Governo anuncia também medidas para proteger empresas e empregos
Por : Wagner de Alcântara Aragão, especial para Téla Nón | 07.08.2025
Começou a vigorar nesta semana (na quarta-feira, 6 de agosto) a tarifa de 50% imposta pelo governo estadunidense a produtos brasileiros. De acordo com o vice-presidente Geraldo Alckmin, que é também ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, a nova tarifa atinge 36% das exportações do Brasil para os Estados Unidos.
Alckmin foi designado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para conduzir negociações e encaminhamentos relacionados ao tema. O vice-presidente tem reiterado à imprensa que a orientação de Lula é para não abrir mão de negociar. No entanto, a diretriz também é para não ficar dependente do que decidir ou deixar de decidir a gestão de Donald Trump.
Essa orientação foi reafirmada pelo próprio Lula na véspera do início da vigência do tarifaço, quando reuniu o Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável. Chamado de “Conselhão” o grupo reúne lideranças empresariais, sociais e políticas de diversos segmentos da sociedade. Lula afirmou que tem se empenhado pessoalmente na expansão de mercados.
De fato, a ampliação das relações bilaterais é uma marca da política externa do Governo Lula. Em seus dois outros mandatos (2003 a 2010), o Brasil estreitou laços comerciais (e culturais) com a América Latina, África e Ásia. Isso ajudou a tornar o país menos dependente dos Estados Unidos.

PARCERIA COM OS BRICS
Tanto que, hoje, o maior parceiro comercial do Brasil é a China. Nesta mesma semana em que começou a valer o tarifaço norte-americano, a Embaixada da China no Brasil comunicou que o país liberou quase 200 empresas chinesas para que comprem, nos próximos cinco anos, café brasileiro. O grão, que está entre os itens super tarifados, é dos principais itens da pauta de exportação do Brasil para os Estados Unidos.
Os demais países dos Brics – acrônimo para Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – também estão no radar do comércio exterior brasileiro. Neste dia 7 de agosto, quinta-feira, o Palácio do Planalto (sede da Presidência da República) informou que Lula conversou, por telefone, com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, para traçar ações conjuntas.
Para ampliar as exportações de médias e pequenas empresas, em julho o presidente Lula sancionou a chamada lei do “Acredita Exportação”. O instrumento legal prevê “devolução de tributos federais pagos ao longo da cadeia produtiva de bens industriais destinados à exportação”. O governo nacional calcula que 13 mil médias e pequenas empresas serão beneficiadas.
PROTEÇÃO DOS EMPREGOS
Além das relações externas, internamente o governo brasileiro trabalha em um pacote de ações para proteger empresas exportadoras e, principalmente, os empregos. Há uma preocupação especial com produtores de frutas do Vale do Rio São Francisco, na região Nordeste do país. O pacote está em fase de elaboração, incluindo, além da pasta comandada pelo vice-presidente Alckmin, os ministérios do Planejamento e da Fazenda.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, igualmente está na linha de frente das negociações com os Estados Unidos. Na quarta, dia 6, o ministro informou que tem reunião marcada para o dia 13 de agosto com o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, Por sua vez, a ministra do Planejamento, Simone Tebet, adiantou que um pacote de medidas para proteger empresas e empregos não deve trazer impactos significativos ao orçamento público.
COMPLICADORES
O tarifaço de 50% sobre os produtos brasileiros foi comunicado em carta pública pelo presidente estadunidense, Donald Trump, divulgada em 9 de julho. No texto, fica evidente se tratar de retaliação geopolítica ao Brasil, por pelo menos três motivos.
Um deles, o protagonismo do Brasil no fortalecimento dos Brics. Dias antes do anúncio do Trump, o Brasil sediou, no Rio de Janeiro, a Cúpula dos Brics, em 6 e 7 de julho. A declaração conjunta do encontro toca em pontos que desagradam os Estados Unidos, dentre eles a guerra tarifária.
Outro motivo está na proximidade entre o grupo político de Trump e o grupo político, no Brasil, ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro. A carta de Trump faz menção ao julgamento, em curso pelo Supremo Tribunal Federal (STF), do próprio ex-presidente e outras figuras de seu entorno, em acusação da Procuradoria Geral da República tentativa de golpe de Estado que culminou com a invasão da sede dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023.
O terceiro motivo se relaciona a posicionamentos do governo brasileiro e do próprio STF em defesa da regulação e responsabilização das big techs.
Principalmente esses dois últimos motivos ocasionam, internamente, complicadores ao governo brasileiro na sua luta pela soberania nacional, diante da retaliação dos Estados Unidos. Ocorre que em mídias digitais, atos de rua e no Congresso Nacional, os aliados do ex-presidente agem em oposição às estratégias do governo para blindar o Brasil das investidas de Trump.
*Wagner de Alcântara Aragão é jornalista e professor, brasileiro, atuando nos estados de São Paulo e do Paraná. É doutor em Comunicação. Entre outros projetos, mantém a Rede Macuco, veículo de mídia alternativa (www.redemacuco.com.br). Contato: redemacuco@protonmail.com.