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Durban+20: João Rosário, o perfil de um afrodescendente fazendo história em Portugal

PARCERIA – Téla Nón / Rádio ONU

As Nações Unidas celebraram os 20 anos da Declaração de Durban contra o Racismo no passado dia 1 de outubro.

A ONU News apresentou uma série especial; depoimentos e histórias de várias partes do mundo ilustram a luta contra o racismo, a discriminação racial, o estigma e a xenofobia. Neste episódio, acompanhe o percurso do jornalista João Rosário.

O jornalista e apresentador de telejornal João Rosário, nascido em Cabo Verde, já vive em Portugal há cerca de 50 anos. Foi para Lisboa muito pequeno, com apenas dois anos de idade.

Enquanto na infância, Rosário sequer percebia fazer parte de uma minoria racial, foi na adolescência que as diferenças ficaram claras. Já adulto, iniciou a carreira no jornalismo e conseguiu fazer história num país que segundo ele não está preparado para ver “rostos com cores na televisão”.

Raridade

ONU News/Caroline Ribeiro
Na Praça do Comércio, Rosário lembra do passado escravocrata de Portugal.

João Rosário foi convidado a ser apresentador de TV na emissora pública RTP, cargo que ocupa até hoje, sendo um entre os três únicos apresentadores negros do telejornalismo em Portugal.

O depoimento de João Rosário foi gravado na emblemática Praça do Comércio, em frente ao Cais do Porto, onde chegaram a desembarcar milhões de escravos. Um dos pontos centrais da capital de Portugal, a região é também local turístico, recebendo centenas ou milhares de pessoas todos os dias.

Lágrimas e sangue

Mas quem por ali passa atualmente, sequer faz ideia do passado escravocrata que o local carrega, onde era, inclusive, negociada a venda dos escravos:

“Este é o porto da cidade de Lisboa, dos tempos dos Descobrimentos, do século 15, do século 16, do século 17, por onde entraram milhões de seres humanos escravizados em África. A praça central de Lisboa, sendo este um sítio de dor, de lágrimas, de sangue, de milhões de seres humanos escravizados que passaram por aqui, é impressionante que hoje não haja uma única placa, uma lápide que seja, a lembrar o sofrimento dessas pessoas. Este é um lugar carregado de fantasmas.”

Na época da escola, na década de 1970, João Rosário era o único negro da sala de aula. Afirma que queria ter o cabelo liso como o dos colegas e não entendia porque tinha o cabelo “diferente”. Na adolescência, percebe que não é bem-vindo na casa dos amigos:

Receios e preconceitos

“Mais tarde, já adulto, sei que não sou bem vindo porque os pais (dos amigos) achavam que eu iria roubar. Este é o primeiro momento em que eu sinto essa diferença. No momento seguinte, é o momento dos namoros, em que eu sou o único negro num grupo de jovens brancos e é muito difícil para mim arranjar namorada. Elas tinham vergonha de namorar comigo e sobretudo, de me apresentar aos pais.”

Mesmo passando por momentos de discriminação, João Rosário seguiu em frente. Entra na universidade, com a intenção de se tornar professor de língua portuguesa. Trabalha como empregado de mesa (garçom), funcionário de um armazém, vende computadores porta-a-porta e finalmente, começa a trabalhar como redator em uma revista. Pensou que seria algo temporário, afinal, queria mesmo ser professor.

Rejeição

“Infelizmente não há um número de portugueses negros e negras capaz de fazer pressão no mercado de trabalho para atingir este tipo de lugares. E há, por parte das organizações, uma rejeição. Só recentemente é que um grupo de poucos pivots negros conseguiu impor-se, onde estou eu, está a Conceição Queiroz, na TVI, um mais jovem, na SIC (Cláudio Bento França). É esta a dificuldade que Portugal tem, que os portugueses têm, de se verem com muitas cores.”

Com uma trajetória de lutas, mas muito bem sucedida profissionalmente, João Rosário ainda tem dificuldades de ver progressos no combate à discriminação racial, mesmo 20 anos depois da Declaração de Durban. Acredita ser difícil quebrar a hegemonia e que as transformações podem levar “dezenas ou centenas de anos”.

O depoimento de João Rosário foi colhido na capital portuguesa, Lisboa, como parte da série especial da ONU News sobre os 20 Anos da Declaração de Durban, considerada um marco na luta global contra o racismo. 

