Opinião

Américo Barros em maus lençóis subsidiados pela casa parlamentar

No calendário da África, justamente, há trinta e seis anos, as santas ilhas deram luz à espetacular bebé de estrelas brilhantes na testa. Radioso no horizonte, o Santo Domingo havia despertado repleto do povo eufórico, esperançoso e convocado por filas intermináveis a acertar através da cruz do sacrifício no mais fantástico reconhecimento à recém-nascida.

Sem margens de dúvidas à História insular, a seguir à consagração da Soberania Política e aventura económica necessária para a época, a Nacionalização das Roças coloniais largadas à sorte tropical, não há como contestar que 22 de Agosto, o Dia da Democracia, configura-se na mais-valia. O direito do povo à palavra livre; liberdade e responsabilidade crítica do pensamento; abertura do mercado privado; ao surgimento de forças políticas e escrutínio de agendas e autores políticos, tornaram-se incontestáveis no quadro democrático preenchido de clara alternância do poder presidencial, legislativo e executivo sazonalmente consagrado nas urnas.

Jamais se imaginaria a “sanzalice” da legislatura com os deputados arruaceiros em insistentes batuques e algazarras; nos insultos; nas manobras físicas em sessões plenárias de partir cara aos adversários; no cancelamento, em cima de hora, da Sessão Solene do Cinquentenário da Soberania Nacional; assalto à cadeira inativa da presidente do Parlamento; novo figurino de investidura mais alta ao vice-presidente, de estatuto independente; na anulação da Sessão Solene do Centenário do Símbolo Maior, a professora, poeta e nacionalista Alda do Espírito Santo com os convidados estrangeiros de pés no parlamento e no sem caráter do conturbado presidente da Assembleia Nacional, sem lucidez política, ética, moral e em auto contra-mão constitucional.

Nessa salada russa de refúgio institucional, salários concorridos e doiradas benesses aos deputados surdos, mudos e cegos por analfabetismo e conveniência, qual o cidadão não se acha de fato e gravata para tomar o gole de cerveja gelada na casa legislativa? O presidente do maior partido da oposição, figura aquém de percetibilidade política, não estando para meias medidas e na expetativa de Abnildo d’Oliveira, o seu homólogo de Nossa Terra, o partido extra parlamentar; sem dignidade exigível ao cargo, vir a dar posse, em 3 de setembro, ao reeleito Chefe do Estado, o engenheiro Carlos Vila Nova, esteve bem a encomendar novos fatos aos candidatos do MLSTP a deputados.

Não estando isolado, sem explicação plausível na Democracia, a exceção de carteira suspeita, os jogos de interesses ou a má-fé institucional, os novos projetos de formalização partidária, simplesmente, foram ardidos na fogueira dos juízes do Tribunal Constitucional voluntariados às especulações de toda cantiga. Parciais, jogam sujo nos princípios do Estado democrático do Direito; violam a Constituição; deixam a nu o matrimónio judicial com a política e sujeitam-se às queixas criminais por parte dos lesados e esmagados pela toga que aprofunda assimetrias de oportunidades e desigualdades de concorrência entre os são-tomenses.

Tardio e propositadamente, o MIE (Movimento pela Independência Económica) de Humbah Aguiar, com o ar fresco da diáspora e barulhento na praça pública, viu o aval dos juízes conselheiros de tornar-se na nova formação política, mas fora de prazo eleitoral de concorrer os escrutínios legislativos, distritais e regional de 27 de setembro. Senhores juízes, que “porquice”!?

Desviando-me da tinta sazonal e nauseabunda dos juízes conselheiros e do vexame do presidente parlamentar, o contexto real e sem qualquer imobilismo, é propício ao fogo de artifícios. Há muito que parte do país não estava para festejos. Favorecida por três itens do “D”, entregues de bandeja pelo poder executivo à oposição, consumada no desespero nacional, desgaste político e na desorientação de ADI, sufragados pelo feitiço contra o feiticeiro, nenhum mestre dispensaria o vento de bonança para iluminar os bairros em convulsão silenciosa e na profunda escuridão. 

Vai chegando a conta-gotas o clarão abrindo o véu do precioso coquetel de favas contadas para a engorda do MLSTP. Mas tudo não passa de ilusões. As caixas dos correios de militantes, apaixonantes ou simples observador, têm sido entulhadas de namoros eleitorais com as letras enferrujadas e de nada animadores aos corações mais frágeis: «Tirem o cavalinho da chuva!».

