, somou-se recentemente o zoplo político do Primeiro-Ministro, que no Dia da Juventude pediu aos jovens para serem “embaixadores da paz e do ambiente” — um discurso tão desconectado das suas angústias reais que quase pareceu um solilóquio*.
Os jovens e o país ouviram e terão sussurado caricaturalmente: Ké?
Qual é então o resultado: um curto-circuito nacional. Estamos a tentar corrigir penteados quando devíamos também corrigir competências.
O que as tissagens e os telemóveis mostram sobre nós
Mostram jovens à procura de pertença num país que não lhes oferece horizonte. Mostram inseguranças mascaradas de estética. Mostram carências afectivas profundas. Mostram a vitória da cultura de pixels sobre a cultura escolar. E mostram também uma ausência de política educativa capaz de enfrentar a globalização cultural.
Quando a escola perde força para transmitir valores, referências e cidadania, o telemóvel ocupa esse lugar — e fá-lo mal.
As regras de São Marçal importam — mas são cosmética se não forem acompanhadas de aprendizagem real
A direcção da escola fez o que pôde. Está a tentar pôr ordem onde o projecto de desenvolvimento no seu todo falhou. Telemóveis podem ser regulados. Penteados podem ser disciplinados. Uniformes podem ser exigidos — aliás, recordou-nos um professor, há regulamentos internos que merecem ser lidos.
Mas nenhuma regra muda o destino do país se as competências continuarem a faltar.
A disciplina organiza. A aprendizagem transforma. Mas sem aprender — não há soberania, não há liberdade, não há futuro.
Algumas perguntas que o país precisa finalmente de encarar
- Que jovem queremos formar nos 50 anos pós-independência?
- Disciplina sem competência? Ou competência com carácter?
- A escola tem condições e meios para ensinar o essencial?
- As famílias estão a cumprir o seu papel?
- As autoridades querem disciplina real ou só “parecer” disciplina?
- Estamos a preparar jovens para o século XXI ou para o século passado?
Conclusão FVV
O debate sobre São Marçal não é sobre tissagens. É sobre o futuro do país. Temos uma crise disciplinar que se vê. Temos também uma crise cognitiva que quase ninguém tem coragem de “denunciar”. Sem aprendizagem real, não há soberania possível.
“Os nossos jovens não precisam que lhes penteiem a cabeça. Precisam que lhes abram a mente.”
“Disciplinar é útil. Educar é essencial.”
E, para educar, o país tem de começar por reeducar-se.
No final do dia, importa, todavia, reconhecer: face às circunstâncias, a Direcção da Escola de São Marçal fez o que lhe competia fazer.
Mas o país tem de fazer o resto.
Chá de chalêla
16 de Novembro de 2025 at 16:32
Enquanto tivermos instituições fracas, a começar pela primeira instituição social-a família São Tomenses(problemas, falta de responsabilidade/responsabilização parental, poligamias, violência doméstica, violência/violações infantis, de menores adolescentes, gravidez precoce na adolescência, roubos, crimes, consumo de alcool e de estupefacientes pelos jovens e seus parentes, problemas de rendimentos, pobreza , miséria, a fome,…a deficiência de habitação, do saneamento do meio,…etc..),…dificilmente mudaremos a realidade institucional no país, pois que tudo o que tem passado dentro da família São Tomense, quer em São Tomé quer no Príncipe, no tempo e espaço, sincrónica e cronológicamente, teve, tem e terá reflexos nas instituições, na sociedade, na nossa comunidade,…
Solução a responsabilidade/responsabilização parental, institucional,…
Regras e procedimentos bem definidos
Instrução, educação, formação de excelência, para a cidadania
Reformas da administração pública, procedimentos administrativos, com relexos penais, avaliação das instituições, auditorias internas/externas, avaliação profissional, formação contínua, política de valorização, política de rendimentos anuais
Reforma efectiva sector da justiça
A cultura de trabalho, organização rigor, a responsabilidade, responsabilização,…
Antonio Jose Oliveira C. Martelo
16 de Novembro de 2025 at 18:47
Excelente texto!
Obrigatória, a sua leitura.
Grande proposta para reflexão.
Parabéns!
KM
16 de Novembro de 2025 at 19:02
Bom texto!
Boa leitura a todos!
Santo António
17 de Novembro de 2025 at 8:23
O Ministério da Educação, com base nesta situação deveria sim introduzir um Regulamento do aluno nas instituições educativas ao nível nacional
Santo
17 de Novembro de 2025 at 8:50
A educação escolar, exigida pelo liceu de S. Marçal, na qual eu me congratulo, não devia ser uma luta unitária, mas sim de todas as escolas básicas e secundárias ao nível nacional. Devia um Regulamento Interno, instrumentado pelo MECCES, para ser implementado nas escolas, com objectivo de resgatar a Educação Cívica na sociedade. A Educação, faz-se em casa, nas famílias e quando não acontece no berço,” dá o que dá ou deu o que está dando na falta de civismo e ética”
líbô d'auâ
17 de Novembro de 2025 at 16:16
Antes de levarmos a diante projectos, modernização, há que ter em conta conceitos de transparência, rigor, trabalho/trabalhar, organização, responsabilidade/responsabilização, justiça, a defesa, a segurança, a emergência, a sustentabilidade.
É necessário trabalhar, actuar, em rede, cooperação, parcerias estratégicas institucional, bem como a nível da sociedade civil, da nossa comunidade, dos cidadãos, para sedimentar os problemas de degradação, que afectam a instituição familiar SaoTomebses, neste caso, instrução, educação, formação, a saúde, desemprego, violência, violações, maus tratos infantism, trabalho infantil, roubos, crimes, consumo de alcool e de estupefacientes, emigração jovem,… a nivel nacional
É necessário acompanhamento institucional(envolvimento de varias instituições, responsabilidade, responsabilização, acompanhamento)multisectorial, multidisciplinar, aos cidadãos desde a concepção, vida, até a morte, medidas de acompanhamento, protecção familiar, de menores, jovens e idosos, medidas de prevenção, contra riscos de violência doméstica, violência infantil, violações, maus tratos infantis, abandono escolar, gravidez precoce, abandono infantil, consumo de álcool, de drogas, trabalho infantil, maus tratos a idosos, abandono de idosos,…etc, ao mesmo tempo que se implementa, politicas publicas de rendimentos, sobretudo das famílias, que se projecta a segurança alimentar, educação/formação, saúde, a justiça, segurança, protecção, politicas de habitação, a protecção ambiental, bom ordenamento do território, soluções económicas e financeiras.
felicidade
18 de Novembro de 2025 at 12:07
O que realmente adorei neste artigo, foram os comentários.
Comentários estes provenientes de pessoas cultas e cobardes e incluindo o meu.