Veja o vídeo : 

    4 comentários

4 comentários

  1. Chicote dochi

    15 de Outubro de 2021 as 12:27

    Muita coragem para aqueles que enfrentam o racismo. Especialmente para o jornalista João de Rosário de quem tenho muita estima, devido a qualidade com que exerce a profissão.
    Todavia há outro racismo entre os africanos onde uns acham que são superiores aos outros.
    Neste caso São Tomé e Principe não foge a regra.

  2. luisó

    16 de Outubro de 2021 as 18:48

    “Este é o porto da cidade de Lisboa, dos tempos dos Descobrimentos, do século 15, do século 16, do século 17, por onde entraram milhões de seres humanos escravizados em África. A praça central de Lisboa, sendo este um sítio de dor, de lágrimas, de sangue, de milhões de seres humanos escravizados que passaram por aqui, é impressionante que hoje não haja uma única placa, uma lápide que seja, a lembrar o sofrimento dessas pessoas. Este é um lugar carregado de fantasmas.”

    Isto não é verdade nem histórico. Entraram e passaram por ali alguns milhares de escravos mas nunca milhões de escravos. Os escravos eram arrebatados em áfrica e seguiam outros caminhos, brasil, américas, etc, e nunca passavam por Portugal, nem seria lógica e viável. Um minoria veio para servir em Lisboa e isso está retratado em inúmeras pinturas e escritos que existem. Para terminar informo que está previsto a instalação a breve trecho de um museu dedicado á escravatura em Portugal no campo das cebolas, logo ali ao lado.
    Obrigado.

  3. MÁRIO+MARTINS

    17 de Outubro de 2021 as 6:25

    Não podia ler e fingir de mudo. Por isso, antes de mais nada felicitar o João do Rosário pela coragem. Como João, somos muitos, muitos e muitos distribuídos desde Moçambique, Angola, Guiné Bissau, cabo-verde e são Tomé e Príncipe.
    Hoje Médico, por ironia do destino passei por coisas semelhantes e hoje dou o meu máximo pela Pátria que não me viu nascer, hoje dos meus filhos.Os africanos acabam por ser mais xenófobos para com os seus semelhantes. A escravidão teve tentáculos longos e mexeram com a dignidade de muitos de nós filhos de portugueses que não fomos pro-filiados porque a mãe é Negra. Não obstantes de termos nascidos no Território português( Êx-colónias) Somos portadores de DNA Português sem termos a cidadania porque não é possível nos arranca-lo. Recordar que os Cidadãos que emigraram para Angola ainda nos Anos 70, hoje aposentados portadores de Autorização de residência Vitalícias, foram substituídas pelas autorizações de Residência ao em vez de Nacionalidades. Enfim, a xenofobia e racismo devem ser banidos na humanidade contemporânea porque hoje somos todos parentes/ misturados. já são poucas no Mundo raças puras. Abraço e mais uma vez, parabéns ao João do Rosário.

    • Luis Paquete Teixeira

      14 de Novembro de 2021 as 12:38

      Não existe no conceito cientifico em Antropologia e Sociologia as cires das raças branca,Negra, amarela, vermelha para o ser humano. so existe uma raça que e a humana. Pois a humanidade teve o seu berço na Aftica oriental há cerca de 350 mil anos, com o aparecimento do Homo sapien. Neste contexto surgi a humanidade com caracteristicas bem distintas do homem do neandentral sendo o raciocínio lógico o elemento principal, assim como a modificação na sua estruturas fisica, anatomica e fisiológica . Há aproximadamente 300 mil anos surge a etapa das grandes migrações para Europa ,Asia, America e Austrália. Devido as condições climaticas e outras, proporcionaram as mutações genéticas destes seres para se adaptarem aos novos locais e as novas condições. É neste ambito que começa a sirgir variações morfologicas, na cor da pele, nariz, olhos, cabelos entre outras .pois aquilo que muito de nós considera como raça baseado na cor da pele é um conceito errôneo, que para os cientistas antropologos e outros do sec. XVIII, tomaram como referenciaa cor da pele e outros traços fisiologicos dos negros para hacersuperioridade entre os ser humano. Actualmente , para os cientista sociais, só existe a raça humana e a variação da cor da pele e outras constituem o que é denominada de etnias. Termino e bem haja para todos.

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