Opinião

A Eterna Viagem do Reverendo Padre Domingos

Na suada tarde de quinta-feira, 16 de julho, uma partilha no moderno e frequentado expositor enquadrado na nova pujança comunicativa das redes sociais, acessível ao bem e mal, o popular Messenger, anunciava o fim da vida do padre Domingos, ocorrido no dia anterior, em Portugal.

Apesar da notícia esclarecer que o missionário esteve em Santomé e pastorou entre nós, as ovelhas espirituais do Senhor; embriagado na rotina das exigências do corre-corre profissional, confesso, nenhum manifesto de interesse veloz, para mal dos pecados, foi transmitido pelo alarme fúnebre. Mais uma alma humana de viagem ao reino celestial. Nada mais.

Na sequência do reabastecimento da energia laboral, outra pausa, uma segunda partilha também passou-me ao lado até que à terceira, não há duas sem três, o cérebro na razão espiritual peneirou as poeiras do pecado e deixou cair ao coração uma claridade emocional. Formatado pela fé católica, com os pés seguros no chão, como é exigível, corri a conectar na criatura do missionário.

Na missão da Santa Sé, no Pontificado do Papa João Paulo II, o padre Domingos, um jovem ao serviço de Deus, partiu de Portugal para a África, tendo ancorado em São Tomé e Príncipe, no início dos anos oitenta do século XX, no propósito religioso de iluminar as Paróquias de Nossa Senhora de Madalena e Santíssima Trindade, no interior da ilha de Santomé. Sorte grande!

Padre Domingos Ferreira Carneiro, o missionário dos Claretianos, nasceu a 12 de outubro de 1962, em Guimarei, no concelho de Santo Tirso, Diocese do Porto, a terra do meu avô. Por lá, no seu Porto, na Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria, a 20 de julho de 1991, foi ordenado na igreja de Nossa Senhora da Areosa.

Fundada em Espanha, no ano de 1849 e por Santo António Maria Claret, vivido entre 1807 e 1870, a Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração da Bem-Aventurada Virgem Maria, ou simplesmente, os Missionários Claretianos, com mais de três mil membros para a luz espiritual, está espalhada em mais de setenta e quatro países dos quatro cantos do mundo. 

Madalena e Trindade abriram os seus braços afetivos ao jovem de batina, de pouco mais de trinta anos. O jovem de batina, sem que constasse nalgum cardápio de fé, num concerto de perfeitas núpcias e no altar da mais alta escada do país, contas feitas, mais de cem degraus, com direito inigualável ao turismo das Sete Maravilhas das ilhas, abraçou os fieis das duas freguesias.  

Padre Domingos Ferreira Carneiro, o carismático cristão e clarão espiritual de Santa Madalena e Santíssima Trindade, com a maior da simplicidade, conquistou os corações de religiosos e ateus. Pôs em evidência a realidade bastante díspar à rotina da igreja católica. Depois da batina diária cortejada de estola verde, vestia o traje social e abria o coração a qualquer um que encostasse uns minutos ao diálogo fora das portas do cristianismo. Entrou por dentro dos são-tomenses.

Cheirou o seio do chão lamacento, introduziu os dedos na verdura e passou a saborear as delícias dos pratos insulares com que na mesa do quintal temperado de acolhimento, refrescava o calor tropical aos goles da uma gelada cerveja. Era um Homem igual aos homens, sem nunca por mínimo descuido perder o clarão do Vaticano.

Com a peculiar animação pastoral conquistou gaiatos, jovens e adultos. Mulheres e homens. Desde primeira hora dedicou um carinho invulgar aos idosos largados à sorte da hostilidade familiar e do abandono pelo Estado. Pela diferença e dignidade da velhice e dos deficientes, dinamizou a Santa Casa de Misericórdia. Os vestuários, as assistências diárias e os pratos quentes do dia-a-dia, de borla ao mundo vulnerável e aos lares dos sem pés de deslocação ao grátis restaurante da igreja, fizeram do padre, o fiel Ministro São-tomense da Espiritualidade e Humanidade.

Congregou no catolicismo e na residência católica da Trindade, a formação intelectual das distintas gerações de jovens missionários que partiam ao estrangeiro para se capacitarem na teologia cristã, graduando em madres e padres. Os desistentes prestam outras bagagens ao país. O recente e primeiro Bispo da Diocese de São Tomé e Príncipe, originário das ilhas evangelizadas, há mais de 500 anos, Dom João de Nazaré, é o símbolo atual e mais alto da claridade do clérigo Domingos.

Os primeiros domingos da Divina Liturgia de junho e setembro prosseguiram no dia maior do convívio tradicional e religioso da Trindade. O desporto, as vendas ambulantes, o Tchilôli, o Danço-Congo e as três, por vezes, quatro bandas musicais continuaram a acalorar os dois fins-de-semanas do ano. O povo vindo de todo o país, similar à infância pessoal que enchia a vila nos Santos Domingos, continuou a cortejar Deus-Pai e Nossa Senhora de Nazaré, os patronos da Trindade. A Santa Missa matinal, era seguida do banquete popular grátis, o tradicional “almoço d’atrás-d’igreja” concorrido pelas culinárias e bebidas oferecidas pelos juízes anuais das duas cerimónias.

