E se o maior desafio destas eleições presidenciais não estivesse nos candidatos, mas na forma como estamos a olhar para elas?
Toda a campanha eleitoral revela algo sobre os candidatos. Mas revela ainda mais sobre a democracia que os produz.
A partir de amanhã, São Tomé e Príncipe entra oficialmente na campanha para as eleições presidenciais. Durante as próximas semanas ouviremos falar de candidatos, apoios, desistências, máquinas partidárias, capacidade financeira, estratégias e posicionamentos. Tudo isso faz parte de uma campanha eleitoral e merece atenção.

Mas será que é isso que mais importa quando um país escolhe o seu Presidente da República?
Talvez a pergunta decisiva seja outra:
Estamos a discutir aquilo que verdadeiramente importa para escolher o próximo Presidente da República?
É precisamente aqui que o Caderno FVV das Presidenciais pretende situar o debate.
Uma democracia não se mede apenas pela realização de eleições livres. Mede-se também pela qualidade do debate que antecede o voto. E esse debate revela-se tanto pelo que escolhe discutir como pelo que decide deixar em silêncio.
Até agora, a pré-campanha foi dominada por questões de elegibilidade, alianças partidárias, rumores, desistências, apoios, máquinas políticas, recursos financeiros e logística eleitoral.
Tudo isso faz parte da realidade política.
Mas não esgota aquilo que os cidadãos precisam de conhecer antes de votar.
Entretanto, permanecem praticamente ausentes perguntas muito mais importantes.
Que Presidente precisa hoje São Tomé e Príncipe?
Que perfil humano, político e institucional exige este cargo?
Quem demonstra capacidade para representar toda a Nação e não apenas os sectores que o apoiam?
Quem revela serenidade para prevenir, mediar e ajudar a resolver conflitos institucionais, em vez de os agravar pela sua excessiva proximidade a interesses partidários?
Que visão apresenta para o país?
Como entende exercer a magistratura de influência que a Constituição lhe confere?
E, já que tanto se fala de recursos e de máquinas, por que continua praticamente ausente uma pergunta tão simples quanto decisiva: Quem financia as campanhas presidenciais?
Não se trata de diminuir a importância dos assuntos que hoje dominam a campanha.
Trata-se de reconhecer que eles não bastam.
Quando uma democracia concentra excessivamente a sua atenção em determinados temas e remete para segundo plano questões estruturantes, revela também uma limitação da qualidade do seu próprio debate público.
É precisamente por isso que importa recentrar a conversa.
Uma eleição presidencial não serve apenas para escolher uma pessoa.
Serve para escolher quem representará a República, assegurará o regular funcionamento das instituições, exercerá uma magistratura de equilíbrio e ajudará a preservar a estabilidade constitucional nos momentos mais exigentes da vida nacional.
Os cidadãos têm, por isso, uma responsabilidade que vai muito além de acompanhar o ruído da campanha.
Têm a responsabilidade de escrutinar.
Para ajudar a recentrar esse escrutínio, o FVV propõe, a partir desta edição, a sua Matriz FVV de Escrutínio Presidencial: um conjunto de sete perguntas que qualquer cidadão pode colocar, de forma igual, a todos os candidatos.
Matriz FVV de Escrutínio Presidencial
Sete perguntas que qualquer cidadão deve colocar a todos os candidatos
1. Função
Compreende verdadeiramente o papel constitucional do Presidente da República?
2. Perfil
Demonstra serenidade, equilíbrio, sentido de Estado e autoridade moral?
3. Independência
Revela capacidade para exercer o cargo acima das lógicas partidárias que o apoiam?
4. Unidade
Tem perfil para representar toda a Nação e não apenas a sua base política?
5. Estabilidade institucional
Mostra capacidade para prevenir, mediar e ajudar a resolver conflitos entre os órgãos de soberania?
6. Transparência
A sua campanha é transparente quanto ao financiamento, aos apoios e aos compromissos assumidos?
7. Visão
Que ideia de país representa e que legado pretende deixar ao fim do mandato?
Talvez uma democracia madura comece precisamente aqui: na qualidade das perguntas que os cidadãos fazem antes de depositarem o seu voto.
É neste espírito que o Caderno FVV das Presidenciais inicia hoje o acompanhamento destas eleições.
Não para dizer aos cidadãos em quem devem votar.
Nem para amplificar o ruído inevitável de uma campanha.
Mas para exercer uma função de curadoria cívica: ajudar a recentrar o debate naquilo que verdadeiramente importa e propor um guião de reflexão que qualquer democracia madura deveria colocar perante todos os candidatos.
Nas próximas semanas haverá debates, promessas, polémicas, propostas, alianças e acontecimentos inesperados.
O Caderno FVV das Presidenciais procurará acompanhar esse percurso sempre à luz da Matriz FVV de Escrutínio Presidencial, procurando recentrar o debate naquilo que realmente ajuda os cidadãos a escolher o próximo Presidente da República.
Uma eleição presidencial revela sempre muito mais do que os candidatos que se apresentam. Revela também a qualidade da democracia que os produz.
E é por isso que importa recordar:
Uma democracia mede-se também pelo que está ausente. Mas fortalece-se quando os cidadãos colocam as perguntas certas no centro do debate.
Fla Von Von / Luisélio Pinto