Num quase vulgar domingo de maio, as chuvas tinham abrandado e uma leve brisa se levantava, anunciando a proximidade da gravana.
As obras da marginal de São Tomé já tinham avançado o suficiente para permitir o usufruto de parte da orla marítima e eu, caminhante e amante do desporto ao ar livre, deleitava-me.
As Ilhas, insensíveis à mudança, viviam nessa semana o luto da ausente poetisa maior. Conceição Lima tinha falecido na sexta-feira anterior. Não havia luz. O bairro de São João, onde morava, passou, nesse dia, vinte e três horas consecutivas sem eletricidade. Acredito que a EMAE (Eletricidade de STP) havia previsto a morte da poeta e antecipara-nos o luto.
No Salão Nobre do Arquivo Histórico, não muito longe dali, velava-se o corpo da poeta, guardado por um grupo de fiéis amigos e familiares.
Eu vinha tranquilo, a passo, depois de ter corrido seis quilómetros, percurso que se concluíra à porta do Banco Central. Atravessei o passeio em frente à Cruz Vermelha e desci em direção ao norte, tendo à minha direita, do lado do mar, o aterro onde alguém, despido de vergonha, chegou a pensar instalar uma feira de peixe.
Quem passeia por aquelas bandas raramente olha para a bela e desprezada Capela de Bom Jesus, à minha esquerda, do lado da terra.
Os meus olhos, habituados a passearem-se com curiosidade crítica, fixavam a desolada praça-jardim da UCCLA, onde se plantaram roulotes, mesas e cadeiras de bar em vez de flores e plantas: a nova forma de «Amar STP», com mau gosto.
Na direção do antigo edifício dos Correios, hoje sede da CST, no pequeno jardim que nasceu em frente ao Cartório, uma bela fruteira crescera no centro.
Eis que os meus olhos se fixaram numa «fruta» que se soltou do ramo.
Como se em câmara lenta, vi uma fruta-pão a desprender-se do ramo, fruta criada «com lalu», selo e quase garantia de qualidade, como todos os nados das Ilhas tão bem sabem distinguir.
Os meus olhos seguiram a nobre fruta, que não tinha outro destino senão chocar-se com o solo, causando dano — a chamada «porrada» — que torna imprópria para consumo a parte da fruta eivada que contacta com o chão.
A falar para a minha camisola de desporto, ainda suada, congeminei:
— Como ficaria bem essa fruta assada!
Passei aos planos, levando-a comigo. Teria de arranjar carvão para a assar. Se me tivesse saído bem, descascá-la-ia depois de assada, cortá-la-ia em fatias e, numa travessa, levá-la-ia aos amigos que velavam o corpo da São no Salão Nobre do Arquivo Histórico.
Pensei: partilhar uma fruta apanhada na rua, transportada, despido de complexos, rua abaixo até à minha casa, num percurso de quilómetro e meio, sob o olhar do bota-abaixo cáustico dos ilhéus.
Ato contínuo, desistia da ideia pelo trabalho e pela perspetiva de tão pouco resultado, e voltava de novo à ideia de me apropriar da dita fruta-pão.
Eis que me decido.
Atravessei a estrada a passo largo e dirigi-me ao lugar onde tinha caído a fruta.
Tinha-a aos meus pés. Verguei-me e, ato contínuo, dei-me conta de um facto inesperado.
Sem ainda ter tido tempo de o realizar, ouvi uma voz, em tom seco e autoritário:
— Chefia, larga a minha fruta!
Levantei os olhos e divisei, por entre as grandes folhas da fruteira, o brilho de uns olhos faiscados de cobiça. Não me deixaram dúvida de que à ordem se seguiria a ação.
A fruta que eu já tinha por minha tinha deixado de o ser.
Empoleirado no ramo da fruteira, camuflado como um atirador de elite, estava o tipo que tinha tirado a fruta com a ajuda de uma pequena lança, prolongamento dos seus braços fortes.
Não me deixei derrotar de todo, apesar do inesperado sucedido.
Não desisti logo da fruta e, por momentos, voltei ao ilhéu que sempre fui:
— A fruta é sua? Foi você que plantou a fruteira deste jardim? O que faz você em cima de uma fruteira pública?
Toda uma argumentação que me legitimava a posse da fruta.
Por escassos segundos, irascível, disputei a fruta com o tipo que a tinha tirado.
Atento à minha própria argumentação, não me lembro de lhe ter ouvido a voz depois da ordem:
— Chefia, larga a minha fruta!
Por fim, a lucidez sobrepôs-se à minha ganância de típico ilhéu e disse para comigo:
— Genito, tem juízo. Não tens razão em disputar uma fruta que, não sendo «pau-bôbô» — fruta-pão que cai espontaneamente —, é de quem teve o trabalho de trepar à fruteira.
Não quis dar o braço a torcer. Deixando a fruta-pão no chão, segui o meu caminho a resmungar.
Quando dobrei a esquina, dei de caras com o segurança da CST e descarreguei nele a minha frustração:
— Onde você estava para impedir que tivessem trepado à fruteira pública nas suas barbas?!
O espírito vingativo dos meus genes assim se tranquilizou.
Segui o meu caminho com a frustração de não levar para casa a melhor fruta que os meus olhos tinham visto nos últimos anos.
Só mais tarde me dei conta da figura triste que acabara de representar.
O indivíduo que trepara à fruteira conseguira, com um pequeno gesto, pôr-me à prova. Por alguns instantes, deixou-me despido da leve camada de verniz civilizacional que eu julgava trazer comigo.
E foi aí que percebi que a fruta nunca tinha sido apenas a fruta.
Era a minha fruta.
Tinha-a visto cair. Tinha-a desejado. Tinha-a imaginado assada, descascada, cortada em fatias e levada aos amigos que velavam a São.
Tinha-lhe inventado um destino nobre.
E, mesmo assim, quando alguém apareceu a reclamar o que era seu, o que primeiro me ocorreu foi saber se tinha direito a tê-la.
Bastou uma fruta-pão.
Uma simples fruta-pão.
Cola Manga-Bassu a reconhecer-se, nacional, mesmo quando não é melhor.
Pensado em São Tomé e passado a lápis em Lisboa, depois de muitos dias a amadurecer as ideias.
Lisboa, 6 de setembro de 2026