O calendário, 30 de abril, uma quinta-feira, do nada, pegou fogo. Há dias também de barriga cheia de preguiça para o jogo de palavras. Na realidade, um deles, é hoje, sábado, mais de uma semana decorrida da estúpida avaria mental do parlamento.
As persistentes questões sociais, económicas e políticas sem soluções à vista, duvido de que não possam ter com o “apagão” dos «santos da casa jamais fazerem milagres» à mesquinhez espiritual, incompetência, má-fé e ao irregular funcionamento das instituições. Até prova em contrário, a própria homenageada do Centenário, Alda do Espírito Santo, teve dedos metidos na intriga contra a nação, forçando à imitação, em cima de hora e precisamente decorridos os nove meses da gravidez; após o dramático aborto parlamentar, no ano passado, 11 de julho, da Cerimónia Solene do Cinquentenário da Soberania Nacional.
No beco sem saída, as várias tendências de bravura, indignação, deceção e estupefação da sociedade civil, não foram poucas na perspetiva de incendiar o país com tochas e manifestações de cortesia, humildade, gritaria, praguejo, repúdio, toalhas ao chão e dedos acusadores, mas os são-tomenses apanhados no vendaval, por excesso de zelo e patriotismo, se distraíram desse pormenor, não menos relevante. Por precaução, não foi obra do acaso, nem acessório eleitoral para que na inusitada fuga ao estrangeiro, o presidente do parlamento arrastasse o vice-presidente e a ministra da Educação, Cultura, Ciência e do Ensino Superior, em missões privadas e oficiais. Para fechar o cortejo de viagens e subsídios, o 1º ministro para ficar bem na fotografia, deu fuga aos pés e se refugiou mais próximo, na ilha do Príncipe, num faz de conta partidário e aniversário da autonomia regional. Só que dívidas têm pés. Na nova moda de velas à escuridão dos espaços públicos escuros, as câmaras ocultas bisbilhotaram o inacreditável. Fantasma no cancelamento do ato solene.
Sem olho-leve, nenhum dos enfurecidos, por mais radioso testemunho, deu sinal de que a circunstância parlamentar e governamental de costas viradas ao dia 30 de abril, a histórica data centenária do símbolo feminino nacional e maior que ultrapassa o intelecto continental, aquele contratempo na véspera de sexta-feira, feriado de 1º de Maio, Dia dos Trabalhadores, se deveu à teoria de conspiração impulsionada pela ousadia íntegra e intelectual da própria dona Alda Graça do Espírito Santo como repúdio ao estado deplorável e nojento da Nação. Não restam dúvidas de que a “menina” Alda, quem dispensava homenagens, porque não morria de amor que lhe acelerassem pés à cova, de longe, enquadraria naquele ambiente previsível tenso, derivado dos copos do meio-dia, por mais mascarados, mas armadilhados de vasta pobreza espiritual, incompetência legislativa e obediência luxuosa à maldição.
A ventania guerreira da Matriarca à repentina fuga de São Tomé das personalidades da linha da frente, foi nada menos que a advertência à garotada confiada pela maioria eleitoral, mas arruaceira, grosseira e sem caráter que se envaidece de ter assaltada a casa de democracia, tornando-a num ambiente lastimoso, analfabeto e de selvajaria, contrário à liberdade legislativa, ao contraditório dos acertos da prosperidade nacional e à fiscalidade executiva no Estado democrático do Direito.
Aos mais otimistas e apesar de confiança pessoal intermitente, o país respirou de alívio. Alguém meditou na integridade dos convidados; o presidente da República, as individualidades diplomáticas e inocentes crianças, caso o santo possuído pelas misteriosas velas, voltasse a subir cabeça dos deputados? Quem não faz crença na espiritualidade, basta emprestar olhos e ouvidos à “bagunça” parlamentar sobreposta ao lábio do presidente do parlamento nas humilhantes tentativas de pôr cobro aos festejos, insultos, palavrões e às ameaças a vias de facto de quebrar cara dos adversários no controlo do poder da selva.
