São Tomé e Príncipe, licenciado em direito eleitoral, transitou com excelência no mais recente show de mestre em Sufrágio Universal, Livre e Direto, consumado no passado domingo, 27 de setembro.
Ainda assim, o país entrou numa espécie de bolha, derivada do baralho eleitoral que confundiu as identificações, os currículos e as ambições dos dois principais protagonistas, num declarado peito-a-peito. “Américo! Caso, eu não chefiar o XX Governo, você, Américo, também não governa!”
Américo Barros, o economista, antigo Governador do Banco Central e líder do MLSTP, ganhou as eleições, arriscou o executivo e hipotecou o juízo político.
Américo Ramos, o economista, antigo Governador do Banco Central e líder de ADI, perdeu as eleições, repescou o executivo e consagrou o juízo político.
O auto declarante vencedor, Américo Barros, em grito do galo de Riboque, na segunda-feira, pós eleitoral, cedo, acordou a cidade e prometeu para o fecho do dia, a poluição sonora na capital. Precipitou-se em 26 mandatos. Foi deficiente em ajustar-se à oportuna bondade de desgaste governativo, guerrilha interna e gestão conturbada do mais direto concorrente. Privilegiou caça às bruxas no seu partido que, feita as contas corretas pela Comissão de Apuramento Parcial, apenas conseguiu os 24 assentos parlamentares. Resultado muito poucochinho para o contexto, há muito, serenamente festivo e de antecipada vitória absoluta.
O concorrente vencido, Américo Ramos, perante o intenso confronto com os discípulos do rei morto, ou pelo menos, em coma profundo enquanto as expetativas do mercado não se descarrilarem em saldos negativos ao XX Governo constitucional, angariou os preciosos 23 assentos no parlamento que bem necessita para marcar o seu campo político e projetar a vitalidade do partido.
A questão a não dar sono ao projeto, «O país em primeiro lugar», de longe, de nada tem a ver com a dupla dos economistas, os Américos, mas sim, Nino Monteiro, empresário, presidente da Federação São-tomense do Futebol e líder da coligação da roça, o excluído pelos peritos e analistas.
Caso o MCI/PS-PUN, ganhasse as eleições com qualquer que fosse a maioria, qual seria o desfecho político? O presidente da República, no estrito cumprimento constitucional e com o aval eleitoral dos juízes do Constitucional, recusaria dar posse de primeiro-ministro, ao Nino Monteiro, a candidatura que enfrentou tempestades, sem sequer o fôlego do desespero e da birra do chefe?
Exigente nas promessas de dignificação rural com as prestações de emprego, luz, água potável, hospital, educação e na revitalização de estradas e infraestruturas produtivas, habitacionais e sociais, ou seja, a coligação prometeu levar o centro das decisões políticas, económicas e sociais à melhoria da vida das populações que vêm valendo os votos ao partido com bastião no sul de Santomé e a reserva energética nas antigas roças de produção da riqueza nacional.
Daí, a outra grande questão dispensada de sombra ao projeto de harmonia presidencial. O MLSTP, desde 6 de janeiro de 2025, assumiu os riscos de comunhão eclesiástica e sustentou, sem hesitar, todas as homilias do presidente da República e da ADI, infringindo derrotas consecutivas ao então chefe do partido, radicado no estrangeiro e a latir sempre que vê sombra imaginativa.
Aprovou o Programa do XIX Governo, as Grandes Opções dos Planos e os Orçamentos do Estado. Associou-se na queda do antigo e a consecutiva criação do novo Tribunal Constitucional. Colaborou na rendição estrondosa da presidente do parlamento e na consequente elevação do vice-presidente, independente. Derrotou a Moção de Censura e, finalmente, de estratégia vitoriosa, reelegeu e à 1ª volta, o engenheiro Carlos Vila Nova, à Suprema Magistratura de Chefe do Estado são-tomense.
Essa elevada quota democrática no horizonte nacional, recaiu nos sérios custos ao partido, espelhado no mais recente, o tiro ao peito de Jorge Bom Jesus, anterior líder partidário, antigo 1º ministro e pretendente presidencial, e os seus correligionários, com o ricochete fatal nos deputados de visibilidade da derradeira legislatura. Qual a moeda de troca?
O país reclama a convergência nas grandes opções estruturais, na revisão da Constituição (há vinte anos na geleira) e na adequação do desenvolvimento às mudanças climáticas, mas sem uma oposição clara e forte, a proponente legislativa, decisiva no debate do contraditório e fiscalizadora das ações executivas, como vislumbrar o poder forte?
