«A vida, o dom de Deus à Humanidade, ninguém tem o direito de pôr fim a de outrem.» O comentário à crise da moralidade e decência espiritual, lido numa página estrangeira anunciante de mais um homicídio, me retirou da zona de conforto. Corri o cérebro veloz, em súplica, atrás de três recentes informações domésticas inflamadas de malvadez e crueldade. Não era para menos. As malandrices com que a justiça política dos quadrantes do poder, a todo gás, tenta apagar da memória coletiva as mãos dos homicidas de 25 de Novembro, manchadas de sangue, deveria penalizar o silêncio de gente lúcida e instituições internacionais dos Direitos Humanos.
Uma mãe, na jovem idade de Jesus Cristo, 33 anos, vítima da perseguida violência doméstica, foi assassinada em Pantufo pelo parceiro. O pai de filhos. Deixou cinco menores órfãos. Uma outra mulher, de Santana, também agredida pela brutalidade masculina, luta pela vida na urgência hospitalar. Uma idosa, infelizmente, de tantas outras largadas à margem da marginal Avenida 12 de Julho, depois de abusada sexualmente, foi assassinada por um monstro. Mais um monstro. As autoridades policiais na escassez de tecnologias forenses e científicas de caça às fantasmas, raras vezes, alcançam calcanhares de covardes, violadores e homicidas para a tranquilidade social, justiça consequente, reparação moral e reabilitação dos malfeitores. A fraqueza, gemida e revoltante, sensibilizou solidariedade pessoal às vítimas do feminicídio; criaturas vulneráveis, infantis, adolescentes e idosas.
Uma amiga “bagunceira”, das poucas que os maridos não intoxicaram o feitiço da infância, lá do pó da lama, onde descalços, rotos de pratos e calção ou saia dobrada à calcinha, exibia viola e pernas de brilho feminino adolescente com que os chutos driblavam bola de encher olhos aos rapazes, continua a fazer toda a diferença na relação adulta. Vence na invasão das partilhas, ainda que as avós precavidas – porquê dos avôs partiam cedo? – já embargavam a fiel amizade, «aqui no quintal, menina não brinca com rapaz». A Maria-rapaz foi sortuda não ter nascida, nem criada na Europa. De tempo em tempo para introduzir mau humor no amor cá do sítio, vai partilhando pé-de-vento. Por vezes, a coisa não sai barata, mas da sorte, não devo queixar à mim. «Você, é o homem da casa, pá!»
Convergimos no louco conceito dos cravos vermelhos erguidos contra o populismo e a favor de Eva Cruzeiro, a jovem deputada socialista, solitária, acantonada e esfolada pelo atrevimento de ir longe na ousadia de satirizar o racismo, agora mais do que nunca, estruturado de ódio e institucionalizado pela direita-extremista parlamentar. É fanática, a par de mim, da África ser ressarcida pelos transtornos da escravatura humilhante e comercializada secularmente por europeus e americanos que ainda escravizam mentes lúcidas. Que a China – outra bandeira – prossiga na “betãonização”; industrialização; digitalização e no avanço científico continental. Nas trocas bilaterais; no estímulo de fluxo comercial e aumento da competitividade africana. No aprofundamento da cooperação com a África e na implementação da tarifa zero aos produtos africanos para o peso económico equilibrado no gigante mercado chinês. Piss! Em deriva, precipitei lucidez à cidadania democrática.
Ela lança fogos de artifício com estereótipos fora da quadra festiva. Mais serena e sem gargalhadas, balança casca-di-maduro para que o chão escorregadio me parta cabeça. As mal intencionadas vêm armadilhadas. Não é que a última partilha: «Madrugada da marginal 12 de Julho em maus lençóis de sangue», para mexer com a sensibilidade matinal, deu boleia suspeita a um curioso alarido!? No mínimo uma mensagem tendenciosa para não ser provocatória. «Uma merenda jornalística. É para você apenas tirar um pé de dança à consciência pública da nação. Não sendo você parte do problema; como solução, evita qualquer juízo errado!». Desconfiei-me que nem a polícia na investigação criminal. Na outra teimosia, pus-me como médico na emocional reflexão para acalmar e salvar o paciente.
