Faz no sábado, o de virar da esquina e com o tempero acelerado às urnas populares, dois meses do incêndio no parlamento. Sem a água corrente, nem na boca de incêndio, os parlamentares do poder e parceiros, a um passo de vias de facto, ao som de baldes, panelas e latas acotovelaram-se na Praia Perigosa, na tentativa de salvar o parlamento. Os bombeiros, chegando a tempo e com água, por vezes, mangueiras ou outras avarias nas carcaças, simplesmente, revoltariam a população impávida. Controlado o fiasco carnavalesco e de irritação visual, nenhum incendiário foi responsabilizado, nem tão pouco reabilitou culpa no cartório, pedindo desculpas à nação. Não seria novidade, a cola “manga-baixo” pagar favas.
Isilda Quaresma, vista na penumbra e para quem não leva a sério os meandros da política, é a graça de rua da cidadã Ana, a vendedora do mercado de Bobô Forro que «queira sim, queira não», sem iluminados que lhe espelhem as boas práticas, tornou-se no meio da barafunda uma poderosa mulher para a consciência coletiva. A deputada pelo círculo eleitoral da capital, o mais iluminado na profunda escuridão do país, isto é, Água Grande; sabe e desde que o interesse feminino lhe abriu olhos à política partidária – ninguém precisa de lhe dar lição académica -, de que o palco do parlamento não deveria ser congregação para a participação pública de “palaiê”, “motoqueiro”, “candogueiro”, taxista, pescador, agricultor ou outro ramo similar de atividade produtiva.
A palhaçada afeta aos ilustres que penalizam a deputada, o “vizinho” da cerveja gelada, o “gaiato” eleito e os outros figurantes, uns acréscimos do ridículo à nobre casa da democracia. Para um político de visão, nos contextos eleitorais; tudo que cair na rede, é peixe para a engorda e o esbanjo partidário. Ponto final! A solidez convincente, bem desfasada de aliança ideológica e conhecimentos aplicados, sujeita-lhes somente ao escrutino popular, o que não acontece exclusivamente em São Tomé e Príncipe. Basta dar vistas aos eleitos pela boleia xenófoba da extrema direita portuguesa e aliados no cenário internacional com repercussão nociva à humanidade.
No contexto da singular missão, a deputada carrega no caderno de anotações, a urgência social na resolução dos graves problemas que com insistência, apesar de coreografia desarticulada e sem base estrutural que, na condição de porta-voz, emite no hemiciclo. Transportando o clamor do dialeto de fluidez maioritária nacional, o forro, não sendo a língua comunicativa de ambiente oficial, o pé-de-vento, ou seja, o problema mais crítico, são os golos que as palavras nela, sem pretensão maldosa, introduzem na baliza de português defendida pela Gramática da Língua. Aí dela!
Não foi a mulher pescada – sem escola – para estar em silêncio a imitar alguns dos eleitos que nada acrescentam, senão selvajaria e palmas à Assembleia Nacional. No mercado de Bobô Forro, na hora, caiem-lhe pesado que nem a chuva de abril. Deve ser a única parlamentar do país que presta contas à comunidade que lhe depositou voto à distinta cadeira. Ainda assim, como que na democracia a liberdade fosse opcional, a deputada a par do antigo ministro, o Abel agricultor, de intelectuais e militantes azulados, voluntariam-se a ser enxovalhados na praça pública derivado da corrente da escravatura que lhes amarra à dívida partidária. «Queira sim, queira não», há um rosto cuja lealdade democrática permanece-lhes contratados à eterna gratidão.
Salva do incêndio parlamentar, os deputados foram sensibilizados pelos canais do partido de que a casa sagrada, maldosamente, iria ser assaltada por gananciosos do poder que preconizavam, dentre muito, contrariar o sermão da manda-chuva parlamentar, anular diretrizes interpretativas e estratégias improvisadas, acendendo claridade ao apagão militar e homicida de 25 de Novembro.
Para evitar colapso à instituição de altivez do Estado democrático do Direito e que sustenta a distribuição do poder popular pelos quatro partidos políticos escrutinados aquando de 25 de setembro de 2022, ADI (maioritário absoluto), MLSTP, MCI-PS/PUN e BASTA (minoritário), a parlamentar foi emboscada na hora errada e no sítio errado. Sem carta verde à Universidade, a razão daquela segunda-feira, véspera de 3 de Fevereiro, de sol a florir nos seus olhos, teria de responsabilizar pelos danos políticos. No traje de simplicidade, afastou-se da multidão, introduziu “a bala na câmara” e, sem que ninguém imaginasse pela ação da deputada; pumba! Turbilhão na multidão. A fúria endiabrada, quase manipulada por um drone, para o sobressalto da assistência, acertou de cálculo milimétrico na fronteira da “fonte” e dos olhos da oposição. Falsos amigos alinhados na inveja e embriagados de ódio, simplesmente, conspiraram contra o caos.