A minha saudosa mãe, na formatação espiritual dos filhos, por razão imperiosa quando, em serviço de receção aos familiares e às intimidades da cidade, não pudesse marcar presença física na procissão da tarde enchente de velas, súplicas, cânticos, petições, trajes de estreia e ao som da banda de música policial, ajoelhava-se na porta do quintal. Na mais pura fé, entregava o espírito ao casal padroeiro da freguesia, confiando-lhe a proteção, saúde e felicidade dos seus filhos.

Em 2015, cumprido mais de vinte anos de préstimo eclesiástico, nas santas ilhas do meio do mundo, a eterna partida da mãe do vigário ao Céu, ditou a viagem relâmpago a Portugal para presenciar as exéquias da mulher que há sessenta e três anos, havia desembarcada, em Guimarei, Santo Tirso, no norte de Portugal, a criança a quem ao mundo dos pecadores, foi batizada de nome Domingos.

Sem regresso às ilhas que adotou de casa do coração – como o próprio definia: «os sacerdotes não são para missões de endereço sedentário» –  o Patriarcado de Lisboa, reverenciado pelo então Bispo diocesano, o cardeal Dom Manuel Clemente, no dia 16 de julho de 2015, presenteou o clérigo com uma nova missão às ovelhas. Nomeou o grandioso pastor Domingos Ferreira Carneiro, o novo pároco de Nossa Senhora da Consolação de Agualva, na Vigararia de Sintra, em Portugal. Missão que cumpriu até 8 de agosto de 2024.

Trindade deslocada de Santomé para Portugal, aos Santos Domingos ou na convivência privada, continuou a conferenciar na Paróquia de Agualva e a alimentar o espírito através do pai adotivo. Algumas das ovelhas do rebanho que foram a despedir do padre Domingos, na missa da Igreja de Santa Maria de Agualva de Sintra ou no funeral no Cemitério de Benfica, em Lisboa, no sábado, 18 de julho, entristecidas, enlutadas na alma e com o busto do sacerdote no coração doloroso, confidenciaram a natural emoção do mensageiro de Deus, o Missionário dos Claretianos, em vida.

Em carne, osso e espírito prometia regressar um dia a São Tomé e Príncipe para devolver os abraços, sorrisos, celebrar a Eucaristia do Adeus nas Paróquias de Santa Madalena e Santíssima Trindade e despedir das suas ovelhas de olhos, desde 2015, na longa estrada. A vida saiu-lhe curta.

Lá atrás, num dia fresco da Trindade com algum cheiro da gravana e os milagrosos raios do sol divino de Nossa Senhora de Nazaré retirando nuvens ao céu, 4 de setembro de 1994, um Santo Domingo, o respeitável padre Domingos celebrou a entrada dos meus primeiros filhos à vida cristã. Através do batismo, o casal de anjos de Deus e produtos da luz da jovem esposa de diligência maternal e romântica, a autora da misteriosa ginástica reservada à magia das mulheres – as produtoras e protetoras da humanidade -, foi confiado à Santíssima Trindade.

Anos mais tarde, na merecida homenagem da Trindade perpetuar o Reverendo Padre Domingos, uma das páginas do livro, «Ellyzé – Autópsia da Alma», tem gravado a comunhão da saudosa primogénita, celebrada pelo sacerdote e através da bênção da água e do pão da eternidade.

Hoje, fim-de-semana de Nossa Senhora de Nazaré, não há poesia litúrgica que possa substituir o sentido da felicidade ao alheio, repartida por aquele homem vestido de batina litúrgica da fé no palácio de solidariedade social e prestativo de décadas na intelectual avenida do humanismo.

O Reverendo Padre Domingos – a fruteira de raízes profundas na santa terra -, renasce nos quintais dos corações sem sequer, um dia, ter sido convidado ao palco de 12 de Julho para presenciar os comícios dos falsos profetas em contra-mão cívica, moral e ética. Jamais foi homenageado por São Tomé e Príncipe pelas décadas espirituais, sociais e intelectuais emprestadas à Humanidade.

Ainda jovem, deixou Portugal e familiares aceitando, em primeiro lugar, com amor, voluntarismo e trabalho abnegado a missão de servir São Tomé e Príncipe. Em troca, recolheu o sorriso afetuoso de várias gerações de são-tomenses que tiveram o iluminado privilégio de serem contagiadas pela vontade humana do majestoso padre Domingos em servir e iluminar às várias comunidades.

Que a Alma do Reverendo Padre Domingos, Descanse em Paz Eterna!

José Maria Cardoso

29.08.2026

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