Cultura

« O Poder Expressivo das Nossas Línguas » – O Crioulo Forro –

JANELA HUMORÍSTICA À MODA DA TERRA

 

« O Poder Expressivo das Nossas Línguas »

     – O Crioulo Forro – 

Desde os tempos mais remotos que as línguas, para além do seu papel de instrumento privilegiado da comunicação humana, vêm veiculando e difundindo através de gerações valores culturais, um património imaterial que se evidencia nas diversas manifestações identitárias de um povo ou de uma comunidade, exprimindo o seu sentir, os seus anseios, o seu modo de estar, os seus costumes e a sua tradição.

Folheando os diversos acontecimentos que se vão sucedendo no meu torrão natal, apercebi-me de uma ocorrência, ao que tudo indica, quase mítica, tratando-se de um episódio tragicómico transmitido por via oral e que se baseia numa realidade objectiva, num facto acontecido algures em São Tomé.

Juntando o útil ao agradável, sem querer adulterar os factos nem ferir a susceptibilidade dos estimados leitores, tomei a liberdade de (re)construir uma narrativa apoiando-me nalguma criatividade, imaginação e sensibilidade, e no espírito cómico e dramático que perpassa ao longo de todo o episódio narrado. Fi-lo na língua crioulo forro, ciente da importância e do papel crucial das nossas línguas (incluindo neste caso as demais realidades linguísticas de São Tomé e Príncipe) na origem, na construção e na formação da nossa sociedade.

A seguir, estruturei em português a síntese de tradução do referido episódio. Desejo e agradeço a todos uma boa leitura! 

Veja o artigo em formato PDF onde as palavras em crioulo forro não ficam desajustadas : ALBERTINO – JANELA HUMORÍSTICA À MODA DA TERRA (TELANON) (1)

 

« KONTAJI  NI  LUNGWA  SANTOME » 

Ũasungê tava katlaba n’ũakekason.

Ũadjaplamasuntom’ũakarinhaxtluvisu, ligiũakasonpêtlaxi dê, zaoxê ni karinha se kudixtinunganhakemotxibabukakadaveludiũangêku tava môlê ni flêgêja se, pabantela.

Ola sun tava n’ômêxtladakabe, suba da sonkutlovada. Ũasungêku tava ka vala ni bodo xtlada, monhadu potopoto, sama sun, pidji bolila.

Kumasunxofelusangêdêsu, sunmundjakarinha, fulanusubli, karuxêkabe, zofulanufla:

– Kyê! A dêsu mu, kênanson suba ê, kompa?!

Kumendupasun na dwentxi, monhadu mo sun tava, sunbilikasonba liba, lentlanglentu dê, deta, zofisa tampa dê. Sunfla:

– Klê ni DêsuPadêKlusu, suba!!!

Klê ni DêsuPadêKlusu, suba!!!

Vangana  vangana, vangana  vangana, a tava vala tlêxikilometlukabeza, maji suba na mundjafa!

Ola se me, yôngê tava ka vala ni bodo xtlada, monhadu potopoto, nê pinta kwa na ta safa! Nen sama xofelupidji bolila. Ola sungêmundjakarinha, inentudaxivwalentlakaru.

Inen tava, inen tava… zo suba klamapikina!

Ola se me, sun se ku tava nglentukason, sun na bila tendêtlomentu suba ni liba kasonfa, sunlanta tampa kasonkuũamon, sayaôtlômonpêlwa, pasunsêbê xi suba klamaza.

Ni ola se me, pekadôku tava tasondu ni tlaxikarinha, bê mon se kaxê ni nglentukason, inenkundazalima-bluku, inenvwakyêblôgôdô, keblamon, kebl’ope, keblakabêsa, senforaôtlô d’inenkumôlê fia kôkôkô…

Kwa se me, xipitali toma patxi.

Zao, nê xofelu, nê sun se ku tava nglentukason na tava sêbênadaxikupasafa…

Awoê!!!…Un!

Non dumu ê nai ê! 

Albertino Will Pires dos Santos

(Fedu ni djavintxidiMayudianudôsumilidexiku nove) 

*** 

JANELA HUMORÍSTICA

(Síntese de tradução da história) 

Certa vez um motorista dirigia-se a um luxan transportando na carroçaria do automóvel um caixão vazio para o funeral de alguém que tinha falecido naquela localidade.

A meio do percurso, já bem distante da capital, começou a chover torrencialmente, e um indivíduo que passava pela berma da estrada, aflito, acenou ao condutor pedindo boleia.

