Sistema de Saúde São-Tomense – Vendas de medicamentos nas ruas

Breve nota: Este artigo não é escrito por um cidadão da oposição, nem tem o objetivo de colocar em causa o modelo de governação da atual titular da pasta. É escrito apenas por um estudante de políticas de saúde.

O sistema de saúde são-tomense enfrenta graves problemas, alguns de conhecimento público internacional que não convém aqui mencionar para não malbaratar o tempo dos prezados leitores. Muitos desses problemas não se alastram pela falta de financiamento para sua a resolução, mas sim pela ausência de estratégias por parte de entidades superiores.

A venda de medicamentos nas ruas de São Tomé e Príncipe é um exemplo claro de ausência de estratégia e um grande desafio do nosso sistema de saúde com riscos iminentes na saúde pública, nomeadamente riscos de consumo de medicamentos impróprios ou falsificados que podem conduzir à morte.Se o objetivo de um sistema de saúde é efetivamente o de conseguir mais saúde para população e lutar contra as doenças, o Ministério da Saúde, que tem a responsabilidade de tutelar todas as instituições prestadoras de cuidados de saúde no arquipélago, deve agir com prontidão.

A questão que se coloca é: agir como? Para dar resposta a essa pergunta, torna-se indispensável levantar uma outra questão pertinente. O que motiva um jovem para querer vender medicamentos nas ruas ao invés de praticar artesanato ou horticultura? Não há dúvidas de que a fragilidade do nosso sistema de saúde em si induz aos jovens uma perceção de que vender medicamentos nas ruas é o caminho mais fácil. Nesta ótica, continuamos a desconhecer o grau da importância que a saúde assume nas sociedades contemporâneas.

Como forma de salvaguardar a saúde pública, se é que ela existe, seria fácil dizer por exemplo que o Ministério da Saúde deve mobilizar o corpo policial para correr com os vendedores ambulantes de medicamentos. Por questões de humanidade, essa medida não é correta porque Infelizmente muitos desses jovens são vítimas de exclusão social e estão nas ruas em busca do “pão de cada dia” para sustento das suas famílias. O problema é tão complexo que podemos questionar de uma outra forma: o que motiva um cidadão para querer comprar medicamentos nas ruas ao invés de se dirigir a uma farmácia?

A resposta mais comum é dizer por exemplo que os preços nas ruas (mercado informal) são mais baratos do que nas farmácias. Mas não são. Numa conversa virtual com alguns amigos que trabalham no setor farmacêutico em São Tomé e Príncipe, eles alegam que, contrariamente, os preços praticados nas ruas são substancialmente superiores em relação aos praticados pelas entidades públicas legais.

Por conseguinte, cheguei à conclusão de que o acesso insuficiente aos cuidados de saúde, a fraca ação junto das comunidades, a debilidade dos cuidados de saúde continuados e ausência de um sistema de informação de saúde atribuem automaticamente ao cidadão o livre arbítrio de se automedicar, tendo em conta que os medicamentos vendidos nas ruas não carecem de receitas médicas.

Esta prática tem consequências nefastas para a saúde pública dos são-tomenses. Basta ver as condições em que os medicamentos são comercializados, na certeza de que o Governo e oMinistério da Saúde só vão agir quando houver mortes em massa de cidadãos que consumiram medicamentos impróprios adquiridos nas ruas. Questiono por que não atribuir um microcrédito a esses jovens para praticarem outros ramos de atividades? Se o país não dispõe de capacidade financeira para tal, o Ministério de Saúde deve ao menos identificar quem são, quantos são esses jovens vendedores ambulantes de medicamentos e atribuir-lhes uma formação sobre técnicas de conservação e composição dos medicamentos, independentemente dos níveis de escolaridade de cada um, para desta forma minimizar a situação. Muitos desconhecem o que estão a vender, só sabem que paracetamol é para dor de cabeça e febre. Sendo assim, todos nós somos farmacêuticos.

Existe no país uma entidade nacional reguladora de medicamentos? Se não existe, o Ministério da Saúde tem a incumbência de a fazer surgir rapidamente. Se já existe, devem fazer o jus do nome por via da fiscalização de todo mercado formal e informal de medicamentos noarquipélago. Deve também controlar a qualidade de medicamentos importados, e definir políticas de preços e comparticipação. Acima de tudo, tem de primar pela formação técnica de todos os agentes formais e informais que operam na comercialização de medicamentos, criar uma base de dados que contenha as informações dos medicamentos autorizados a comercializar no arquipélago. Numa fase pioneira, o Ministério da Saúde pode estreitar relações com as entidades internacionais reguladoras de medicamentos ou de alguns países vizinhos, de forma a obter informações mais detalhadas sobre a matéria.

O aumento da procura dos cuidados de saúde e a evolução da medicinaobrigam-nos cada vez mais a preparar o nosso sistema de saúde para dar resposta aos desafios do presente e do futuro. É urgente planificar a saúde no longo prazo e planificar com base na pergunta “como será o nosso sistema de saúde do futuro”?

Um exemplo de uma planificação de longo prazo no setor da saúde seria formar 100 farmacêuticos em 10 anos, formar 80 técnicos de análises clínicas em 8 anos, construir 5 centros de saúde em 10 anos, melhorar todas as infraestruturas de saúde do país em 8 anos, formar 50 médicos especialistas em 15 anos. Por outro lado, dados do próprio Ministério da Saúde revelam que há cerca de 70 médicos são-tomenses no exterior, mais do que aqueles que trabalham no país.

Pergunto eu: será que não há vontade por parte desses quadros da diáspora de regressar para dar o contributo à terra que os viu nascer? A questão não se aplica somente aos quadros da saúde.