Apesar de tentação, como de rotina, não corri fôlego cima-cima atrás da novidade de sangue nos lençóis. Por mais carga de curiosidade exposta à janela, deixei para oportunidade oportuna. A emoção oblitera a razão. Com o controlo que a inteligência artificial permite os remetentes perseguirem as correspondências até entrada nas caixas destinatárias, hábil nas redes sociais, ela dá puxões de orelhas à agenda que me rouba disponibilidade para fora das notícias enviadas ao estojo das fofocas. Os atrasos, por mais compreensíveis, são inexplicáveis. Por vezes, mais de um mês.
Ligeiramente mais velha que o cabelo meio preto, meio branco, cá por cima do cérebro, sem juízo, há não muito tempo que é reformada. Os pés leves casaram entusiasmo à alma. De agenda livre e disponível para paródias como o temperado vento de primavera fazendo carícia ao chilrear de bandos e às passeatas das flores nas plantas, cada dia mais coloridas; dona do seu nariz, garante soberba, voa de geografia à história atrás de filhas e netos. Impressiona-me com o cabaz do antigamente, «nada melhor que ter crias e bastante para o aconchego das humildes bodas da velhice». Para encher o saco vazio, sem autorização, me entope de ciúmes com posts nas praças europeias que vai cruzando no turismo adaptável à solteira por prazer como que os homens, uns estúpidos e falidos, a par das promessas políticas, tornassem uns trapos inúteis.
Santomé com que manteve convicção míngua, mas repleta das saudades de décadas, à beira de trinta anos, sem ver cara – rendimento cobria a “Segurança Social” que enviava à mãe e o investimento na formação das filhas, hoje doutoras -, se tornou atrás de casa com os pilares de sonho de uma vida que está a erguer no solo pátrio. Com as viagens cada dia – não sei aonde a gente vai parar – a preço da casa de telha (nem de imaginar aonde chega a catastrófica inflação estimulada pela criminosa guerra de Benjamin Netanyahu com a cumplicidade imperial de Donald Trump no assassinato de humanos que nem bichos, e o presidente americano no paradoxo de Jesus Cristo a insultar o Santo Padre e a Santa Sé), a conterrânea deve manter à sete chaves algum bónus para a boa vida que beneficia de uma eventual agência aérea.
Apesar da flor que se cheira e da elevação dos contraditórios na democracia da camaradagem, como qualquer santa-pecadora – que seja surda – tem comichão na língua. Não é da idade de usar brincos na língua picante e de sal. A desgraça é outra. Defeito feio. Algumas da geração lhe cortam os olhos. É crítica acérrima de colegas que oferecem ao Estado alguma reserva da juventude. Vivem à sombra da energia de que a velhice, com o avanço da ciência na melhoria da saúde humana, é mais para lá da idade. Não lhe convenço que, por natureza, há pessoas a morrer de amor ao trabalho e bem-estar no refúgio solitário. Nada de chatices. Nem tempo aos netos, pior, agenda às paródias.
Hoje, sábado saudável pelos cartazes meteorológicos, sem a mais pequena pretensão de antecipar o falso julgamento e «Não sendo parte do problema», não resta alternativa que jogar intuição equidistante a um eventual feitiço contra o feiticeiro. Na realidade, há fins-de-semanas assim. Meios confusos como a barba por fazer no rosto matinal. «Como solução, evita qualquer juízo errado!», não será mais um pé-de-vento!? Com pé atrás à aquisição pelo governo, em um ano, de mais de uma dezena de geradores novos, rótulos equivocados, fofocas financeiras e dedos conspiratórios, estes de nada animadores à claridade da tonta escuridão do país de mãos no queixo e às escuras; clarividente, senti curiosidade espreguiçada em chamas da oposição. Para quê arrastar o bichinho atrás das orelhas da «Madrugada da marginal 12 de Julho em maus lençóis de sangue»?
Nesta histórica data, 25 de Abril, o Dia da Consciência Portuguesa, com os cânticos de ansiedade, mas comedido como aconselha o bom senso e num desafio à eventual emboscada – não seria a primeira -, corri a abrir a partilha de direito à partilha na página de prestação pública. Em 1974, os Cravos puseram fim ao mais longo jugo ditatorial europeu, à censura, prisão arbitrária, guerra imperial e às balas coloniais na África lusa. A Revolução dos Capitães de Abril fluiu trânsito humanitário luso-africano à liberdade portuguesa, dignidade humana e soberania dos povos de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe com o horizonte almejado no progresso da África.
Deixar certo ato para amanhã, nem sempre sai barato à manhã. Bati cara na parede. «Artigo indisponível».
José Maria Cardoso
25.04.2026
