A gestão do espaço público em São Tomé e Príncipe tem sido marcada, ao longo de décadas, por decisões tomadas sem uma estratégia integrada de desenvolvimento urbano. Muitas vezes, prevalecem interesses particulares ou de grupos, em detrimento de uma visão nacional que priorize o bem-estar coletivo e o desenvolvimento sustentável.
Em diversos sectores estratégicos, assistimos a concessões, cedências e autorizações que, para além de pouco transparentes, nem sempre obedecem aos critérios técnicos ou legais necessários. Não raras vezes, essas decisões são tomadas em gabinetes, bares ou cafés, à margem das instituições que deveriam pronunciar-se sobre matérias tão relevantes. Como consequência, pareceres técnicos bem fundamentados acabam por ser ignorados, sob o argumento de “decisões políticas” que frequentemente privilegiam interesses externos ao país.
É neste contexto que se inserem as atuais intervenções na Avenida Marginal 12 de Julho, no âmbito da sua chamada “requalificação”. Torna-se difícil compreender a opção por reduzir a largura da faixa de rodagem, especialmente num troço que já apresentava dificuldades de circulação — nomeadamente entre a antiga bomba de combustível e São Pedro. Sendo esta a principal via norte/sul dentro da cidade, seria razoável esperar o contrário: um alargamento da capacidade de tráfego, com criação de faixas adicionais que facilitassem manobras e reduzissem congestionamentos.
A ampliação dos passeios e a criação de uma ciclovia podem ser medidas positivas quando integradas num plano de mobilidade coerente. No entanto, quando feitas à custa da circulação rodoviária numa artéria fundamental, levantam dúvidas legítimas sobre a adequação do projeto às reais necessidades da cidade.
A introdução da nova rotunda em São Pedro é outro ponto que merece reflexão. O afunilamento da via, aliado à reduzida visibilidade — sobretudo à noite —, representa um risco significativo para a segurança rodoviária. Uma rotunda deve facilitar a fluidez do trânsito, não criar novos pontos de perigo. Fica a sensação de que o desenho urbano deste troço não beneficiou da participação das especialidades técnicas que normalmente integram projetos desta natureza, como a arquitetura paisagística e a engenharia de tráfego.
Mesmo num cenário futuro de criação de uma via rápida periférica que ligue a zona sul ao aeroporto, com ramificações para os principais eixos viários, a opção de estreitar a principal avenida da capital pareceria difícil de justificar. As boas práticas internacionais mostram que, tal como nas redes de água, telecomunicações ou saneamento, as zonas de maior concentração de fluxo devem ser dotadas de maior capacidade — neste caso, mais faixas de rodagem e melhor organização dos sentidos de circulação.
A Avenida Marginal, enquanto via estruturante, deveria manter dois sentidos bem definidos, separados e com múltiplas faixas quando necessário, para assegurar fluidez e segurança.
O que se observa hoje é, infelizmente, o resultado acumulado de políticas erráticas, avulsas e frequentemente desconectadas das regras básicas do planeamento urbano. É urgente que o país adote uma abordagem mais técnica, participativa e transparente na gestão do seu território. As cidades merecem projetos que respeitem a lógica, a funcionalidade e o futuro — e os cidadãos merecem decisões públicas que priorizem o interesse nacional acima de qualquer outro.
Jorge Torres
Hilarinho Carvalho
18 de Novembro de 2025 at 23:24
Estou totalmente de acordo consigo SR. Engenheiro Jorge Torres. Não entendo nada de engenharia mas para qualificar esta obra como sendo de mentes pequenas não preciso ser engenheiro de estradas nem estilista urbanístico. Pessoalmente já denominei a rotunda de S. Pedro como “A rotunda da morte”. A ver vamos!
Cleopter dos Santos
19 de Novembro de 2025 at 9:01
Concordo com o Jorge Torres.
Uma grande aberração e que os decisores políticos e os técnicos dos sectores com competência na matéria mantêm-se mudos e surdos.