Todos os que sentem o país no coração têm a vontade de regressar. Portanto, não basta formar ou mandar formar, cabe aos Governos desenvolverem políticas de atração dos mesmos, deixando de lado a absorção com base na filiação partidária, prática que tem sido moda no país, que ironicamente é caracterizado por um défice acentuado de pessoas qualificadas em diversos setores. Desse modo, o país continuará a dar “um tiro no próprio pé”, ou seja, a mandar formar para servir os outros países.

A planificação de longo prazo trará ganhos concretos e mensuráveis para o nosso sistema de saúde, desde que haja um pacto entre os são-tomenses que realmente querem o bem do país. Infelizmente em São Tomé e Príncipe, quando há mudança frequente de governos, a tendência é deitar tudo abaixo que o anterior executivo começou a implementar. O pacto implica a continuidade de planeamento e a sua execução, independentemente da mudança do titular da pasta de saúde, possibilitando também a constituição de um património de memória do sistema que impeça a repetição de erros.

Doutra forma daremos dois passos à frente e dois atrás e ao fim dos 30 anos, estaremos no mesmo lugar. Urge uma mudança de paradigma. Basta olharmos para os nossos vizinhos Cabo Verde e Angola: Angola tem maior poder económico do que Cabo Verde, mas tem um pior sistema de saúde, o que quer dizer quenão é somente a falta de financiamento que condiciona o avanço do sistema de saúde, é também a ausência de estratégias e objetivos.

Reconheço a incapacidade do nosso país em gerar riqueza para garantir a sustentabilidade financeira do sistema de saúde, mas com o pouco que temos podemos fazer mais e melhor. Fazer mais e melhor é gerir melhor, gerir melhor é combater o desperdício e traçar metas.

Mais saúde para um melhor São Tomé e Príncipe.

08.06.2017

Silton Monforte

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    Paguê Responder

    Ki dia que você ouviu ki alguém morreu pk comprou medicamento na rua? Falar atoa, esse Silton é um dismiolado, arrogante muda de vida deixa de escrever besteira. Não tens moral para exigir nada a ninguém não tens caracter. Ouve dizer ki Filipe quer te por como presidente de associação de estudantes da ilha do príncipe em Portugal no lugar de Daniel Crisóstomo, vamos ver nas eleições não tens chance, eu vou estar la para ti desmascarar voce tem complo com Filipe objetivo politico. Pergunta Silton e amigo dele Evilasio que é presidente da associação dos estudantes santomense em Covilhã onde tá 500€ ki Embaixada de São tome e principe em Portugal deu para festa do dia de africa em Covilhã. Eles sentou comeu estudantes santomenses em Covilhã não sabe disso. Vocês são boca com nariz É este jovem que vocês quer por como presidente de associação de estudante de principe? abrem olho com Evilásio e Silton eles já deveriam estar presos.

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      Boca fechada não entra mosca Responder

      Senhor ou senhora Paguê o Silton não é nada disso que estás aí a dizer. Tudo isso é inveja da tua parte,já deu para notar que não chegas ao pé dele.Tens como provar que ele comeu dinheiro? Você que é um grande desmiolado e analfabeto. Meus parabéns Silton, li e gostei do teu artigo. Força!

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    Vexado Responder

    Existem, salvo erro, 7 médicos desempregado em Stp. Mas o governo vai criar o tribunal constitucional.

    Eis a importância da coisa. População não é prioridade. Tacho e permanência no poder, o são.

    País subvertido.

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    Guida Gostosa Responder

    Sinceramente fiquei sem perceber a razão da advertência que o autor faz com a “Breve Nota” no início do artigo! Será que não se sente a vontade para expressar as suas opiniões? Da oposição ou não, a liberdade de expressão, pelo que sei, está consagrada na Constituição da República como um direito de todos os santomenses. Qual é o problema afinal?

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    João Viana Responder

    Silton meus parabéns. Sempre acreditei no teu potencial. Não dê importância a esses invejosos o caminho é para frente. Um forte abraço do teu amigo e colega do Liceu Nacional.

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    Príncipe Responder

    Parabéns Silton. O nosso serviço de saúde ainda tem muito que melhorar.

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    Papagaio Responder

    STP nunca irá para frente devido certos comportamentos dos seus filhos. O que associação de estudantes tem a ver com o artigo? O que 500€ da embaixada tem a ver com o artigo? Tenho acompanhado algumas escritas do Silton e são interessantes. Vamos debruçar no tema e deixa jovem com vida dele.

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    Manuel Rosário Responder

    A falta de emprego leva os jovens a se inclinarem a uma iniciativa empreendedora. Aqueles optaram por este caminho. Na minha opnião, o que quem d direito deve fazer, é ajuda-los, dando-lhes formações para que os mesmos possam melhor lidar com os medicamentos que vendem. Ruar-lhes não é a melhor solução neste país em que cada um tem que encontrar uma alternativa para se sobreviver.

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    zé maria cardoso Responder

    Um cidadão, autor do texto, jovem preocupado com a delinquência sanitária em que está sujeita a saúde dos são-tomenses, vem aqui levantar questões e identificar alicerces de melhoria – que deveriam constar das anotações do Chefe de Estado aos gritos do povo castigado – surge mais um mascarado a deitar-lhe gasolina para incendiar de seguida.
    Enfim!
    Meu caro Monforte siga em frente!

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    Cantagalo Responder

    Saúde em São Tomé e Príncipe está um caos. Senhor Patrice Trovoada cometeu o erro de casting, Ministra da Saúde já deveria estar fora do governo não está a fazer nada de útil. Como é prima dele de certeza que vai ficar até o fim da legislatura.

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    Inadelcio Freitas Responder

    Este País só vai dar um passo, quando os dirigentes perceber que o STP somos nós.

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