A batalha parlamentar espelhada pela retirada na quarta-feira incendiária, 28 de janeiro, da antecipada derrota da inconsistente Moção de Censura encomendada pelo líder, obstinadamente no estrangeiro, desde logo, encerrou portas ao seu regresso e congresso de abril. Uns cálices na acostumada vídeo-conferência voltará a matar sede ao rebanho azul. No cenário degradante, haveria alguém de oxigenar a honra partidária, na hora, jogada ao lixo enjoativo. Na censurável imagem que rondava o mundo, o Secretário-geral do partido, Elísio Teixeira, apanhado de cabeça perdida, isto é, pendurado em maus lençóis – salto à vedação da Universidade Pública -, a batata quente caiu enfurecida nas mãos do socorrista de serviço. O quadro dirigente do estado e partido, entusiasmado, rogou mundo pela salvação da democracia auto destruída pelas orientações partidárias e ao mais alto nível que jamais permitiu liberdade interna de pensamento e criatividade à militância.
A agressividade na política apenas premeia e desnorteia a militância partidária. Distanciando-se de má-fé, na primeira oportunidade concebida pela legitimidade democrática da plenária à deputada Isilda – com nó na garganta -, colocou mãos na consciência. Apesar da forçada composição parlamentar, epicamente, sustentada pelos choques externos de ar fresco da oposição – em saia justa -, ao XIX Governo que de estandarte contínuo, desafia as orientações do próprio partido e mantém temperatura altíssima no hemiciclo, a deputada usou de franqueza da própria cabeça liberta das argolas partidárias para esbofetear os colegas de rosto mascarado. Comparou uma colega parlamentar de perfil de “palaiê” Ana, mas de gabinete. Pelo alcance retirado às consequências do ato retratado na Universidade, não fosse o momento político ruidoso, tenso e sem equiparação, a deputada Isilda merecia efusivos aplausos do parlamento (poder e oposição), em pé.
A parlamentar deu sinais de mulher de convicção, moral e ética. Na boa fé espiritual e harmonia cultural, de respeito pela adversidade democrática, deu passo atrás. Não se tratou de um simples pé atrás. Algo de relevância escondia aquela mulher na manga. Golo certeiro. Da tribuna do parlamento, corajosa e humilde, pediu desculpas públicas e sinceras ao deputado da oposição, Delfim Neves, o vitimado pelo galo da Universidade, isto é, na altura, a testa inchada. Mulher de estatura média, lavou a honra pessoal com modéstia pedagógica, demonstrando de que não são os dribles da língua cuidada pela academia e defronte às câmaras de audiência que atribuem dignidade ao rigor moral. São os pequenos gestos em extinção, é que garantem clareza à “rumba”, «diz-me com quem casaste e eu me ocuparei de limpar o teu carácter».
Assumiu pessoalmente o desnorte da “bala” lançada por si, desmentindo de forma categórica ao colega e porta-voz do partido, o professor Alexandre Guadalupe. Não fossem conflitos de interesses obscuros – tudo vale -, ninguém se ofereceria a fazer o ignóbil papel do deputado que terá retirado ilação de uma advocacia irrefletida, mentirosa, de menosprezo e poeiras à inteligência dos eleitores de Mé-Zóchi. Ela não cruzou mãos de “palaiê” nas lições à desonestidade intelectual. Exibiu mãos limpas, manifestamente, contrárias aos colegas políticos, os larápios do tesouro público, coloridos no sistema político e judiciário de lés-a-lés. Vendeu em alta a imagem da guerreira que simboliza as milhares de vendedoras que de sol a sol, trovoada ou bonança, batalharam e lutam no quotidiano e com sucesso, governam as famílias. Não se conformando com o pejorativo do líder aos eleitores, o «povo pequeno»; as Mães enviam os filhos à sabedoria e assumem com suor e energia de vencedoras, o pagamento dos estudos nas universidades no estrangeiro.
A deputada, apesar de apanhada pelo vendaval político de interesses pessoais e de grupos que, sazonalmente, desfere golpes à democracia com batalha de peito violento pelo controlo do poder em São Tomé e Príncipe, num passo atrás, conseguiu imprimir diferença na selva masculina. Pela grandeza de Março, internacionalmente, consagrado à Mulher, ela merece ser reconhecida de figura do mês. Senhora Deputada Isilda, Parabéns!
José Maria Cardoso
26.03.2026