Luís
19 de Novembro de 2025 at 9:14
Quero felicitar o autor pelo artigo.
Desde o início desta obra, que há muito se aguardava com expectativas, que vai chovendo críticas sobre a sua execução, nomeadamente sobre os aspectos focados nesta crónica e, em especial o estreitamento das vias. Muitos foram os cidadãos que manifestaram o seu descontentamento e a sua preocupação com o que acontecerá, no futuro, em termos de circulação. Nenhum residente em São Tomé terá dificuldades em antever o caos que se avizinha em termos de circulação rodoviária.
Apesar dessas manifestações múltiplas, não se viu ninguém para explicar quais os motivos para o estreitamento das vias. Nem falo da desnecessidade das ciclovias, numa cidade onde as condições geográficas não aconselham o uso da bicicleta para o dia a dia., apenas, como prática desportiva. A opinião pública precisa ser esclarecida sobre quem foram os autores desse desenho, se foi algo que nos foi imposto e porque o aceitamos. O que de facto se pretendeu com essa redução? Diminuir os custos com o betuminoso? E mais, o que se pretendeu com a construção dos passeios em calçadas de basalto????
Antevendo os transtornos que a nova marginal nos irá causar, sou de opinião que mais valia gastarmos menos dinheiro, fazendo obras de contenção contra a erosão costeira, reabilitando apenas os passeios e “tapando” correctamente os buracos da estrada. E se os financiadores nos dissessem é assim ou nada, deveriamos dizer obrigado, mas, vai com o teu dinheiro. Pois, na verdade, esta obra que custa cara, ainda nos vai custar muito mais no futuro, até porque, alguém haverá, daqui a uns anos, de tomar a coragem de requalificar esta marginal “requalificada”, eliminando as ciclovias para alargar a via. Não sei quando será, mas tenho a certeza que o será.
Convenientemente, não há nenhum esclarecimento sobre o porquê desse desenho, de forma a que a culpa morra solteira. Mas, uma coisa é certa, havemos todos de amaldiçoar este desperdício de dinheiro que estrangulou a circulação rodoviária e desfigurou e afeou a nossa marginal, acabando com os balaústres e criando uma calçada rústica de basalto e ainda por cima, com péssimo acabamento. Esta dita “requalificação” há de ser uma das maiores vergonhas de execução de projectos com apoio externo.
Bruno
19 de Novembro de 2025 at 13:55
Artigo interessante. Esse debate deveria ter ocorrido antes do início das obras, durante a fase de consulta pública. Mas já conhecemos a falta de preocupação dos nossos dirigentes em relação à inclusão. De qualquer forma, tenho uma opinião diferente da sua: acredito que se conseguiu encontrar um certo equilíbrio entre os peões, os veículos motorizados e os não motorizados. Eu quero ver mais pessoas a andarem na marginal, menos carros e velocidade reduzida. Não o contrário. Bicicleta e ciclovias sao bem vindas. Espero que se possa depois expandir para o resto da capital. Em São Tomé não temos ainda tantos carros que justifiquem o alargamento das vias, mesmo considerando o crescimento da população e, consequentemente, do número de veículos. Também creio que houve uma influência significativa do doador/financiador (Holanda), que possui uma visão urbanística clara e bem estruturada. Recomendo visitar algumas cidades holandesas ou procurar vídeos para perceber melhor essa abordagem. Pessoalmente, fico satisfeito em saber que finalmente teremos ciclovias em São Tomé e espero que essa iniciativa possa ser expandida para o restante da capital.
Victoriano Reis
19 de Novembro de 2025 at 15:21
Caro Bruno. Houve alguma consulta Pública? Aquilo que dizem terem feito foi uma simulação de consulta. Os ditos mentores desta BODEGA, já tinham tudo preconcebido. Porquê que até hoje não existe uma Maquete deste projecto? Os governantes não sabem que isto é elementar?
Porquê que não agem. Viram alguma vez uma equipa governamental acompanhada de gente que sabe e que presta a visitar a obra e a indagar, quer os técnicos projectistas quer os executores sobre algo desta empreitada?