Os convites cerimoniais por mais simbólicos, já foram rasgados. Os fatos arrumados em cabides, apenas recaindo a maior das preocupações nos gastos das ilustres damas carregando a cruz de estreia, até cabelos pintados, para cada exibição pública. Os homens nem estão aí. Trocam de camisa, se possível da gravata corrupta e apresentam-se sempre de autênticos fatos, exibindo elegância mesmo na ausência de excelência e competência. «Não há duas sem três, nem o mal que perdure à eternidade.» As crianças, ingénuas, apanhadas no meio do absurdo espetáculo, esperançosas no parlamento confiante ao padre e à boleia de ter saltado a pastor de nova igreja, ávidas por melhores dias, vão a tempo, leve-leve, de acreditar que Dom João Nazaré, o primeiro bispo, filho da terra, venha a carregar a Santa Eucaristia da Sé Catedral, num domingo eclesiástico, ao Palácio dos Congressos, aberto à religiosa fé pública para que o representante do Vaticano possa afugentar os maus espíritos e, de energia positiva, elevar reputação à nobre Casa do Povo.
Dona Alda, a luz brilhante em excesso à escassa moralidade nacional (menos a alma que não merece), continuará a ser a Mulher do “M” grande. Ofereceu sua juventude nos palcos académicos e de consciência africana, distante do Solo Sagrado, trilhando horizonte aos sonhos dos contemporâneos da época, os ilustres estudantes da Casa do Império que curvaram à grandiosidade da colega são-tomense. Amílcar Cabral, do PAIGC; Agostinho Neto, do MPLA; Marcelino dos Santos, da FRELIMO, são dos condiscípulos de luzes do nacionalismo africano vergados à cultura académica de uma negra africana, num tempo silenciado ao sexo feminino português, ocidental e mundial que não ousava do mais minúsculo direito público, cívico e político.
Combatente virada a resgatar a África do atraso e da opressão fascista colonial, o rumo foi cruzando com os conterrâneos Francisco José Tenreiro e Manuela Margarido; Noémia de Sousa, de Moçambique; Mário Pinto de Andrade, Luandino Vieira e António Cardoso, de Angola; Corsino Fortes, de Cabo Verde; na imensa lista de personalidades, para lá de fronteira continental, conjugadas na corajosa arma literária pela liberdade portuguesa e africana que se identificaram menores perante a inteligência singular e embarcaram os seus povos à dimensão intelectual, consensual e invulgar de Alda do Espírito Santo.
Cabisbaixo aos angolanos, políticos e literários, que já pude escutar tertúlia, deixaram sempre a sensação de pretenderem aquela deusa, a “tia Alda” para eles. Sinal mais evidente, quando ela esteve enferma, o presidente José Eduardo dos Santos, enviou a aeronave de solidariedade para que a equipa médica lhe encaminhasse à uma especializada clínica em Luanda. No dia 9 de março de 2010, num leito de Angola, apagou a brilhante luz à eternidade, mas antes, alicerçou na memória dos que lhe rodearam os últimos fôlegos, o coração de resistência, fidelidade e afetividade aos são-tomenses.
Não há assim, a mínima pretensão de magoar as cinzas da ilustre professora de gerações, poetisa e nacionalista africana de mão cheia. Fundadora da identidade nacional; autora do mais brilhante hino, em português; prestigiada oradora; patrona cultural do paço Fiá Glêza; vítima do Massacre de Batepá, em 1953; criadora literária da UNEAS; ministra; presidente parlamentar; conselheira e voluntária pública que deu corpo à emancipação, escolarização e valorização da mulher.
Para não ser a má fita do silêncio ao escuro do parlamento caído, em cima do ponto, sobre o Cancelamento da Cerimónia Solene do Centenário da Dona Alda Graça do Espírito Santo e desconforto do corpo diplomático e, em virtude, ser o réu acusado do arremesso do ouro da História da Humanidade ao caixote do lixo parlamentar, «Senhoras e senhores, uma salva de palmas – https://www.facebook.com/reel/938525169068207 – aos deputados da nação!»
José Maria Cardoso
09.05.2026