Nos caraterísticos jogos de interesses pessoais e de grupos, a ruidosa cantiga do governo de Salvação Nacional, Unidade Nacional, Consenso Nacional ou merenda, antes testada no país, não passará de danças do clube de amigos, com máscaras e sem máscaras carnavalescas, na divisão de cargos e tachos acessíveis à corrupção e assinada pela justiça cúmplice.
Na conceção da democracia, a saída séria e responsável de governação, deveria passar pelo poder de Caué – jamais inimigo na política – representado ao mais alto pelos filhos das roças, enquanto a pujança rejeitada por várias correntes de análises eleitorais. A coligação do sul, é que tem o XX Governo fechado nas mãos para jogar no lixo quando melhor achar oportuno. Cedências, desde logo, no governo, o ministro Nino Monteiro, e ou no parlamento, uma das vice-presidências à deputada Beatriz Azevedo, garantiria o acordo de sustentabilidade executiva para a legislatura.
É na tempestade – a velha bússola dos chineses – que se fazem os bons marinheiros. Na semana pós eleitoral, essencial de encontros e acordos liderados pelo vencedor das eleições, pese o sabor amargo, com os três lideres dos partidos e a sociedade civil, ao possível sustento governativo; os 6 assentos parlamentares do PUN, apesar da génese empresarial e do fedorento casamento com o diabo, deveriam ser privilegiados como solução de estabilidade às divergências políticas.
A corda jamais deve partir ou repartir nas garrafas de Rosema, a cervejeira reentregue ao dono natural que sustenta o mercado de emprego e paga os impostos ao Estado para a dinâmica económica do país do Rendimento Médio. Trazer à mesa de negociações essa bebedeira, rejeitará o MCI/PS-PUN a acatar com as consequências do diabo com o fogo no rabo e não de Adão, um dos anjos de Deus, cujo o homem herdou as imperfeições.
Essa visão governativa eficaz às instituições democráticas e de sustento parlamentar, a não rejeitar os 2 deputados do BASTA, relegará a ADI à oposição forte, consciente e responsável, tão ilustrativa ao consenso nacional de arquitetura assente nas grandes opções estratégicas do arranque económico e estruturais de desenvolvimento do país, de responsabilização e da oportuna revisão constitucional.
O XX Governo, produto negocial com os holofotes na agenda presidencial e na continuidade do Estado espelhado pelas políticas vislumbradas pelo cessante ministro da Economia e das Finanças, Gareth Guadalupe, só para a segunda semana do próximo mês, é tempo de gravidez absurda, sob o risco de aborto. Conferida por matemáticos e juízes distritais, a verdade eleitoral, a partir de amanhã, segunda-feira, na confiança dos constitucionalistas, os passos subsequentes, isto é, a tomada de posse dos deputados e do novo 1º ministro, deveriam dar a luz imediata.
Permitir fechar a atual legislatura, conturbada, fraquinha e dispendiosa, só no dia 10 de novembro, apenas dispensará o presidente da República, de cabeça fria, em não fabricar a bomba palaciana para rebentar com o vencedor, poucochinho, das eleições, o economista Américo Barros.
O Secretário-geral do parlamento, Domingos Boa Morte, na preliminar missão à inaugural sessão da tomada de posse do novo figurino da Assembleia Nacional, caso o MLSTP esforçasse na observância à Lei de Paridade, um peso pesado e de bagagem legislativa, nesta altura, haveria de ser a candidata convidada a encomendar o fato da nova presidente do palácio legislativo.
O país ofereceu música clássica ao som de rumba às celebridades do mundo – não foram poucas -, que testemunharam a originalidade dos insulares. A lógica assertiva e relevante à pequenez das ilhas, foi demonstrativa do exemplar, dócil e hábil homem são-tomense em administrar lições ousadas, não especificamente, à África.
Permaneceram em casa, os cidadãos desesperados que, em plena faculdade de cidadania, recusaram exercer o direito democrático consagrado na Constituição da República e, não só. A mobilidade populacional para os países estrangeiros, imposta pelo êxodo migratório dos últimos quatro anos, acima de cinquenta mil indivíduos, desconhece do novo registo automático eleitoral que atira os cidadãos, a partir dos 18 anos de idade, aos Cadernos Eleitorais. Atentos, devem atualizar as residências, num simples telefonema.
José Maria Cardoso
04.10.2026