De pronto, o motorista parou e quem pedia boleia, subiu para a traseira da viatura. A chuva era tanta, que o homem, notando que o caixão estava vazio, entrou nele e deitou-se, fechando a tampa.

A chuva continuava a cair intensamente quando, passados alguns quilómetros, um grupo de aproximadamente dez pessoas que caminhavam pela rua pediu boleia ao motorista.

De bom coração, o automobilista parou o carro e elas rapidamente subiram.

Pouco depois, a chuva diminuiu e o homem que jazia dentro do caixão, apercebendo-se disso, levantou com uma mão a tampa e estendeu para fora o outro braço abrindo a mão, a fim de se certificar de que a chuva já não molhava.

Apanhados de surpresa e terror, os outros ocupantes, vendo o braço de um suposto fantasma, saltaram do carro, atirando-se para onde quer que fosse, porque o caso não era para menos! Resultado: feridos, mortos e aleijados, que deram entrada no hospital!

Entretanto, nem o ocupante do caixão nem o motorista se aperceberam do ocorrido. Vieram sabê-lo muito mais tarde!

Albertino Will Pires dos Santos

(Feito no dia 20 de Maio do ano de 2019) 

Muito obrigado pela vossa atenção!

 

São Tomé, 28 de Julho de 2020.

Elaborado e escrito por:

Albertino Will Pires dos Santos

(Licenciado em Tradução, professor e bibliotecário no Liceu Nacional de São Tomé e Príncipe)

    7 comentários

7 comentários

  1. Como será

    1 de Agosto de 2020 as 14:53

    SENHOR professor Albertino, confesdo qur tive imensas dificuldade em o teu conto, e queria saber se na nossa lingua “criolo”as frases sao escritas sem dar intervalos na palavras. Agradecia o seu esclarecimento.

    • Púmbú

      2 de Agosto de 2020 as 0:28

      Também tive dificuldades em ler e perceber este conto interessante. Achei duas e mais palavras unidas numa só…

      • Albertino Will Pires dos Santos

        2 de Agosto de 2020 as 20:47

        Estimado leitor:
        Lamento e peço desculpas, tem toda a razão nas suas afirmações, tratou-se de um erro de processamento informático. Mas a situação já foi melhorada com a apresentação do artigo no formato PDF. Assim, pedia ao caríssimo leitor o favor de voltar a ler o artigo e clicar no link a vermelho do formato PDF e, desta forma, poderá ler o texto integral em que as palavras escritas em crioulo forro não se encontram desajustadas. Uma vez mais o meu muito obrigado por ter alertado para a situação, contribuindo com a sua útil e preciosa colaboração.
        Com os meus respeitosos cumprimentos.
        Albertino Will Pires dos Santos.

  2. Pedro Costa

    2 de Agosto de 2020 as 20:02

    Gostaria que o Sr. Albertino Will viesse esclarecer ao público em geral e eu em particular as dúvidas levantadas.Também seria interessante para mim, porque vejo aqui termos e palavras do nosso crioulo que nunca esperava que escrevessem da forma como está. Há palavras em que, pelo fonema, teria escrito com acentos agudos ou circunflexo; aliás penso eu que o nosso crioulo utiliza muito o acento agudo e circunflexo. Se teve o ensejo de nos apresentar este conto, por favor apareça e diga qualquer coisa, porque estou confuso.
    Por outro lado pergunto-lhe se existe alguma gramática ou coisa parecida do nosso crioulo?

  3. Pedro Costa

    3 de Agosto de 2020 as 9:59

    Não percebo este enquadramento !
    Se virem bem, o meu comentário é no dia 2 de Agosto pelas 20:02 e a resposta do visado neste comentário é no mesmo dia, no entanto a hora é 20:47. Não seria mais lógico colocarem a resposta do Albertino Will depois do meu comentário?

    • Púmbú

      3 de Agosto de 2020 as 20:26

      Deve ser uma questão da diferença de fuso horário. O Sr. Deve estar fora de STP…

  4. SEMPRE MIGO

    4 de Agosto de 2020 as 9:39

    Caro Albertino, congratulações! Já é um bom começo, escrevendo em crioulo forro. No entanto, penso que seria bom corrigir não poucas imperfeições desta mesma escrita, por exemplo as palavras que devem ser melhor escritas, unidas que devem estar separadas: em vez de “Ũasungê tava katlaba n’ũakekason”, proporia “Úwã súnguê tàva kà tlàba n’uwā Ké Káson”; “Ũadjaplamasuntom’ũakarinhaxtluvisu…”, “Uwã djà plamá Sún tòma uwã Karinha xtluvisu…”; etc.
    Um abraço
    Botelho

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