Em condições normais, o Governo(PRIMATURA) devia ter assessores experimentados para auxiliar a entender e acompanhar esta Obra, que é vital para STP
Bruno
22 de Novembro de 2025 at 12:27
Meu caro, não sei se houve ou se não houve. Mas, conhecendo o nosso país, a verdade é que a culpa, no fundo, é de todos nós, saotomenses, que continuamos a remar em direções opostas. Não nos unimos em torno de um grande destino comum. Ninguém confia em ninguém. Acabamos por premiar a incompetência e a exclusão. Muitos ainda acreditam que ocupar cargos significa apenas mandar, sem prestar contas.
Deixando isso de lado, é sempre muito difícil agradar a gregos e troianos em projetos como este. Uns defendem duas vias para cada lado, outros rejeitam a ciclovia porque acham que vai tirar espaço dos carros, e há ainda quem recuse a ideia de termos calçadas portuguesas.
Enfim… eu só espero que, pelo menos, sejam construídas casas de banho públicas e que se ponha fim ao hábito vergonhoso de fazer necessidades ao ar livre na nossa marginal.
Matruço
19 de Novembro de 2025 at 16:40
Necessidade de planos de ordenamento do território, planos directos distritais, planos de pormenor, de desenvolvimento nacional e regional, se desenvolvimento distritais,…
Precisamos de conhecer o nosso território, população, administração, o que está debaixo do solo, acima do solo, no mar e em terra, as actividades e valências distritais, somente assim consiguiremos, presevar, modificar, alterar,… jamais somente esperar que outros ditem quando dão dinheiro,…
Aprendamos ninguém da nada a ninguém
Ama a tua terra, a tua cultura, a tuas gentes
Ajuda a desenvolver o teu país
Pratiquemos o bem
Pau Três
20 de Novembro de 2025 at 1:16
É imperioso modificar as estruturas e funcionamento, competências das instituições, pelo que no contexto actual de que elas existem e funcionam, já nada fazem sentido, assim como algumas legislação, que vêm do tempo colonial,…
Por exemplo,…
Temos os serviços de cadastro, ou departamento da habitação, que tem como uma das competências, atribuição de licenças de habitação, medicação de terrenos, etc…funcionam sem ter por base a cartografia, ou carta geológica, na ausência de um plano de ordenamento do território, que deveria existir a nivel nacional, distrital e regional para definição de competências e objectivos,…
É preciso mudar de paradigma,…instituição como cadastro deveria servir como entidade de certificação/fiscalização, de atribuições ligadas a habitação, sendo que transferência de competências na áreas de habitação, construção de estradas rurais e secundários m, a iluminação publica, os transportes públicos, etc,(premência de planos diretores distritais e regional, planos de pormenor), para esfera das câmaras distritais, mediante reorganização das mesmas(descentralização/desconcentração de poder de administração), atribuição de competências, receitas, desenvolvimento local, distrital e regional, que tanta falta faz para a sustentabilidade.
Outra realidade instituição desfasada no tempo, a empresa de água e electricidade nacional, a EMAE, soma prejuízos atrás de prejuízos, já a muito deveria se reformulada,….
São Tomé e Príncipe,tem agua a escorrer em todis os cantos, porquê que tem que ser a empresa EMAE, a gerir, todas as escorrencias e nasceste distribuição, cursos de agua de agua,….quando estas competências poderiam, devem ser transferidas à empresas camarárias ou privadas locais, distritais e regional, ainda mais, quando jamais devem ter uma carta geologica, das bacias hidrográfica nacional,… ficando assim somente com a gestão distribuição de electricidade, e certificação energética, emissão de pareceres para captacao e distribuição de agua(pois que existem populações localidades distritais que têm falta de acesso a estes liquido, libertando a administração central para outras realidades e investimentos por exemplo na saúde.
Jorge Costa
25 de Novembro de 2025 at 18:18
Essa construção da marginal é faltar respeito aos santomenses…