Na lista aos deputados à Assembleia Nacional nos dois distritos numerosos e de clareza concorrencial decisiva, Água Grande e Mé-Zóchi, à distância, as chamas do incêndio à Lei de Paridade, são nitidamente visíveis. Em contra-mão à legislação, as primeiras mulheres foram relegadas ao quarto lugar, de forma propositada a contrariar as duas primeiras opções e o equilíbrio contínuo para a disputa em pé de igualdade com os homens.

Os mais brilhantes da XII Legislatura que fizeram por dignificar a casa parlamentar e os debates legislativos, programáticos e de defesa do contraditório democrático, não foram tidos, nem achados. Chutados à zona de despromoção da lista ou para fora dela, até o antigo 1º ministro e candidato presidencial recente, Jorge Bom Jesus, o pactuado em surdina à concorrência da chefia do próximo parlamento quem, a última hora, mexeu com o país; tiveram de obedecer à conveniência, negligência e ao secretismo e complexo eleitos pelo presidente Américo Barros na caça às bruxas.

A auto ausência ruidosa e covarde nos recentes palcos do então candidato Carlos Vila Nova, naturalmente, dispensa a preservação das espécies vegetais e animais da biodiversidade ambiental.

Só que nenhum governo sombra, por mais refresco de juventude, deve fazer sombra à qualidade preenchendo de quantidade inútil apenas válida para a fotografia dos tachos. Exigente, deve privilegiar a urgente solução económica do país perdido de noção da deriva contínua na saúde, educação, administração pública, iniciativa privada, criação de riqueza e nas infraestruturas ao longo dos últimos cinquenta e um anos.

O problema que aflige, não menos, ao bom senso e à curiosidade pessoal, óbvio, é que a limpeza movida pela desgraça emocional, foi cega e baseada em cálculos errados e manipulados pela militância oportunista, desde sempre perdedora nos rácios dos respetivos círculos eleitorais. Obediente, é fiel ao presidente a residir na lua, ao invés de pés assentes na terra e numa perspetiva de alteração do “Status Quo” de rosto na maledicência da justiça corrupta. Sem máscara, sorteia os cadastrados para atrás das grades e os absolvidos pelo vulto, tornando Lucas e Purcell Mena, os atuais rostos do Estado à mercê de brigas institucionais manchadas de imundície judicial.

Do mais insuflável às próximas eleições, ainda resta a disputa do ar fresco da política económica e social baseada na organização, competência e previsibilidade de execução nos próximos quatro anos. Debatida na comunicação social entre os dois concorrentes, cara-a-cara, Américo Ramos e Américo Barros, os dois antigos Governadores do Banco Central e atuais comandantes das duas forças de alternância governativa, o país e a diáspora estão em corrida à aquisição dos bilhetes da primeira fila. Não haverá refúgios furtivos, assobios de inferioridade, contestabilidade económica, substitutos ou apagão de memória para desiludirem a opinião pública. A recuperação dos pontos deve ocorrer num segundo espetáculo democrático no palco de jornalistas de mão cheia.

Até lá, os contratos vingativos dos militantes e eleitores tradicionais de ADI que contrariam os tempos de antena, deselegantes, caducos e desesperantes, transmitidos em cada alocução do antigo 1º ministro de quatro executivos, direcionam ao voto útil. Demonstrativo de clara derrota ao exército de Américo Ramos, este despertou a arma histórica. Oportuno, assinou alianças eleitorais com os fundadores e demais excluídos há décadas pela anterior gestão partidária.

Américo Barros dependente de si mesmo, despertando do sono de abraço perfumado ao peito do adversário e corrigindo os erros de cálculo, promoção da incompetência, conforto romântico longe de câmaras e baixando as armas apontadas aos inimigos, poderá dar queda à pretensão de governo de Unidade Nacional ou outra figura destrutiva da Democracia de 22 de Agosto de 1990.

Infelizmente, ao camarão que dorme deixando tudo como está e sem retirar o proveito do contexto favorável, é inevitável o apagão no sofá da noite eleitoral com o país a acender os holofotes na competência económica, mãos limpas e lucidez comunicativa do super ministro Gareth Guadalupe para a liderança do XX Governo constitucional de São Tomé e Príncipe.

Não me indique dedo!

José Maria Cardoso

22.08.2026

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